Marcelo me olhou triste como se não soubesse como me responder. Ele me traía ou não?
- Solange, eu disse que deixei de te amar. Não me faça tocar neste assunto de novo. Vou dormir. Boa noite- disse encerrando o assunto de vez.
Eu me senti um lixo perguntando por que ele queria se separar de mim. Até parecia que eu estava implorando para que ele me desse uma razão sólida para o fim da nossa histórria. Mas a verdade é que o casamento já era um tédio mesmo. Ele estava certo... Ah, sei lá. Pode ser que ele me esconda algo sim. É triste que eu não conheça meu marido depois de 20 anos. Coloquei as mãos no rosto. A vida é tão trágica às vezes.
Com quem dividir isso? Eu queria agora alguém para conversar, mas ninguém poderia me ajudar. Minha colega de trabalho é minha amiga, mas não é tão íntima assim que eu pudesse ligar a esta hora da noite. Fui dormir com esta mágoa entalada na garganta. Mais uma vez.
O pior era dormir do lado dele... Não sei por que ainda dividimos a mesma cama. O Marcelo desgraçado deveria dormir no sofá. Eu sou a vítima nesta separação. Ele que dormisse mal na sala de casa.
À noite tentei encontrar o celular dele, mas não consegui encontrá-lo em lugar nenhum. Talvez estivesse na bolsa dele, que está escondida em algum lugar da casa. Algum segredo ele anda me escondendo. Fiquei muito preocupada com isso e esqueci até de jantar.
No outro dia, comi pouco no café da manhã. Notei que estava perdendo peso muito rápido. Me olhei no espelho e vi uma mulher abatida, cansada, sem força para viver.
Chegando ao trabalho, esperei as clientes chegarem. Enquanto não havia ninguém conversei com Cleyde sobre os últimos acontecimentos no meu casamento.
- Ontem eu tentei encontrar o celular do desgraçado, mas não encontrei, Cleyde.
- E você sabe a senha dele do e-mail? Talvez ele tenha alguma mensagem secreta... Você não disse que ele acessa site de paquera?
Eu me senti mal. Odeio espionar a vida dele assim, mas eu queria descobrir a verdadeira razão pela qual Marcelo quer me deixar. Eu vou descobrir esta merda!
Cleyde ficou em silêncio. Depois de alguns minutos, disse:
- Olha. Existe um programa chamado keylogger. Você baixa e consegue ver a senha da pessoa do e-mail. Quem sabe você descobre o que ele anda fazendo...
Pra mim, o que ele estava dizendo parecia grego! Fiz uma cara de idiota:
- Key o quê? Isso é nome de banda? - consegui perguntar rindo. Pela primeira vez em um mês consegui rir.
- Keylogger- ela gritou.
Neste momento, entrava nosso primeiro cliente. Era um rapaz que eu nunca tinha visto antes com os cabelos castanhos escuros aparentemente um pouco longos. Tinha os olhos verdes escondidos por trás de um óculos zé estudioso e a pele branca. Era magro e alto.
Nós o cumprimentamos e ele disse que queria cortar apenas as pontas. Sentou-se do meu lado, sorrindo. Eu lavei o cabelo dele, massageei e esperei um pouco antes de começar a cortar as madeixas dele.
- Vocês estavam falando de keylogger?- disse meu cliente. Os olhos verdes brilhando.
Por que será que esta palavra não me deixa em paz? Eu nunca que vou conseguir entender o que é isso!
- Sim- disse sem querer puxar assunto.
- Eu conheço vários sites onde você pode baixar.
Continuei cortando as pontas do cabelo dele sem olhar para a sua imagem no espelho à nossa frente.
- Er... Eu não entendo de computador muito. É pra uma amiga.
Outra cliente entrou no salão e Cleyde começou a se ocupar dos cabelos negros dela. Sem se deixar interromper pela entrada de mais uma pessoa na sala, meu cliente disse:
- Eu posso ajudar a sua amiga. Ou melhor, depois que você cortar meu cabelo, eu vou escrever num papel passo por passo para você- disse meu cliente sorrindo.
Ah, eu não vou conseguir baixar o programa nunca. Eu sei disse, mas concordei com a oferta dele.
Depois que ele pagou pelo corte, eu dei um papel para ele e ele me escreveu os nomes do site explicando detalhamente o que eu deveria fazer. Eu entendi? Não!
Mesmo assim mais tarde em casa, liguei o computador e tentei fazer como o cliente que, na verdade, chamava-se Ricardo me ensinou. Eu lutei de todas as maneiras, mas nada parecia acontecer no computador.
Marcelo chegou por volta de 19 horas e eu desliguei apressadamente a máquina como se estivesse cometendo um crime. Fiquei nervosa e fui ao banheiro. Fiquei sentada no sanitário até que o meu nervosismo passou.
Como sempre, ele me deu boa noite e se retirou para a sala de estar. Começou a ler o jornal e eu não tive mais sinais dele depois disso. Ele leu o jornal até às 20 horas, ficou ligado no celular, mandando milhares de mensagens. Ora sorria, ora ficava sério. Eu parecia que não existia mais para ele. Que desgraçado!
Eu estava louca para voltar ao trabalho para perguntar a Cleyde como este keylogger funciona! Cheguei até mais cedo só para perguntar a ela. Mas ela disse que só tinha ouvido falar do programa, mas nunca tinha usado. Detalhes ela não sabia. Eu estava ficando cada vez mais curiosa.
No fim do expediente eu estava desapontada por não conseguir decifrar mais nada a respeito disso. Ao sair do salão de beleza, avistei Ricardo a alguns metros andando em direção a um supermercado. Corrí até chegar perto dele. Estava tão cansada que nem conseguia respirar direito. É. Estou fora de forma.
Surpreso que eu tivesse corrido só para falar com ele, disse:
- Oi, Solange? Solange é seu nome, né? Está tudo bem com você?
- Sim, sim. Eu queria pedir um favor! - disse ofegando ainda cansada da maratona.
Ele sorriu:
- Sim, se eu puder ajudar...
- É sobre o tal do key... como é o nome mesmo?
-Keylogger.
- Sim, você pode me explicar de novo?
Ele ficou com um ar de quem não entendia que eu tivesse corrido todos aqueles metros apenas por isso. Ele deve estar pensando que eu estou maluca. Não importa o que ele pense. Eu preciso saber a senha do Marcelo no computador.
Depois de alguns minutos, disse:
- Eu posso te mostrar no meu computador em casa se você tiver tempo...
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A separação
RomanceSolange Conceição é agora a sombra do que foi. Uma mulher triste depois que o marido lhe pediu divórcio. Uma história sobre como esquecer um amor antigo.