A ponta da espada de Selion atravessou o peito de seu adversário. Um golpe preciso que perfurou o coração do pobre homem que se opunha ao desejo do Unificador. Ao redor de Selion, o resto do massacre continuava enquanto seus companheiros finalizavam os últimos opositores.
Espadas e lanças com lâminas feitas de ossos polidos de feras das Terras Vermelhas e envernizadas com o fluido adquirido das plantas caquetoides para endurece-las tinham se tornado instrumentos padrões para o Exército da Unificação, a força militar da primeira cidade das Terras Vermelhas.
Selion que tinha nascido em uma pequena caravana, arregalava os olhos maravilhado sempre que via as gigantescas muralhas feitas de blocos rochosos que cercavam Esperança, a primeira cidade das Terras Vermelhas, recheada com milhares de casas. Edifícios resistentes, diferentes das tendas frágeis das caravanas ou dos pequenos Assentamentos.
Já faziam dois anos desde que Selion tinha se juntado ao Exército da Unificação, uma força militar que percorria as Terras Vermelhas ao redor de Esperança, convocando todos os habitantes dos pequenos Assentamentos ou Caravanas a se juntarem na cidade sob a liderança do Unificador.
Muitos aceitavam prontamente o ultimato, felizes em ficarem protegidos atrás de uma poderosa muralha, tendo comida e água sendo providenciados em meio aquele inferno escaldante que era o mundo em que viviam, mas alguns poucos tendiam a não aceitar bem a perda de sua liberdade, alguns poucos como os homens e mulheres mortos ao redor de Selion.
- Parece que eliminamos toda a resistência, Capitão – um dos companheiros de Selion, um homem baixo com pele levemente avermelhada se aproximou e relatou.
- Perdemos alguém?
- Alguns feridos, mas nenhum morto – o homem respondeu cheio de desdém para com os inimigos derrotados. – Eles não puderam fazer nada para nos enfrentar.
Selion franziu um pouco a testa, desaprovando os modos do companheiro. Era claro que aquelas pessoas não conseguiram reagir a eles. Desde quando um pequeno Assentamento como aquele teria a força para resistir a vinte soldados bem treinados e armados do Exército da unificação? Pensar que a vitória deles era algo para se orgulhar era uma tolice.
- Quantos morreram deles?
- Dezessete mortos, Capitão – o homem respondeu com um pouco mais de cautela após reparar no rosto de Selion. – Capturamos sete crianças escondidas dentro das tendas.
- Mantenha vigilância sobre elas, mas não as maltrate – Selion avisou o homem. – Elas sertão futuras cidadãs de Esperança.
- Está mesmo tudo bem levar esses estrangeiros para Esperança, Capitão? Não é perigoso?
A pergunta pôs um sorriso nos lábios de Selion enquanto se virava e dava um olhar ao homem que deixava claro sua opinião por aquela pergunta, mas ainda assim ele resolveu responder.
- Não existe isso de estrangeiros ou nativos em Esperança, você deveria ficar mais atento as palavras do Unificador. Somos todos humanos, herdeiros de uma época perdida e que devemos recuperar nossa antiga gloria.
Assim que terminou de falar, Selion olhou em volta para um grupo de seus soldados reunindo os corpos dos moribundos em um canto enquanto outro grupo cavava uma cova onde jogariam todos eles.
Apesar do objetivo do Unificador ser um sonho nobre, cheio de esperança para o futuro da humanidade nas Terras Vermelhas, ainda assim era um objetivo manchado de sangue, tão vermelho quanto as terras em que viviam, mas Selion estava pronto para seguir nesse caminho, pois a outra opção seria voltar aos dias de miséria onde eles dormiam todas as noites sem saber se encontrariam água, comida ou segurança no dia seguinte.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Contos das Terras Vermelhas
Short StoryColetânea de Contos de um mundo destruído. Um mundo vermelho sangue, um mundo seco em constante evolução. Um mundo de pessoas perseverantes, um mundo de terrores, um mundo de violência, mas ainda assim um mundo de esperanças.