As vozes de homens e mulheres se erguiam em um coro sincronizado enquanto entoavam os cânticos matinais dentro do rustico templo. Todos vestindo as togas de duas cores. Brancas e negras. Yamagadi passou pela entrada do templo, querendo se juntar a seus irmãos e irmãs, mas infelizmente ele tinha trabalho a fazer. Deixando as orações matinais para trás, ele atravessou terrenos rochosos que futuramente se tornariam uma expansão do templo. Um forte para o Culto da Vida e da Morte. E se dirigiu a entrada da propriedade. Um majestoso portão esculpido nas paredes da montanha onde estavam.
Lá, dois Irmãos já esperavam com um grupo de pessoas maltrapilhas reunidas as suas costas, olhando em volta com desconfiança e medo. Yamagadi olhou para aquelas pessoas, os não seguidores do Culto, mas que teriam sua importância para o futuro. Ele viu homens, mulheres, crianças e velhos. Todos muito magros, o que fez com que ele temesse que talvez não fossem o bastante para o serviço.
- Irmão Yamagadi – os dois Irmãos saudaram ele respeitosamente, curvando a cabeça.
- Irmão Agaliot, Irmão Saliero, que bom que conseguiram retornar em segurança – Yamagadi saudou seus irmãos com um sorriso e então olhou em volta, sabendo que faltava a presença de um grupo. – Onde estão os Cavaleiros da Vida e da Morte?
- O Irmão Nestor liberou seu batalhão depois que chegamos, eles estavam muito cansados e alguns feridos. Precisavam dos devidos cuidados – Saliero respondeu, demonstrando em sua voz e postura que os Cavaleiros não eram os únicos cansados.
Yamagadi assentiu, compreendendo a situação e voltou sua atenção para o grupo maltrapilho. Aqueles teriam sido sobreviventes de alguma caravana ou quem sabe de algum miserável assentamento? Com certeza não faziam parte do novo Império que se expandia pelas Terras Vermelhas. Todos eles tinham peles vermelhas, apesar de variar na tonalidade de um para o outro. Era impressionante como no último século as pessoas começaram a perder as tonalidades antigas enquanto as peles assumiam uma textura mais grossa e seca com tons de vermelhos.
- Sejam bem-vindos ao Templo do Culto da Vida e da Morte – Yamagadi abriu os braços enquanto falava para os recém-chegados. – Meus Irmãos já devem ter avisado vocês, mas gostaria de lembra-los que estão seguros aqui. Enquanto seguirem o acordo receberão comida, água e segurança.
- E não precisaremos seguir o Culto? – Um homem barbado e corcunda perguntou. – Eu ouvi do meu avô que no passado existiam umas tais de religiões, que esse negócio de crenças causava guerras e discórdia no velho mundo.
Os três Irmãos deram uma boa olhada no homem corcunda, surpresos por alguém ainda saber o que era uma religião, ou ter histórias de algo que tinha acontecido a pelo menos quinhentos anos atrás.
- Vocês não são obrigados a seguir o Culto – Yamagadi resolveu deixar as coisas claras para aquele grupo. – Vocês estão aqui porque precisamos de mão de obra para construir o Templo. Nosso Culto não impõe nossas crenças aos outros. Somos um grupo que crê na Vida e na Morte. Nossa existência começa na Vida e em algum momento precisa acabar na Morte. Aqui estudamos maneiras de salvar vidas e quando isso não é possível, aliviamos o processo para a morte.
O homem parecia ainda desconfiado, mesmo depois da explicação. Ele olhou para seus companheiros, vendo a desconfiança e medo ainda presente nos rostos de alguns deles.
- E para que vocês precisam de soldados?
- Ora, somos um Culto de estudiosos, então é claro que precisamos de pessoas para nos manter seguras quando predadores ou bandidos tentarem trazer prematuramente a morte até nós.
O homem parecia ainda estar desconfiado, mas no final, seguiu com os outros sem causar problema quando Yamagadi os levou até os dormitórios onde outros trabalhadores já residiam. Seriam todos necessários para que o Templo alcançasse a gloria prevista.
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Contos das Terras Vermelhas
Historia CortaColetânea de Contos de um mundo destruído. Um mundo vermelho sangue, um mundo seco em constante evolução. Um mundo de pessoas perseverantes, um mundo de terrores, um mundo de violência, mas ainda assim um mundo de esperanças.