O céu está alegre. É um dia de Sol de verão como aqueles, que nos faz passar mal, afinal, não estamos na Europa. Contudo, era o dia perfeito para um piquenique. Ângela sai de casa para aproveitar o dia. Ela ama o verão, também ama sentir o Sol ardendo na ponta do seu nariz, e aprecia o vento em suas madeixas que batem no pescoço. É um dia gostoso.
Ela chega na área de preservação ambiental da cidade e prepara o piquenique. Não espera a companhia de ninguém senão dela própria. Gostava de passar um tempo consigo mesma. Solitude o nome. No parque existem preguiças, micos e até jacarés mais próximos a região mais pantanosa do parque. Ela pega um suco de caju, seu favorito, e um pão com pasta de avelã e requeijão, lambança que ela gostava e não contava para ninguém. A pasta de avelã predomina no sabor, mas se sente, lá no finalzinho, a pontinha de sabor do requeijão, e para ela essa era a magia dessa receita atípica. O suco de caju ela adorava porque a lembrava da infância e de sua primeira e única viagem de avião. Havia ido para Natal, onde se situa o maior ser vivo do mundo, o cajueiro. Ângela tomou o suco que vinha direto dessa árvore magnífica e se apaixonou. Desde então ela sempre busca por um caju. Como é bonita essa lembrança e como é bela a vida.
Mas a mente... ah, a mente, é uma maquininha ardilosa e ela, somente ela, poderia fazer desse dia uma bela merda. De uma lembrança ruim, Ângela involuntariamente lembra também que foi na infância que ela viu seu cachorro sendo atropelado, após se separar dela para ir buscar um graveto. Lembrou, a seguir, daquele episódio em que, brincando com seu gato, seu mais novo bichinho de estimação, ela imprudentemente o joga para o alto, fazendo com que ele bata no ventilador de teto, que estava ligado, quebrando o pescoço do bichano e o matando na mesma hora. Lembra também de que nunca conseguiu manter um peixinho vivo por mais de uma semana. Percebeu que, nesse exato momento, não faz ideia de onde está Joyce, sua jabuti que ganhou de uma vizinha na semana passada.
Não é por querer, mas Ângela atrai sangue, dor, e morte para aqueles seres vivos que não sejam plantas ou humanos. Ela ama os animais, mas os mesmos, de uma forma coletiva, aprenderam que é melhor ficarem longe dela. No parque, nenhuma preguiça fica parada quando a vê chegar, nem mesmo os micos tentam roubar-lhe a comida. Talvez, se ela chegasse perto dos jacarés, eles em prontidão já fugiriam.
Ângela chora. Chora por ter sido uma péssima cuidadora. Como podia ser tão descuidada com uma vida? Ela sabe que não deveria ficar perto de bichos, mas ela sempre esquece. Sempre quer mais um. E ela sempre dá um jeito do bicho morrer. "Ela puxou a bisavó nesse sentido" disse a tia, "é uma mandinga que já pegou algumas de nossas gerações". O dia é lindo, mas Ângela chora. Mas também, como ter um dia perfeito se todos os seus antigos animaizinhos estão enterrados no parque, nesse mesmo parque, em que ela se encontra?
A garota se recupera, era melhor já ir para casa. Já menos borocoxô, tem uma nova ideia: e se eu arrumasse um papagaio? Ensinaria-o a dizer "puta que pariu", pensou.
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Desalinhos e Tormentos
القصة القصيرةDesalinhos e Tormentos traz uma coletânea de contos que podem identificar a maioria dos leitores: jovens perdidos na vida e que sentem que tudo está errado, inclusive com eles próprios. A humanidade é louca, repleta de contradições, e a nova geração...
