"Seu talarico desgraçado" foi a última acusação que Raul sofreu, após ter se envolvido com uma ex de um antigo amigo. Ah, pelo amor de Deus, vê se pode uma coisa dessas. Vive no Rio de Janeiro e chama os outros de talarico. Talarico e carioca são a mesma coisa. Raul ria dessa tremenda injustiça. "Quando ele ficou arroizando a minha ex, eu não falei nada. Agora quem paga de otário sou eu." Raul estava mais que certo. Não existe isso de talaricagem no Rio. Que atire a primeira pedra quem nunca desejou a pessoa de um alguém alheio. Num grupo qualquer, escolhido de forma completamente aleatória, é certo que todos dentro desse grupo já tenha se beijado ao menos uma vez. É normal. São coisas do Rio de Janeiro. Nas festas, o usual é pegar metade dos convidados e marcar de sair com a outra metade. Já se nasce entendendo que somos de todo mundo e de ninguém. Nascemos modernos na antiga capital do Brasil.
Agora que estão vindo com esse papo moralista pra cima de Raul. Um absurdo sem igual. Quando que as pessoas decidiram retroceder nesse nível? Eu achava realmente que isso era um assunto passado já, antiquado, retrógrado, coisa de reacionário. Por conta desse episódio enfadonho, Raul teve que ser demitido do emprego! É possível isso? E não era nem uma garota do trabalho, mas ficavam encarando-o com aquela cara de "tenho vontade de fazer o mesmo, mas me falta culhão para tal". "O senhor não age de acordo com os padrões de comportamento da empresa" disse o RH.
Tudo isso me é contado por Raul numa mesa de bar, gastando parte do FGTS sacado. Um bom investimento em cachaça. No bar, todos somos iguais, modernos, não fazemos moralismo pequeno pensando em quem pega quem. Aqui, xingamos todos que ficam com essa dor de corno, e conversamos bem animados como se fôssemos, bêbados, mudar os rumos do país. "E o que você vai fazer pra mudar ça porra, Raul? Vai virar presidente" eu perguntei, já querendo me mijar todo. "Presidente? Não votariam num talarico. Eu vou é dar um golpe" e rimos. Rimos despreocupados no único lugar em que se pode falar grandes asneiras e que ninguém de fato vai ligar, pois são todos igualmente asnos, talaricos, pseudo-intelectuais de mesa de bar
"E foi isso, Carlos, me demitiram da porra do emprego. Por conta de quem eu deixo ou não de me envolver. Mas foda-se, eu não tava aguentando mais, sabe? Essa coisa de ficar sentado o dia inteiro, trabalhando que nem um condenado e fingindo que tá feliz não é pra mim. Não mesmo. A cada segundo naquela cadeira, naquela empresa, eu sentia como se estivesse desperdiçando a minha vida, que meu lugar não era aquele. Nada contra quem queira, mas eu não quero.
O que eu vou fazer agora? Aí é que tá, eu não sei. Não sei mesmo. Ainda bem que economizei o suficiente para ficar alguns meses sem fazer nada. To pensando em voltar pra faculdade, pesquisar alguma coisa, ou fazer um curso novo. Não tenho certeza do que está por vir, mas isso me cativa de alguma forma. A incerteza me traz mais conforto do que a certeza entediante e agonizante que era aquele trabalho. É isso... na faculdade pelo menos é dá pra talaricar a vontade, galera de humanas sempre bem evoluída. Vamo pedir mais uma?"
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Desalinhos e Tormentos
Short StoryDesalinhos e Tormentos traz uma coletânea de contos que podem identificar a maioria dos leitores: jovens perdidos na vida e que sentem que tudo está errado, inclusive com eles próprios. A humanidade é louca, repleta de contradições, e a nova geração...
