" Desnuda-me... Corpo e alma. Devora-me somente com teu olhar. Ama-me com a doçura do toque das tuas mãos. Seduza-me... Faça de mim tua sempre mulher."
Val Garcia
Márcio
Depois de uma longa conversa, Virgílio já estava a par de toda a situação ocorrida. Ele recebeu o aval de meu pai para que recursos não fossem poupados. Deu carta branca para a contratação de pessoal que pudesse acrescentar nas investigações. Também fez algumas ligações para velhos amigos da área jurídica a fim de facilitar as coisas.
Minha cabeça estava um turbilhão de emoções. Se por um lado eu ansiava saber sobre o meu passado, por outro eu abominava a ideia de ter essa mulher que meu pai defende tanto, mas que eu não consigo achar desculpas para seus atos que tiveram efeito exclusivamente em minha vida. Eu precisava conversar com alguém e somente Pérola parecia ser a pessoa certa.
Ela poderia me achar um louco. Não tínhamos intimidade além da cama para isso, mas como covardia e medo do que pensariam sobre mim nunca fez parte do meu ser, liguei para ela e iremos jantar no meu apartamento hoje a noite. Eu precisava saber o que uma criança normal passava em sua infância, pois a minha parece nunca ter existido.
(..,)
Pontualmente ouço a campainha no horário marcado. O aroma da comida já tomava conta do ambiente. Eu mesmo me dediquei na preparação do jantar. Não sou nenhum chef ou especialista em comidas, mas sei me virar até que bem nesse quesito. Afinal nunca tive uma mãe para mimos. Nos lares adotivos o teto nunca saiu de graça. Lavar, passar, varrer e cozinhar faziam parte do pacote, além das surras constantes.
Afugento as lembranças quando novamente a campainha é tocada. Fiquei pensando no que não tem mais sentido e acabei esquecendo que atrás daquela porta tem algo muito mais interessante para povoar meus pensamentos.
Ela estava linda. É impressionante como a simplicidade deixa seu brilho ainda mais evidente. Nas mãos trazia a sobremesa. Segundo ela uma torta gelada que eu jamais iria esquecer. E eu tinha certeza que ela estava falando a verdade.
Depois de guardar a torta voltei já munido de uma garrafa de vinho e taças. Sentamos a mesa e vi seu espanto quando ficou sabendo que eu mesmo tinha cozinhado. Durante o jantar conversamos sobre a proposta que ela tinha recebido de trabalho e que aceitou por dizer que era tudo que sempre sonho. Por mais que eu quisesse era impossível deixar de ficar bobo vendo o entusiasmo em suas palavras e o brilho em seus olhos. Pérola era uma mulher apaixonante.
Pérola: Então, o que queria conversar? - falou assim que sentamos no tapete da sala com nossas taças de vinho. Resolvemos deixar a sobremesa para depois da conversa. - Durante o jantar eu só matraquei e você escutou. Agora é sua vez.
Márcio: Nem sei por onde começar. - agora parecia loucura. Ela provavelmente iria rir da minha cara por querer saber disso.
Pérola: Não vou te dizer que pelo começo, porque pode ser por onde achar melhor. - sorriu e o sorriso me passou uma confiança que só sentia com meu pai.
Márcio: Realmente vai querer saber o que eu quero?
Pérola: Não sei se é uma boa ideia querer saber algo assim estando sozinha com você em seu apartamento. Sua fama te condena.- achei melhor não retrucar. Realmente estou me acovardando com o rumo que as coisas estão tomando. Dia após dia estamos mais próximos e mais íntimos. A cada segundo percebo seus olhares e é como se ela esperasse um sinal, um único aval para seguir em frente. Eu só não sei se quero seguir em frente e ela ser mais uma na vasta lista de mulheres que passaram por aqui, antes dela. Pérola é diferente. Sei que não está disposta a somar, muito pelo contrário, quer ser o STOP. Quer ser o sinal vermelho que fará parar e decidir pelo certo, pelo firme e não pelas aventuras.
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