Todo o lançe do ritual fez Bianca ficar com sono. Ela nos entrega o pergaminho e se deita no sofá, conseguindo pregar no sono em menos de dois minutos.
Eu tiro tudo o que estava em cima da mesa e coloco o pergaminho no meio, abro com delicadeza até ver que somente o nome, "Pergaminho de Davi", está escrito em seu topo. O restante é um completo e infinito nada.
- Isso só pode ser brincadeira - Rebecca diz. - Um passo para frente e três para trás.
Ficamos em silêncio por um momento.
- No seu sonho - Rebecca começa. - Não havia mais nada?
Me forço a lembrar. Pelo o que eu me lembre só havia recebido a mensagem do pergaminho. Depois de algumas tentativas, eu desisto.
- Eu só queria saber o que é para nós fazermos agora - digo, batendo com o punho na mesa. O pergaminho, que estava aberto, se encolhe em um passe de mágica e começa a dar pulos pequenos, liberando um brilho de pouca opacidade de suas extremidades.
Eu e Rebecca nos encaramos e eu me lembro de um pedaço do meu sonho, que Rafael diz que tudo está escrito no pergaminho. É claro, basta pedir.
O pergaminho para de se mexer e abre pela mesa, porém dessa vez tem algo escrito.
Os filhos da profecia se juntaram e o mal querem destruir.
Mas não havia destruído há quinze anos?
Não responda.
O pai caiu em tentação, dois se livraram da maldade do mundo,
duas não se conversam, um é tolo.
Assim como previsto. Os Filhos do Sol, do deus Sol nasceram.
A mãe morta há tempos, frutos de sexo sem consentimento.
A batalha final tentaram vencer, mas nada tem um fim.
Nem mesmo a morte, meu caro leitor,
nem ela é o final.
Tantas batalhas enfrentadas, tantos monstros dissolvidos,
mas nunca como um igual a este.
Júnior tem a espada, a mesma que usou contra seu pai.
Rebecca se encante com o arco pulsante, sabes mexer.
Bianca não tente longa distância, use uma espada.
Não esqueçam das armaduras, guardiões.
O que enfrentarão, nunca foi enfrentado. Ah, os Filhos do Sol.
Destinados em uma profecia nunca lida.
Não esqueçam do que mais fez vocês felizes.
Não esqueçam de suas próprias vidas.
Lute, caro leitor.
O mundo é uma batalha.
Mas nem mesmo a morte, meu caro leitor,
nem ela é o final.
Enfrentem sem medo, demônios do passado e terrores do presente.
Sintam saudades. Sintam amor.
Se engolir é seu poder, ó círculo de fogo,
então cuidado com o que comes.
Lute, caro leitor.
O mundo é uma batalha.
Mas nem mesmo a morte, meu caro leitor,
nem ela é o final.
Quando termino de ler, em voz alta, percebo que Bianca havia acordado e escutava atentamente, ela e Rebecca forçam uma expressão estranha e eu apenas abro um sorriso falso.
- Eu só entendi duas partes - Rebecca diz. - A que diz quem somos e o que devemos levar.
- Mas não é somente isso o que fala? - Bianca pergunta, se aproximando novamente.
- Se fosse apenas isso o texto não teria trinta e duas linhas - digo.
- Então devemos decifrar?
- Não é necessário - retruco. - Só vamos ver se entendemos mais alguma coisa e, se não entendermos, deixamos para lá. O importante já temos, qual arma devemos usar.
Bianca pega o pergaminho e começa a ler mentalmente, andando em círculos.
- A batalha final tentaram vencer, mas nada tem um fim. Isso é claramente o motivo pela qual estamos juntos - ela diz. - Filhos do Sol. Destinados em uma profecia nunca lida. O que isso pode ser?
- Provavelmente estávamos na profecia do nosso pai. - Rebecca diz.
- Não, eu já a li. Não citou nós.
- E se tivermos uma própria profecia? - sugiro. - Uma que ninguém sabe que existiu, mas que cita todos nós?
- Seria impossível - Bianca retruca. - Vamos pular essa. Não esqueçam do que mais fez vocês felizes. Não esqueçam de suas próprias vidas.
- Rafael e Natan - digo. - Bom, para mim foram eles quem mais me fizeram feliz.
- Com certeza o Natan - Bianca responde. Rebecca assente.
Nossos irmãos sempre estavam nos momentos mais felizes, o pergaminho disse para não nos esquecermos deles, mas é impossível fingir que não pensamos nos dois todo santo dia.
- Engolir é seu poder, ó círculo de fogo - Bianca continua.
- É o que iremos enfrentar, possivelmente - digo. - Parece que está engolindo tudo o que vê pela frente.
- Mas só tem uma vítima, certo? - Rebecca pergunta.
- Sim, mas depois de vocês, a vítima foi quem eu mais amei.
- Não fale no passado - Bianca diz. - Eu tenho certeza que ela ainda está viva.
As duas me envolvem em um abraço e eu me sinto seguro e sem medo pela primeira vez desde o sumiço de Paula.
- Vamos? - escuto Rebecca chamando. Está na hora de nos arrumarmos para enfrentar seja o que for que está fazendo essa bagunça.
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Filhos do Sol
FantasíaApós anos sem se encontrarem, os filhos do Sol se sentem na obrigação de estarem juntos para enfrentar um dos piores monstros já visto.
