Capítulo 1

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Laura Morais

É incrível a quantidade de porcarias que uma pessoa consegue comer quando mora sozinha. Posso estar generalizando e dizendo isso pelo simples fato de eu, uma cavala velha não saber fritar um mísero ovo.

Não me julguem porque eu bem que tentei e tento até hoje, mas aptidão para cozinhar é algo que eu não tenho. Eu bem que comecei um cursinho básico de gastronomia, daqueles bem básicos e mesmo assim eu consegui ser expulsa em três semanas, bem quando as aulas práticas começaram para ser mais exata. Mas para não dizer que sou um caso completamente perdido, faço um macarrão dos deuses, sei fazer arroz – ele queima na maioria das vezes, mas ninguém precisa saber disso – e frituras. Frituras de todos os tipos, menos ovo é claro.

Tenho 23 anos, moro sozinha em Niterói há dois meses e estou desempregada. Estou literalmente sozinha. Toda a minha família é de São Paulo e agora nem mesmo o miserável do meu noivo eu tenho, mas isso é conversa para outra hora.

Voltando para a realidade em que me encontro frustrada no estacionamento de uma loja de conveniências que funciona 24 horas por dia, eu tento mais uma vez ligar o meu carro. Meu lindo carrinho que ainda estou pagando as infinitas prestações.

- Tudo bem, eu sei que você não vai me decepcionar. Vamos lá, eu confio em você! – digo esperançosa girando a chave pela sétima vez e nada do carro funcionar.

Olho em volta e ver o estacionamento deserto me aflige ainda mais.

O que eu esperava afinal de contas ao sair em busca de algo comestível e algumas cervejas as onze horas da noite de uma segunda feira?

É claro que o cenário não poderia ser diferente. As pessoas minimamente normais para começo de conversa trabalham durante o dia e dormem durante a noite. Eu não tenho um trabalho no momento como já mencionei, mas amo escrever romances e os escrevo na maioria das vezes durante a noite. O meu sonho é ser uma escritora, mas para uma escritora iniciante viver unicamente da venda de seus livros é difícil, mais difícil ainda é o caso daquelas que começam a escrever vários livros, tem várias ideias, mas na hora de finalizar, na hora do felizes para sempre o bloqueio surge, esse é o meu caso.

Enfim, agora preciso enfrentar as consequências de não ter abastecido minha geladeira antes.

Frustrada, irritada e com as emoções oscilando tanto que nem eu me aguento, procuro o meu celular para chamar um Uber, mas é claro que a besta não trouxe o celular. E nesse breve momento de distração eu levo um susto com uma batida no vidro da janela do meu carro.

Meu coração erra a batida uma ou duas vezes e eu acho que acabo esquecendo de respirar porque eu simplesmente fico paralisada, não é como se eu não quisesse reagir, eu simplesmente não consigo. Meu coração começa a bater descompassadamente e eu pisco os olhos freneticamente para tentar recobrar os sentidos do meu corpo.

Estou no Rio de Janeiro, não me julguem por me assustar. Estou amando esse lugar a cada dia que me esforço para sair do aconchego do meu pedacinho de casa, mas nasci e cresci em uma cidade grande e sei bem que nem tudo é um mar de rosas.

Olho para o homem parado a uma pequena distância do meu carro, o mesmo que me assustou. Ele parece perceber o meu receio e dá um largo passo para atrás, desço um pouco o vidro da minha janela com receio, buscando com a minha visão periférica alguém que possa me ajudar caso esse homem venha a ser um sujeito de má índole.

- Sim? – digo com a voz firme ao baixar o vidro do meu carro.

- Precisa de ajuda?

- Não. Não preciso. – respondo rápido demais.

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