Capítulo 4

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Laura Morais

Estou indo agora mais uma vez a oficina, desta vez para buscar o meu carro.

Faz quatro dias que o deixei sob os cuidados do Rafael que me garantiu que o entregaria novo em folha, mas isso não estava me preocupando. O que me afligia era o valor das peças que eu iria passar no meu cartão de crédito, com isso meu limite iria para o ralo e como eu pagaria a próxima fatura eu não tinha mínima ideia.

Pensei por um breve momento em recorrer a minha família, mas isso não era uma opção. Eu não podia voltar para aquela casa, não depois de tudo o que aconteceu.

Eu estava sobrevivendo com o dinheiro do seguro de desemprego e agora só me restavam duas parcelas para o meu desespero. Eu precisava conseguir um trabalho urgentemente, não suportaria ter que voltar para a casa dos meus pais e mais uma vez ser o alvo de seus julgamentos e traições.

Enquanto caminhava mais uma vez até a oficina eu me torturava especulando as minhas opções caso eu não conseguisse um emprego. Um deles seria recorrer aos meus pais, e isso eu só faria se estivesse passando fome e morando na rua, não estava muito longe disso, mas eu tinha uma outra opção: conseguir um emprego, não conseguir um emprego não era uma opção.

Ao chegar na oficina me deparei com uma completa confusão.

Damião estava vermelho como um pimentão enquanto tentava de todas as formas passar o código de uma peça na máquina registradora.

Eu me aproximei do balcão e o cliente não parecia nada confortável com o tempo de espera.

- Não sei para que tanta tecnologia, Rafael insiste em inovar tudo por aqui e imprimir um simples papel com preço para facilitar as coisas parece ser difícil demais para ele. – Damião dizia indignado.

- Senhor Damião, quer que eu chame o Rafael para o senhor?

- Tio Dan, querida. – disse sem tirar os olhos do computador. – Bem que eu queria sabe?! Mas o embuste foi buscar um carro e se eu conseguisse achar o tal código dessa porcaria eu ficaria feliz.

Tadinho, ele estava tão nervoso que não aguentei.

- Tio Dan. – Chamei em um sussurro, ele me incentivou a continuar com um breve sorriso e mesmo sabendo que eu poderia estar me intrometendo demais eu prossegui. – Se importa se eu tentar ajudar?

Ele parou o que estava fazendo e com um olhar de descrença me apontou o computador me dando permissão de ajudá-lo.

Eu já havia trabalhado com esse mesmo sistema de vendas, então para mim seria fácil. Ao tentar usar o scanner de código de barras não tive sucesso, mas percebi logo que algumas barras estavam apagadas e por isso o leitor não reconheceu. Então digitei os números um a um e bingo! Ali estava todas as informações da peça, inclusive o valor.

O cliente com cara de poucos amigos mesmo com a demora quis ficar com a peça, emiti a nota fiscal, a garantia que estava pré-definida no sistema e deixei que o Damião recebesse, aí seria demais também, não é?

Eu o ajudei com mais duas vendas e quando ficamos sozinhos pude ver que ele finalmente respirava com alívio.

- Querida, não sei o que eu teria feito sem você. Fiquei impressionado pela forma que lidou com esse monstrinho. – ele disse com graça apontando o computador.

- Não foi nada senh... Tio Dan. – me corrigi quando ganhei uma encarada.

- Sabe, estamos precisando de alguém para cuidar aqui da loja. Tenho uma sobrinha que cuidava de tudo, mas tenho que concordar com o Rafael que a garota não tem tido um pingo de responsabilidade ultimamente.

Escutei atenta. Seria muita sorte se eu arranjasse um emprego sem ao menos ter lhe mostrado um currículo?

- Você seria uma boa vendedora minha filha. – ele completou e em silêncio parecia refletir sobre alguma coisa. – Você trabalha com o que? Não precisa dizer se a incomodar.

- Não incomoda. – garanti. – Estou desempregada no momento, moro aqui em Niterói tem apenas dois meses e ainda não consegui nada, mas sou formada em administração e estou aceitando qualquer vaga.

- Entendo. – disse pensativo. – E você não estaria interessada em trabalhar aqui com a gente?

- Sério? Estou super interessada, mas o Rafael não se incomodaria?

- De forma alguma, ele mais do que ninguém vem me importunado para contratar alguém para cuidar da loja. E pelo o que eu vi você entende bem desses programas dos infernos que o Rafael gosta. Não vejo porque não aceitar a vaga.

Pondero quase aceitando quando o meu talvez futuro chefe irrompe porta a dentro.

Rafael, mais uma vez ele consegue me tirar do eixo. Vestindo uma calça jeans escura e uma camiseta azul manchada de graxa ele consegue me irritar de tão lindo que é.

Porque ele tinha que ser assim? Com esse cabelo despenteado e esses olhos azuis. Deus, que tortura era olhar esse homem e não poder lamber... Digo tocar... Merda, porque eu estou pensando nisso?

- Acabei de contratar a Laura para cuidar da loja. Eu preciso sair e você explica tudo a ela, ok?

- Contratou ela? – Rafael pergunta visivelmente irritado.

- Se não me quiser aqui tudo bem. – digo com a voz um pouco embargada. – Eu volto depois para buscar meu carro. Até mais Tio Dan.

Passo pelo Rafael e ele me puxa pelo braço me fazendo voltar e trombar em seu corpo. Involuntariamente levo minhas mãos ao seu peito para me manter firme com o baque e nossos olhares se encontram.

- Não quis te magoar, eu só fui pego de surpresa. – Rafael diz buscando os meus olhos.

- Tudo bem, eu entendo.

Ele é o chefe, ele quem decide quem trabalha ou não para ele e me sinto uma idiota por me sentir mal por um emprego que eu nem mesmo cheguei a ter, mas com seu olhar ainda preso ao meu é como se ele pudesse ver tudo dentro de mim e isso só faz com que as coisas piorem para o meu lado. Sinto meus olhos marejados pelo meu quase emprego arrancado de minhas mãos e tento me afastar, porém sua mão segura firme o meu braço me mantendo no mesmo lugar, presa sob o seu olhar.

Estou perto demais a tempo demais.

Ele percebe isso e se afasta um pouco soltando o meu braço com delicadeza.

- Vem, vou te mostrar o que fiz no seu carro e podemos conversar sobre a vaga e suas funções.

- Estou empregada?

- Se tiver as qualificações que eu preciso, não vejo porque não.

Assinto ficando séria. Afinal estava indo para uma possível entrevista e queria parecer o mais profissional possível, e convenhamos eu não estava nenhum pouco vestida adequadamente. Eu usava um short jeans curto e uma regata de cetim verde com alças finas.

Passamos pelo Damião que nos lançou um pequeno sorriso e fomos para o galpão. Havia me esquecido de sua presença até esse momento, estava apreensiva, não sei porque em específico eu queria trabalhar aqui, mas eu sabia que queria.


CONTINUA

❤️

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