4. Turno do Cemitério

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Ahhh, terça-feira. Dia do waffle.

Desde que Perrie podia se lembrar, terças-feiras de verão significavam café fresco, tigelas cheias de framboesa com chantilly, e uma interminável pilha de waffles dourados e crocantes. Mesmo este verão, quando seus pais começaram a sentir um pouco de medo dela, o dia do waffle era algo com que ela podia contar. Ela podia rolar na cama na terça-feira, e antes de pensar em qualquer outra coisa, instintivamente ela sabia que dia era.

Perrie inalou, retomando lentamente a seus sentidos, então ela inalou de novo com um pouco mais de vontade. Não, não havia nada além do cheiro de vinagre da pintura descascada. Ela mandou o sono para longe e captou a vista de seu dormitório apertado. Isso parecia como a foto de "antes" em um show de renovação de casa. O longo pesadelo que foi a segunda-feira retornou à ela: eles tomarem seu celular, o incidente com o bolo de carne e os olhos brilhantes de Leigh-Anne no refeitório, Zayn expulsando-a da biblioteca. O que foi que o fez ficar tão rancoroso, Perrie não tinha a menor ideia.

Ela sentou para olhar pela janela. Ainda estava escuro; o sol não tinha sequer saído pelo horizonte ainda. Ela nunca tinha acordado tão cedo. Se duvidasse, ela realmente não achava que conseguia se lembrar de já ter visto o nascer do sol. Sinceramente, algo sobreassistir-o-nascer-do-sol como uma atividade sempre a deixava nervosa. Eram os momentos de espera, os momentos logo-antes-do-sol-surgir-no-horizonte, sentada na escuridão olhando através das linhas das árvores. O horário nobre das sombras.

Perrie suspirou audivelmente com saudades de casa, um suspiro de solidão, o que a deixou com ainda mais saudade e solitária. O que ela iria fazer durante as três horas entre o raiar do dia e a sua primeira aula?

Raiar do dia – por que essas palavras zumbiam em seus ouvidos?

Ah, droga. Ela deveria estar na detenção.

Ela saltou para fora da cama, tropeçando em sua mala ainda cheia, e arrancou outro suéter preto tedioso do topo da pilha de suéteres pretos tediosos. Ela colocou o jeans preto que usou ontem, estremeceu quando teve um vislumbre do desastre que estava seu cabelo, e passou os dedos por ele enquanto corria pela porta afora.

Ela estava ofegante quando chegou aos portões de ferro forjado, da altura da cintura e complexamente esculpidos, do cemitério. Estava engasgada com o cheiro esmagador de mato e se sentindo muito sozinha com seus pensamentos. Onde estavam os outros? A definição de "início da manhã" deles era diferente da dela? Ela olhou para seu relógio. Já eram seis e quinze.

Tudo o que eles tinham dito a ela era para se encontrarem no cemitério, e Perrie tinha bastante certeza de que essa era a única entrada. Ela estava na divisa, onde o asfalto áspero do estacionamento dava lugar a um terreno destruído cheio de ervas daninhas. Ela notou um dente-de-leão solitário, e passou pela sua mente que uma Perrie mais jovem teria pulado sobre ele e então feito um desejo e soprado. Mas agora os desejos dessa Perrie pareciam pesados demais para algo tão leve.

Os portões delicados eram tudo o que dividia o cemitério do estacionamento. Incrível para uma escola com tanto arame farpado em todo o lugar. P passou a mão ao longo dos portões, seguindo o padrão floral ornamentado com seus dedos. Os portões deviam datar dos dias da Guerra da Secessão de que Jesy falara, quando o cemitério era utilizado para enterrar os soldados caídos. Quando a escola se juntou a ele, não era um lugar para loucos instáveis. Quando o lugar todo era muito menos cheio e sombrio.

Isso era estranho – o resto do terreno era plano como uma folha de papel, mas de alguma forma, o cemitério tinha um formato côncavo, parecido com uma tigela. Daqui, ela podia ver a inclinação de toda a vastidão a partir dela. Fileiras após fileira de lápides simples alinhavam-se nas inclinações como espectadores em um estádio. Mas em direção ao centro, no ponto mais baixo do cemitério, o trecho através do terreno se torcia em um labirinto de grandes túmulos esculpidos, estátuas de mármore e mausoléus.

fallen [zerrie]Onde histórias criam vida. Descubra agora