O não-traidor

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— O que vamos fazer mesmo? – Mica pergunta pela, provavelmente, quinta vez.

— Já disse, você vai me ajudar em algo. – Falo e assim que lembro dos cavalos, acrescento: – duas coisas, na verdade.

Enquanto arrumo minha mochila, a princesa anda pelo quarto, ainda estranhando as calças.

— Me sinto exposta. – Ela diz tampando a parte do zíper.

Pensando rápido, pego um encharpe e amarro na sua cintura enquanto ela observa quieta e curiosa.

— Melhor agora? – pergunto.

— Sim, obrigada. Obrigada por me levar pra fora também. Você sabe o quanto eu estava me sentindo mal estando só aqui.

Não consigo nem receber o agradecimento, já que não estou fazendo por ela.

— Coloca essa capa aqui e sobe o capus. – falo entregando pra ela a vestimenta vermelha.

Observo a Mica escondido. Ela está tão bonita vestida de... plebéia? Dos pés a cabeça, ela chega a parecer uma versão da Chapeuzinho vermelho.

— Tô bonita? – Ela pergunta colocando a mão na cintura. –É difícil andar com essa bota.

Ela obviamente está linda.

Meu número do pé é bem maior que o dela, normalmente ela usa chinelo, mas para viajar, ela precisa usar uma bota minha.

— Hmm, ainda tá muito a mostra...Já sei. – falo e depois entrego uma máscara e um óculos escuro. – Agora sim.

— Certeza que não tá muito suspeito? – ela pergunta entortando a cara. – Se eu visse alguém vestido assim na rua, teria certeza que é um fugitivo.

— Relaxa, você tá comigo. – Falo com um sorriso pequeno. – A gente vai pra cidade desencantada, lá não vai nenhum oficial encantado. Você já foi lá?

— Há pouco tempo, eu nem sabia que ela existia.

— Viu? Nenhum encantado vai lá. Eles têm medo de nós.

Eles tem medo de serem tratados igual nos tratam.

Sons da porta sendo batida soam pelo quarto e eu sei que é meu padrinho.

— Vamos, o Maurizio já chegou. – digo e a puxo levemente pelo braço para lá fora.

A armadura pesada dificulta meu andar, mas preciso dela. Estou andando com uma bomba-relógio, a qualquer momento alguém pode reconhecer a princesa.

— Bom dia!– Mica diz para ele que retribui com um sorriso sereno.

A viagem até a cidade desencantada é rápida e admito vergonhosamente que passei boa parte dela admirando minha parceira ao lado.

É engraçado vê-la sem vestidos ou cabelos a mostra. Vestida como eu me visto, ela parece até mais humana. Como se eu fosse tão digna quanto ela.

Balanço com a cabeça tentando afastar pensamentos estranhos.

"Eu sou tão digna quanto ela." Repito isso mentalmente várias vezes, até que eu esqueço sobre o que estava pensando.

— Obrigada pela carona, até logo. – me despeço e vou descendo da carroça.

— Espera, Aloha. – Ele me chama quando estou prestes a partir. – Tenha cuidado.

Estranho a preocupação repentina dele, mas agradeço e sigo em frente com a Mica.

— Não saia do meu lado, ok?– falo enquanto dou o meu braço para ela segurar. – Aqui é mais agitado que cidades encantadas.

Provando minha fala, assim que chegamos na cidade desencantada, pessoas passam por nós a todo momento e a voz de todos conversando ao mesmo tempo irritaria qualquer um não acostumado.

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