Sara não conseguia esconder o seu entusiasmo pelo facto de já ter chegado o dia do baile de máscaras. Ariana não costumava ir a esse tipo de eventos, mas até estava feliz por este dia. Talvez conseguisse distrair-se das coisas que se tinham passado e que tinha descoberto, assim como de todas as perguntas que tinha.
“Eu vou ver se encontro o rapaz que estava lá naquele dia, tenho a certeza que ele me piscou o olho antes de virarmos costas.” Sara falou, fazendo com que Ariana risse. “E tu de vias de tentar encontrar o rapaz que falou connosco e que pediu especialmente para tu ires.”
“Já disse que ele só estava a ser simpático.”
“És tão inocente Ariana.” As duas riram.
Ao entrarem no enorme ginásio da universidade, Ariana foi forçada a parar à entrada para apreciar o que tinham feito ao espaço. Não havia balizas nem cestos de basquetebol e as paredes estavam tapadas com tecidos pretos e dourados, que pareciam ser as cores principais do baile.
Ariana olhou à sua volta e viu vários alunos que frequentavam a mesma escola que ela e não pôde evitar um sorriso. Sara, realmente, dedicou-se a passar a palavra sobre aquele baile.
“Fico feliz em ver-te aqui.” Uma voz aveludada e familiar murmurou ao ouvido de Ariana, o que lhe causou um arrepio.
“Como é que sabes quem sou?” A rapariga perguntou, mantendo-se de costas para o rapaz.
“Eu reconhecer-te-ia em qualquer parte.” Ethan respondeu, dando três passos para que ficasse em frente a Ariana. Sorrindo, estendeu a sua mão na sua direção, fazendo uma espécie de vénia. “Dar-me-ia a honra de uma dança?” Perguntou, sem tirar os olhos de Ariana, que se sentiu a corar um pouco.
“Claro.”
Ethan agarrou, então, a mão de Ariana e conduziu-a até à pista de dança onde alguns pares se encontravam a dançar ao som de uma música calma. Ariana olhava-o com curiosidade, perguntando-se como seria o seu rosto sem aquela máscara. Algo nele era tão misterioso, mas tão elegante, que Ariana não podia deixar de se sentir atraída por ele.
“Sabes o que é engraçado?” Ethan perguntou.
“O quê?”
“Tu sabes o meu nome, mas eu não sei o teu.”
“Realmente, é engraçado.” Ariana brincou.
“Sim, no entanto, seria mais engraçado se me dissesses o teu nome.”
“Para que é que queres saber o meu nome?”
“Era considerada uma enorme falta de respeito se um cavalheiro não se apresentasse antes de uma dança e eu já me apresentei há muito tempo, por isso, acho que é a tua vez.” Ethan sorria enquanto falava. Por algum motivo, a rapariga que se encontrava à sua frente tinha esse efeito sobre ele.
“Ok, aceito o teu argumento.” Ariana falou, fazendo Ethan rir. Algo que ela adorou. “O meu nome é Ariana.”
“Ariana.” O seu nome deslizou suavemente pelos lábios de Ethan, causando em Ariana uma sensação estranha. “Ari.”
“Eth.”
Os dois trocaram olhares, sorrindo um para o outro. Ambos sentiam como se nada mais houvesse à sua volta, como se estivessem apenas os dois ali.
A música parou e ambos se afastaram como se tivessem acabado de acordar de um transe. Ariana estava confusa, sem saber o porquê de se estará a sentir daquela forma, principalmente, com alguém que acabara de conhecer. Ethan estava furioso com ele próprio por, durante aquele momento, se ter esquecido de qual era a sua missão naquela noite.
“Se não te importas, tenho que ir resolver uma emergência nas luzes.” Ethan informou, apontando para o pequeno auricular que tinha no ouvido. “Mas, por favor, não vás embora.” Piscou o olho a Ariana e foi embora, deixando-a a tentar recuperar do que acabara de acontecer.
À sua volta, conseguia ver que algumas das raparigas que a olhavam desde que começara a dançar com Ethan ainda lhe faziam olhares de ameaça, pelo que decidiu ir até ao exterior apanhar um pouco de ar fresco, numa tentativa de se sentir menos desconfortável.
No enanto, quase ao lado da entrada, um casal estava sentado num dos bancos, trocando beijos fogosamente, como se as suas vidas dependessem disso. Ariana decidiu, então, sentar-se num dos bancos de jardim, afastada dos dois.
“Ariana.” A voz meiga de Patrick chamou.
“Patrick?” Ariana estava surpresa. Não esperava, de todo, ver Patrick num baile de máscaras, ou em qualquer tipo de evento para ser sincera. “O que é que estás aqui a fazer?”
“Precisava de investigar uma situação.”
“Aqui?”
“Sim.” Patrick não adiantou mais nada, nem deu quaisquer tipo de detalhes e ela também não insistiu.
De um momento para o outro, Ariana teve uma sensação estranha e uma forte dor na cabeça. Um gemido escapou pelos seus lábios, chamando a atenção de Patrick, que estava distraído a estudar o mapa da universidade.
“Ariana, o que é que se passa?” Perguntou preocupado, largando o mapa para se sentar ao seu lado. Mas Ariana não respondeu, o que o deixou assustado. “Ari-” Patrick interrompeu-se a si mesmo quando viu os olhos da rapariga. O verde habitual tinha sido substituído pela cor negra.
No seu mundo, olhos negros significava que alguém com esse dom, estaria a ter uma visão. Então, Patrick encostou a cabeça de Ariana ao seu peito e esperou pelo momento em que iria acordar e voltar à realidade.
Ariana olhou à sua volta assustada, pois não sabia onde é que se encontrava, nem como é que tinha ido parar àquele sítio. Um pouco mais à sua frente, conseguia ver uma cidade com chamas e fumo a sair dos edifícios e de onde ouvia gritos de horror e o som de ferro a colidir contra ferro.
Um homem correu na direção de Ariana com uma espada na mão, gritando como se isso lhe desse mais força. A rapariga baixou-se, cobrindo a cabeças com os braços e esperou pela dor, mas esta não chegou. Respirou fundo e olhou para o homem que tinha um olhar de triunfo, e reparou que ele tinha acertado num outro que se encontrava ao seu lado.
Estava no meio de uma guerra.
Lentamente, ergueu-se com as mãos no ar e olhou o homem nos olhos, com medo do que ele lhe faria a seguir, mas era como se ele não a estivesse a ver, como se ela não estivesse realmente ali.
Apavorada com o cenário que estava a ver, deu dois passos atrás, ouvindo o som de algo a estalar debaixo dos seus pés. Engoliu em seco antes de olhar para baixo. Tinha calcado um osso.
Ariana queria gritar de horror, mas a sua voz não saiu.
Estaria a sonhar?
Não, não podia ser um sonho, porque ainda há segundos estava a falar com Patrick no jardim da universidade, e era como se, de alguma forma, conseguisse sentir as suas mãos nos seus ombros de forma muito leve.
O cenário à sua volta mudou repentinamente. Ao longe ainda conseguia ver um clarão vermelho das chamadas que destruíam a cidade e gritos desvanecidos, um contraste com a floresta onde se encontrava agora.
Tudo parecia mais calmo, como se aquele sítio estivesse completamente desconectado da guerra que estava a acontecer não muito longe dali, até que o som seco de alguém a cair no chão soou, seguido de uma respiração ofegante.
Ariana olhou na direção do som e encontrou um rapaz, pouco mais velho do que ela, de joelhos no chão. O seu rosto estava sujo de terra e de sangue, e transpirado pelo esforço da batalha que travava.
Os seus olhos prateados olharam para cima.
“Já no chão, Aleister?” Um outro rapaz perguntou, soltando um riso sombrio, enquanto caminhava na direção do que estava no chão. Ariana sentiu um arrepio ao olhar os seus olhos negros. Era como se fossem o espelho da sua aura e isso deixava a rapariga assustada. “Não acredito que vais dar menos luta do que a Emlyn.” Riu.
“O que… o que é que queres dizer com isso, Aeron?”
Aeron não respondeu, apenas tirou um punhal do bolso, igual àquele em que Ariana se tinha cortado. Os olhos de Aleister arregalaram-se com o choque.
“Não…”
“Se não acreditas em mim, podes pedir ao Punhal que te mostre o que aconteceu.” Mais um riso. “Oh, tolo, quase que me esquecia, apenas os sétimos Herdeiros vão poder aceder ás memórias das vossas almas.”
“O que é que queres dizer com isso?”
“É a profecia Aleister. Hm… parece-me que os vossos Sábios não andam a trabalhar o suficiente. Até eu sei a profecia, mas, sabes, quando eles vierem, também eu vou ser sete vezes mais forte.” A sua voz foi ficando cada vez mais grave e Ariana conseguia ver algo semelhante a raízes num tom roxo escuro crescer e percorrer o seu pescoço, até ao seu rosto.
Aleister soltou um grito de raiva, os seus olhos e uma estrela de cinco pontas emitindo um brilho ofuscante que fez com que Ariana fechasse os seus olhos.
Ariana despertou ofegante e sobressaltada, por causa do que acabara de acontecer. Patrick tinha os braços à sua volta, segurando-a e tentando que ela ficasse mais calma. Quando a sua respiração normalizou, sentou-se ao lado de Patrick.
“Tiveste uma visão, não foi?” Patrick presumiu.
“Eu… não sei. Quando abri os olhos estava no meio de uma guerra e era tudo tão horrível e assustador, mas, depois, do nada, estava no meio de uma floresta e havia dois rapazes que lutavam, e…”
“O que foi?”
“Um deles tinha um ar negro, mas tão… familiar, é estranho.”
“Quem eram, consegues descrever?”
“Eles disseram os nomes. Um deles chamava-se Aleister e o outro… huh… Aeron.”
“Aleister foi o primeiro Herdeiro da Estrela.” Patrick explicou, fazendo uma pausa. “Aeron é o Dark, líder do Obscuro. Foi derrotado a certa altura, ou, pelo menos, é o que se supõe, pois nunca mais ninguém o viu. Mas… é estranho que tenhas visto isso.”
“Um neles falou nisso. Aeron. Disse que os sétimos herdeiros iam ter a capacidade de ver as memórias e conectarem-se às suas almas, mas que também ele iria ser sete vezes mais forte.”
“Nós somos os sétimos.” Patrick falou. “Mas todos acreditam que Dark morreu e que um outro membro tomou posse do seu lugar, alguém em que ele confiava e que ele próprio treinou.” Patrick olhou para Ariana. “Mas o que é que queres dizer com ele te ser familiar? Já o tinhas visto antes?”
“Não…” Ariana abanou a cabeça. “Eu não quero nada disto!” A rapariga levantou-se subitamente, dirigindo-se ao ginásio.
Naquele momento só queria afastar-se de Patrick. Ariana não queria ter visões horríveis, nem ser capaz de se conectar com almas de seres antigos, não queria ter poderes, não queria lutar, não queria nada daquilo.
Só queria ser normal.
“Ariana, espera.” Patrick chamou, correndo atrás dela, mas, ao entrar no ginásio, perdeu-a no meio das pessoas que estavam a dançar.
Ariana olhou para trás, sentindo-se aliviada por ver que Patrick a tinha perdido de vista. Tudo o que mais queria naquele momento era estar sozinha, portanto, ia procurar Sara para lhe pedir para ir embora. Como que por telepatia, o seu telemóvel vibrou com várias mensagens de Sara.
‘ARIAAANAAA, tenho a certeza que ele é o tal, o meu príncipe encantado!’
‘Desculpa, amiga, mas não o posso deixar fugir e está aqui uma loura que daqui a nada vai levar com o meu sapato de salto.’
‘Por isso, vou ficar até mais tarde.’
‘Pedi ao Joel para te levar a casa.’
‘Adoro-te.’
Ariana sorriu ao ler as mensagens de Sara e ao imaginar a amiga a atirar um dos seus sapatos de salto alto contra alguém. Estava, no entanto, surpresa por saber que Joel também tinha decidido ir ao baile de máscaras. Talvez também ele precisasse de se esquecer da morte do seu pai por alguns momentos.
Distraída ainda a olhar para o seu telemóvel e com os seus pensamentos, Ariana acabou por esbarrar contra alguém.
“Oh, Deus… desculpa!” Ariana falou atrapalhada e os seus olhos encontraram os de Ethan, que lhe sorriu. “Por acaso, andava à tua procura.”
“Parece que o destino se encarregou de te facilitar a tarefa e nos juntar uma vez mais então.”
Ariana deu por ela a pensar em como é que Ethan sabia sempre o que dizer e sempre de forma tão estranhamente misteriosa e quase como se tivesse sido arrancado de um romance.
“Bem, mas eu não acredito nisso, portanto, vou ser desmancha-prazeres e ir embora.” Ariana soltou uma leve gargalhada, mas rapidamente ficou séria, no momento em que Ethan agarrou o seu pulso. “Huh… o que é que estás a fazer?”
“Porque é que não ficas mais um pouco?” Perguntou, o som tom de voz um pouco mais sério.
“Eu… eu não me estou a sentir muito bem e preciso de ir embora.” Mentiu, ao mesmo tempo que rodava o seu pulso para um lado e para o outro, numa tentativa de se ver livre do aperto de Ethan.
“Então, deixa-me levar-te a casa.” Insistiu, o que começava a deixar Ariana preocupada. Talvez ele não fosse como ela tinha imaginado inicialmente e, por isso, estava, mentalmente, a rever o curso de defesa pessoal que tinha tirado com a sua mãe.
“Eu vou com-”
“Comigo.” Joel interrompeu, puxando Ariana suavemente, o que fez com que ele a largasse, surpreso. “Vamos?” Perguntou, sem tirar os olhos de Ethan.
“Sim.”
Joel segurou a mão se Ariana e guiou-a para o exterior do ginásio, largando-a apenas quando chegaram ao seu carro.
“Obrigada.”
“Sempre.”
Patrick
Após alguns minutos à procura de Ariana, encontrou-a no meio da pista de dança. Parecia incomodada e tentava soltar-se do rapaz que lhe agarrava a mão.
Patrick não estava a gostar, de todo, da cena que estava a ver e estava já a dirigir-se aos dois, quando apareceu Joel e a levou consigo, deixando para trás o rapaz louro, claramente furioso com a situação.
Rapidamente, pegou no seu telemóvel para ligar a alguém, tirando a máscara do seu rosto enquanto esperava que atendessem.
Patrick entrou em choque.
“Cancela tudo para hoje.”
Não podia acreditar no que estava a ver.
“Porque eu estou a dizer!”
Não podia ser verdade.
“Ethan…” Murmurou, ainda incrédulo.
O seu irmão, que Henrique e Samuel tinham matado, estava ali à sua frente. Como? Como é que ele ainda estava vivo? E, estando vivo e em aparente liberdade, porque é que nunca voltou para casa? Porque é que nunca procurou o irmão? Como é que ele foi capaz que um inocente morresse para vingar uma morte que nunca tinha sequer acontecido?
Havia demasiadas perguntas na cabeça de Patrick e ele queria respostas para todas elas, mas, quando deixou o seu estado de choque e voltou à realidade, o seu irmão já não se encontrava lá.
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A Marca do Obscuro
FantasyAriana era uma rapariga normal até encontrar algo estranho no meio da rua. Patrick, seu colega de turma, que tinha sido transferido alguns dias antes, encontrava-se no chão: tinha sido esfaqueado. Enquanto esperava pela ambulância, Ariana encontrou...
