Ariana estava encantada com a cidade dos Luna. Rodeada pela natureza e animais, assim como uma praia enorme onde chegavam barcos com peixe para a população. No seu coração, havia imensa gente, bastante animados e cheios de energia. A rapariga gostava, especialmente, de como todas as casas eram semelhantes ao castelo.
No entanto, Ariana sentia que algumas pessoas baixavam a cabeça quando eles passavam e, outros, chegavam mesmo a atravessar a rua para o outro lado para não terem que passar ao seu lado.
“Patrick, parece que eles têm medo de nós.”
“Alguns têm medo sim.” Confirmou. “A primeira e última vez que humanos entraram no nosso mundo, ameaçaram expor a nossa existência, portanto é normal que tenham medo dos dois humanos mais poderosos de sempre. Têm medo daquilo que vocês possam fazer com os vossos poderes.”
“Somos assim tão fortes?” Joel perguntou surpreso.
“Ainda não.” Luc respondeu em vez de Patrick, aparecendo atrás de Joel. “É por isso que vocês vão ter treinos que irão começar…” Luc fez uma pausa e fingiu ver as horas num relógio. “…agora.” Os três riram. “Por isso, Joel, tu vais para a entrada do castelo, onde terás Jack à tua espera. Patrick, vais para o salão dos arqueiros, o teu mentor vai ser o Peter. E tu, Ariana, vens comigo.”
Joel e Patrick seguiram na mesma direção, separando-se a meio do caminho para irem encontrar os seus treinadores. Luc fez sinal a Ariana para que ela o seguisse.
“O que é que vai ser o meu treino?” Perguntou curiosa.
“Vais aprender a lutar. Primeiro, com espadas, depois vamos tentar outras armas, para ver com qual é que te safas melhor e com qual te sentes mais confortável. Por exemplo, eu sei que Patrick é dos melhores aqui em combate corpo a corpo, por isso mandei-o para os arqueiros para tentar algo de longo alcance. Vou fazer o mesmo contigo, eventualmente, mas, para já, algo me diz que te vais sair bem com espadas. Além disso, quero que treines também com o teu Punhal, pois também ele é uma arma.”
“Ok.” Ariana engoliu em seco, pensando na possibilidade de ter que vir a lutar um dia, ou a ter que tirar a vida a alguém, tal como fizera o homem na sua primeira visão.
Luc parou quando chegou a um enorme campo ao ar livre, onde várias pessoas treinavam e lutavam nos mais variados estilos e com todo o tipo de armas, desde facas a machados.
Não muito longe de onde os dois se encontravam, um homem lutava contra uma mulher. Ariana observava a luta, perguntando-se se algum dia seria capaz de se desviar e lutar daquela forma.
A mulher levou uma joelhada no estomago, soltando um gemido devido à dor, mas rapidamente se ergueu de novo, usando o seu machado que colidiu contra a espada do seu oponente com tanta força que ele não foi capaz de a segurar e esta saiu disparada, voando na direção de Ariana.
A rapariga fechou os olhos e meteu o braço à frente do seu rosto, esperando sentir alguma espécie de dor.
“Wow, muito bem, Ariana.” Ouviu a voz de Luc e abriu os olhos, vendo a espada cravada numa membrana prateada semitransparente que tinha aparecido à sua frente. “Criaste um escudo!”
“Criei?” Perguntou confusa, afinal, não se tinha apercebido de que tinha sido ela a fazer tal coisa, nem sabia como é que o tinha feito sequer.
“Ativaste o teu poder mesmo sem te aperceber, como que num reflexo a magia do teu Punhal foi ativada, o que quer dizer que ele te protege perante o perigo. No entanto, isso não chega para te protegeres.”
“Luc, desculpa, estávamos tão distraídos a lutar que nem reparámos que fomos ficando cada vez mais perto da zona de descanso.” A mulher pediu, assim que chegou ao sítio onde Ariana e Luc se encontravam. “Mas, muito fixe o teu escudo!”
“Sim, como é que fizeste isso?” O homem perguntou.
“Huh… não sei.” Ariana respondeu, ganhando dos dois, um olhar confuso.
“Ela só chegou ontem, ainda não começou a treinar magia.” Luc explicou e os dois arregalaram os olhos, olhando um para o outro e, depois, para Ariana. “Sim, é ela, mas, agora temos que ir treinar. Vocês os dois, por favor, tenham mais cuidado, não se esqueçam de que perder a noção do que está à vossa volta também pode causar a vossa derrota numa batalha.”
“Sim, senhor!”
Luc tirou uma espada de um armário de armas e entregou a Ariana, tirando outra para si e guiando a rapariga até uma das pequenas arenas que ficava um pouco mais afastada de todas as outras.
“Regras: se saíres do círculo, morreste; se eu te tocar, morreste. Só quero que te tentes defender e, enquanto isso, vou-te explicando o que deves ou não fazer. Não te preocupes, eu vou com calma.” Falou, sorrindo de forma convencida no fim, o que fez com que Ariana erguesse uma sobrancelha.
Ariana olhou à sua volta para ter noção do espaço que tinha dentro do circulo branco que estava desenhado no chão, depois, observou a sua espada, sentindo o seu peso, para se habituar a ela. A ponta que devia de ser afiada, tinha uma proteção para que ninguém se magoasse de forma grave.
Luc aproximou-se de Ariana e ergueu a sua espada no ar, baixando-a como se fosse desferir um golpe vertical no corpo da rapariga, mas ela, rapidamente, deu dois passos atrás para se desviar.
“Boa.” Luc falou.
De seguida, Luc atacou outra vez e Ariana ergueu a sua espada de forma a que esta ficasse entre o seu corpo e a espada de Luc, bloqueando, dessa forma, o seu ataque. Luc não estava a usar força alguma e estava a ser extremamente cuidadoso e lento, o que, de certa forma, estava a irritar Ariana, pois, para ela, isso significava que ele a achava extremamente fraca.
O príncipe atacou uma vez mais e Ariana segurou a sua espada no ar, desta vez, com a mão esquerda a dar apoio, segurando na ponta da lâmina, bloqueando o seu ataque uma vez mais, mas, desta vez, rodou o seu corpo para a esquerda e a sua espada, deslizando contra a de Luc, tocou no pescoço do rapaz.
“Morreste.” Ariana sorriu vitoriosa.
“Parece que subestimei os teus instintos.” Luc soltou uma gargalhada, coçando o pescoço. “Hm… vamos ver do que és capaz então.” Desafiou, ficando sério subitamente.
Joel
Quando Joel chegou à entrada do castelo, um rapaz magro e pálido encontrava-se à sua espera. Os seus olhos prateados, aos quais Joel ainda não se tinha habituado, faziam contraste com o seu cabelo negro.
“Jack?” Joel perguntou.
“Sim.” Jack sorriu. “Não sei se o Luc te disse, mas os treinos dos Herdeiros do Anel começam sempre pela prática de magia e só bem lá mais para a frente, os treinos físicos, mas por causa da visão da Herdeira, o que eu te vou ensinar vai-te desgastar muito, pelo que irás, ao mesmo tempo, ter treinos de resistência física.” Jack explicou. “Vamos.”
“Ok.” Joel falou. “Jack, porque é que eu preciso de resistência física?”
“Cada vez que usas o teu poder, parte da tua energia vital ´drenada e transformada para dar força ao teu feitiço. Usar magia no dia a dia e treinares o teu corpo para que fique mais resistente e mais forte, pode ser a linha que te separa de ganhares uma batalha ou perderes a tua vida.” Joel abanou a cabeça afirmativamente. “A magia que usamos todos os dias para as mais diversas coisas quase não afeta o nosso corpo, mas se estiveres num combate, ficas muito mais cansado e vulnerável, principalmente, se o teu oponente também usar magia.”
“Porque, por ser um ser mágico, sou vulnerável à magia?”
“Mais ou menos. Todos somos vulneráveis à magia.” Jack entrou numa sala semelhante a um laboratório, seguido de Joel que olhava para tudo o que o rodeava.
Havia uma mesa no meio da sala com alguns livros e cadernos. Encostadas ás paredes, bancadas com microscópios e outros materiais de laboratório que Joel desconhecia completamente. Por cima das bancadas, prateleiras com vários frascos de todos os tamanhos e cores.
“Não perguntes, nem eu sei o que é que alguns desses frascos são.” Jack riu. “O antigo curandeiro morreu e eu vim substituí-lo, mas ele não era propriamente organizado, portanto…”
“Isto é o teu laboratório?”
“Sim, a ás vezes sala de jantar e quarto, quando acabo por adormecer aqui sem querer…”
Jack abriu uma das gavetas e retirou um pequeno bisturi. Sentou-se num dos bancos das bancadas e fez sinal a Joel para que ele se sentasse à sua frente.
“Para começar, quero ver se tens algum controlo sobre a tua magia. O rapaz de cabelo negro falou. Com o bisturi, fez pressão contra a palma da sua mão, deslizando a lamina sobre a sua pele suavemente. De imediato, uma linha vermelha apareceu e o sangue começou a escorrer do corte pelo seu braço abaixo. “Joel, quero que sintas a ligação com o teu anel e me cures.”
“O quê? Como?” Joel perguntou, preocupado com a quantidade de sangue que Jack estava a perder. O rapaz levantou-se e olhou à sua volta, procurou pelas bancadas e dentro das gavetas, mas não encontrou nada que pudesse usar para fazer um curativo. “Jack, eu não sei o que fazer!”
“Usa a tua magia, Joel.” Jack, então, olhou para o seu corte e riu. “Acho que foi profundo demais…”
“Eu nunca usei magia, como é que eu te vou curar?”
“Des-descobre por ti mesmo…”
Joel olhou quando ouviu a voz de Jack tremer, vendo-o lutar para manter os olhos abertos. Joel aproximou-se de Jack e observou o seu corte, abanando a cabeça negativamente, sem saber o que deveria fazer.
Como é que ele poderia sequer pensar em proteger Ariana e não era capaz de curar um simples corte com a sua magia? E como é que iria ajudar Jack, que parecia mais fraco a cada segundo que passava devido à perda de sangue?
Vá lá, ajuda-me!, Joel pediu mentalmente, olhando para o seu anel, vendo a imagem do seu pai na sua cabeça, aquele que o ajudava sempre que ele se encontrava em sarilhos.
De repente, o seu anel começou a brilhar e o ferimento de Jack começou a ficar cada vez mais pequeno e o sangue a desparecer lentamente, Jack abriu os olhos e observou a palma da sua mão, onde, segundos antes, tinha estava um corte.
“Boa! Parece que conseguiste ativar a tua magia.” Jack sorriu, mas, em troca, recebeu um olhar de reprovação. “O que foi?”
“E se eu não conseguisse?”
“Eu acredito em ti, Joel.” Jack admitiu, divertido. “E é por isso que eu quero mostrar-te uma coisa que nenhum dos outros Herdeiros foi capaz de fazer, mas não podes contar a ninguém para já, está bem?”
Joel respirou fundo e abanou com a cabeça.
Patrick
Patrick entrou no salão dos arqueiros, onde Peter já se encontrava à sua espera. Uma cicatriz que começava na sua testa e ia até à sua bochecha direita chamou, de imediato, a atenção de Patrick.
“Nem queiras saber como é que eu perdi este olho, rapaz.” Peter falou, a sua voz robusta, tal como a sua estatura.
“Não fazia intenção de perguntar.” Patrick brincou, fazendo o homem rir.
“Patrick, diz-me, sabes qual o significado de cada ponta da tua Estrela?”
“Não.”
“São as cinco qualidades mais importantes do Herdeiro da Estrela.” Peter explicou. “A primeira é a magia.”
“Magia? Eu também posso fazer magia?”
“Sim, mas a tua magia não é tão forte como a dos outros Herdeiros, porque tens que ter mais cuidado, já que a tua magia usa energia que em diretamente do teu coração. Não tens um Punhal ou um Anel, nem qualquer outro objeto mágico que te ajude a controlar o teu gasto de energia, por isso, se algum dia tentares um feitiço muito forte, o teu corpo pode não aguentar…”
“E eu posso morrer.” Patrick completou e Peter abanou a cabeça. “Quais são as outras qualidades?”
“A segunda qualidade é a força física e, segundo Luc, és estre no que toca a combate corpo a corpo.” Patrick encolheu os ombros, considerava-se meramente mediano nesse campo, sabias apenas o que precisava para sobreviver quando o rei o mandava em alguma missão. “Não, não, não, eu também estive a ver as tuas estatísticas.”
“Não são nada de especial.”
“Essa tua humildade leva-nos à terceira qualidade: um bom coração. E as duas últimas serão as primeiras que irás treinar comigo: inteligência e disciplina. Sabes como é que usas a tua magia?”
“Através do meu coração?”
“Correto! E quando não fores capaz?”
“Uso a força física.”
“E precisas de quê para atingires essa força física?”
“Treino e disciplina.”
“Inteligência está claro que tu tens.” Peter deu leves palmadas nas costas de Patrick. “Hoje, quero que treines contra as minhas setas.” Peter levou Patrick para o meio do campo de batalha. Embora não incomodassem ninguém no sítio em que estavam, todos quiseram parar para ver o treino do Herdeiro da Estrela. “Quero que sejas capaz de prever os meus movimentos e tudo aquilo que eu vou fazer a seguir, porque numa batalha…” De forma tão rápida que mal deu tempo de processarem o que se estava a passar, Peter fez um gesto com a sua mão, criando a ilusão de uma seta que voara na direção de Patrick. O rapaz desviou-se dela sem qualquer problema, mas uma outra da qual não se tinha apercebido atravessou a sua perna, causando-lhe dor, sem o ferir. “…tens que estar preparado para tudo e esperar de tudo.”
Peter lançou várias setas ao mesmo tempo. Patrick conseguiu desviar-se de todas, mas acabou por cair no chão quando se desviou da última e Peter aproveitou para criar uma outra que foi direita ao seu coração. Patrick abriu a sua mão, erguendo-a no ar, parando a seta no ar e fazendo-a voltar para Peter, que se desviou por pouco.
“Muito bem, Patrick.”
“Mas… usei magia.”
“Eu nunca disse que não podias, apenas tens que ter cuidado. Feitiços desses dificilmente terão algum impacto no teu corpo. No entanto, um feitiço de cura requer bem mais energia e, enquanto Joel talvez o faça sem qualquer esforço, a ti irá custar bem mais, entendes?”
Ariana
Ariana caiu de joelhos no chão ao fim de algumas horas, quando Luc lhe acertou numa perna com a sua espada. O príncipe aproximou-se de Ariana e estendeu a sua mão para ajudá-la a levantar-se.
“Não aguento mais…” Ariana falou, ofegante. “Desculpa.”
“Não te preocupes. Vais ver que, a cada treino, vais ganhar mais resistência. De qualquer forma, os rapazes já devem ter acabado os treinos, vamos?”
“Sim.”
Ariana e Luc dirigiram-se ao castelo, onde encontraram Patrick e Joel a conversar animadamente à entrada. Ariana, secretamente, amaldiçoou Luc por a ter deixado num estado de cansaço tal que nunca iria estar a falar daquela forma ou a fazer gestos de luta como Patrick estava a fazer naquele momento, enquanto contava a Joel como havia corrido o seu treino.
“Luc, deste uma sova à Ariana?” Patrick perguntou quando viu Ariana a mancar.
“Quase.” Luc respondeu e os três riram.
“Sim, eu estou bem, isto aqui na perna nem me doi assim tanto, mas fico muito feliz pela vossa preocupação.” A rapariga falou sarcasticamente. “Joel? Está tudo bem?” Pergunto, ao ver que o seu amigo ficara estranhamente sério.
“Sim, mas é que me lembrei agora de uma coisa e estava aqui a pensar… alguém sabe que dia é hoje?”
“Dois de Abril.” Luc respondeu.
“Oh.” Foi a única coisa que Ariana teve tempo de dizer, antes de Joel se aproximar dando-lhe um abraço, desejando-lhe um feliz aniversário ao seu ouvido.
“Ela faz anos hoje.” Joel explicou ao ver que os dois os olhavam de forma confusa.
Patrick e Luc desejaram ‘parabéns’ a Ariana, mas ela não conseguia deixar de pensar em como havia tantas coisas a acontecer ao mesmo tempo que se tinha esquecido completamente do dia do seu aniversário.
Por norma, a sua mãe, juntamente com Sara, organizavam uma festa surpresa – que de surpresa não tinha nada, já que o faziam todos os anos – em que Sara acabava por convidar mais pessoas do que aquelas que Ariana realmente conhecia.
Desta vez, se Joel não se tivesse lembrado, a data iria acabar por passar sem que Ariana sequer se apercebesse.
Mais tarde e, após ter negado a Luc qualquer tipo de festejo mais vezes do que as que podia contar, sentou-se na cama do seu quarto e tirou o seu telemóvel da gaveta da mesa de cabeceira.
Não tinha qualquer mensagem, nem uma única chamada perdida.
Por momentos, pensou que se tinham esquecido dela, ou que alguma coisa tinha acontecido, mas, ao tentar ligar para a sua mãe, apercebeu-se de que o seu telemóvel não tinha rede.
Ariana tinha que ia arranjar forma de falar com a sua mãe para que lhe pudesse dizer que estava bem e tentar explicar tudo o que lhe tinha acontecido. Não queria que a sua mãe achasse que também ela tinha desaparecido como o seu irmão. Ela não ia aguentar esse desgosto.
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A Marca do Obscuro
FantasyAriana era uma rapariga normal até encontrar algo estranho no meio da rua. Patrick, seu colega de turma, que tinha sido transferido alguns dias antes, encontrava-se no chão: tinha sido esfaqueado. Enquanto esperava pela ambulância, Ariana encontrou...
