Aisha

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-Ele está dormindo ainda, meu querido- A doce senhora respondeu a Zayn quando o mesmo perguntou sobre seu tio que ainda continuava internado no hospital devido ao atentado que sofreu por um grupo extremista de Israel. Fazia exatamente três horas que ele estava no Paquistão e desde então ainda não havia recebido nenhuma notícia sobre o estado real de seu tio e nenhuma ligação de (Sn). Não sabia o que o preocupava mais.

-Obrigado, tia. Mas ele está bem?- perguntou inocente, não sabendo da gravidade da situação. Três tiros em toda a região do tronco. Não era qualquer um que sobrevivia aquilo.

-Já esteve melhor- tentou sorrir otimista, mas Zayn sabia o quão difícil estava sendo para sua tia suportar tudo aquilo. A guerra estava acabando não só com a região, com os recursos, com a paz, mas estava acabando, também, com qualquer esperança de futuro que a população ousasse ter diante de tamanha destruição. Não havia sequer três meses que o primogênito do casal, Asnisan, morreu vítima de mais um atentado quando saquearam a pequena venda de Zalmir atirando em todas as direções, acertando o senhor já debilitado pela falta de comida decente e limpa. Era dor demais para a família aguentar. Era dor demais para toda a população aguentar mas, infelizmente, aquele inferno parecia estar longe do fim.

-Vou tomar um ar lá fora. A senhora se importa?- o moreno perguntou visivelmente afetado pela pobreza que aquele hospital exibia. Eram tantas pessoas feridas no meio dos corredores, médicos atendendo em lugares nojentos e inapropriados, gritos de dor pela perda ecoando em todo o recinto por mulheres que perderam tudo. Aquilo lhe dava tanta vontade de chorar que foi obrigado a se retirar se não vomitaria de desgosto pela população mundial ali mesmo.

-Claro que não, meu filho. Pode ir - assentiu e ele lhe agradeceu com um sorriso, desviando de algumas macas improvisadas para sair logo daquele cômodo.

Caminhou sem uma direção por alguns minutos até que se viu perdido naquele grande terreno que estava metade queimado. Tentou perguntar a alguém onde estava mas não encontrou ninguém que não estivesse gritando de dor física ou emocional para isso. Resolveu dar mais uma volta para ver se encontrava uma saída ou alguém mais capacitado para lhe ajudar.

Depois de cerca de dez minutos dando voltas no mesmo lugar, o garoto viu seu corpo ser petrificado e fincado ao chão ao presenciar uma pequena crianca deitada na cama tossindo muito enquanto choramingava fraca em protesto à um homem que tentava lhe retirar da maca para colocar alguém em seu lugar que estava visivelmente mais forte que a menina cheia de sangue em suas roupas.

Por Deus, onde estava os pais dessa garota?- ele pensava raivoso

Furioso com tal situação, Zayn se locomoveu até o canto onde a maca estava largada e começou a discutir com o homem que causava toda aquela confusão, não querendo saber de seus argumentos um pouco falhos e sem lógica. Se surpreendeu quando percebeu que estava disposto a brigar fisicamente para que aquele homem saísse e parasse de perturbar a garotinha que olhava a cena assustada, mas sem falar nada. Bufou ao constatar que estava em uma situação delicada e que o homem necessitava de cuidados também, o que não justificava a atitude egoísta que ele tivera há pouco tempo. Tirou algumas notas de dinheiro do bolso que havia trocado recentemente pela moeda nacional e lhe entregou afim de que o homem se afastasse. Assim ele fez, carregando o menino debilitado nos braços que em outras situações Zayn ficaria com pena e daria preferência. Mas não naquela. Não quando ele queria retirar a menina do pouco conforto que ela possuía. Ela não!

Saindo de seus devaneios sem sentido, Zayn se virou e percebeu que era observado por um pequeno par de olhos castanhos assustados. Respirou fundo e tentou sorrir, tranquilizando a menina.

-Hey, qual é o seu nome?- perguntou baixinho, com uma leve dose de doçura na voz enquanto se abaixava para ficar mais perto dela. Quando percebeu que estava perguntando em inglês e que ela provavelmente não entenderia, tentou reformular a pergunta em Urdu, o idioma mais utilizado na região, mas antes que o fizesse escutou uma fina voz se fazer presente.

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