7. Desejo ou repulsa?

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Seu toque queima
Repulsa.
Ou talvez fosse....?



Puxo os livros da estante, jogando-os na caixa. A minha mente fervilha, tenho total consciência de como minha mãe é. Mas ser comparada com ela é uma coisa que não aceito.

Mística entra na biblioteca e começa a passar livros para o pessoal de baixo. Mordo meus lábios quando a folha de uma página corta meus dedos, que caralho. Esfrego o dedo na roupa que uso para tirar o excesso de sangue.

— Já tiramos todos os livros, Lu — Mística diz.

Batidas reverberam nas portas. Quando olho para Mística, ela se joga pela janela, sumindo do meu campo de visão.

— Puta que pariu, fudeu — sussurrei balançando as mãos.

Quando a porta abre, me deparo com os longos cabelos brancos e uma bata verde. Hadiel. Quase ajoelho e agradeço aqui mesmo. 

— O que você tá fazendo a essa hora aqui na biblioteca, toquinho? — cruza os braços, se encostando na estante. 

— É… lendo — folheio o livro espontaneamente.


[...]


— Madame, se colocar as flores de Sakura naquela parte ali, deixaria o local com uma aura incrível.

Parece que fui atropelada por um trator. Os óculos escuros me ajudam com essa luz que parece atravessar meu ser. Depois de resgatar os livros e quase ser descoberta, eu não vi Dante.

Não que eu quisesse vê-lo, longe de mim, mas temos uma apresentação. Sim, quando ele apareceu no meu recanto de paz anunciando que eu iria dançar com ele, pior ainda, na frente de todos, descobri um infortúnio.

O infortúnio é que nossa apresentação irá ocorrer diante de toda Chedrinn, juntando todas as cortes, durante o Festival do Eclipse. Tradição milenar onde os dois escolhidos dançam para selar a aliança dos dois reinos. Resumindo, uma grande merda. Eu devo ressaltar que socializar não é meu forte.

Mas eu tenho um objetivo, dominar Chedrinn, isso envolve levar uma vida dupla, cruzar os dedos e lidar com qualquer um que se meta no meu caminho. E isso inclui ajudar a organizar as plantinhas para o festival (lê-se em um tom triste).

As árvores rosas estão em fileira, decorando o local, as empregadas do palácio seguram grandes panelas com comidas diferenciadas. Na entrada, há uma faixa com a escrita "50° Festival de Celestia". Nosso povo tem o costume de decorar lanternas para soltá-las meia-noite, confesso que essa é uma das poucas tradições que gosto.

E quando penso que ainda não tinha tomado no cu o bastante, o universo vai lá e mostra que estou completamente errada. Porque vejo Dante caminhar em minha direção sorrindo, mas isso não é o maior dos meus problemas, meus caros. Ele está conversando com a minha mãe, a mulher que me deu a luz!

Ela acena para mim com um sorriso, mas o que sinto no meu peito é semelhante a uma facada. Sinto o perigo dele soltar algo sobre os rebeldes na conversa, ou até mesmo contar depois da briga. Saori aproxima-se de mim, engulo em seco enquanto ela acaricia meus fios azulados.

— Dante me contou o que fizeram ontem, estou tão orgulhosa de você, filha. — sorri.

Que porra está acontecendo? Minha mãe está orgulhosa de mim? Mais utópico ainda é: porque roubei os livros que ela ia queimar?

— Você tá orgulhosa de mim? — questionei, minha boca entreaberta.

— Sim, ele me contou que vocês discutiram sobre participar na dança dos casais — me abraça.

É, às vezes você tenta ser um ser humano melhor e simplesmente não dá. Porque eu realmente pensei, ele não é tão ruim assim, mas eu estava errado.

— Sim, é claro. Nós decidimos. Mãe, eu quero conversar com ele, posso? — seguro no pulso dele. 

Ele sorri. Continuei segurando seu braço até chegarmos ao lado do castelo, onde coloco a mão na parede.

— O que você tá pensando, seu puto? Casal? Se você quer namorar comigo, diga — arqueei a sobrancelha.

Ele morde os lábios, os olhos castanhos fixam-se nos meus.

— E se eu quisesse? — desvia o olhar.

— Pensasse antes de fazer as merdas que tu fez. Agora vamos ensaiar para o baile, molenga — debocho, enrugando o nariz.

Ele assente e percebo seus olhos inquietos. Não sei o que sinto quando ele me olha parece uma galáxia infinita, posso tranquilamente perder na profundidade que seu olhar trás. As mãos macias entram em contato com a minha cintura, levo a minha mão ao seu ombro, a melodia calma ecoava pelo salão.

Nossos pés se movem de um lado para o outro ritmicamente, a sinfonia calma ressoa pelo o local, é como se eu pudesse flutuar. Mesmo quando danço sozinha, não me sinto assim. 

O seu aroma de sândalo me enfeitiça, não sei o porquê de admitir isso, mas Dante sempre foi tão….

Ridículo? Sim, é isso que eu quis dizer. Seu cheiro me enjoa, suas mãos queimam em contato com meu corpo, as orbes me vigiam procurando passos falsos para denunciá-los. 

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