Esquecimento público, Arte íntima.

1 0 0
                                        

    O dia correu rápido, na verdade, a semana deslizou de pressa!
  Lua não parava de falar sobre a igreja, e me perguntava sobre a minha "experiência" como uma criança curiosa. Apesar de estar nesse meio há um tempo, ela quase não passa por coisas assim, tendo de vez em quando uma ou outra comoção ao ouvir uma música, ou alguma "convicção" repentina no meio de uma pregação, algo que ela chamou  de "doses homeopáticas de fé". Acho que eu também estava começando a receber essas doses.
    Sabe, por toda a minha vida, ou melhor, por parte dela, eu pensava que, caso eu voltasse a crer em algo sobrenatural, isso deveria ter alguma prova incontestável, uma comprovação científica, ou uma revelação surreal e completamente visível, mas não têm sido assim, muito pelo contrário, no momento, eu não tenho como provar para ninguém como e porquê eu tenho crido no que creio é apenas uma ideia enraizada e concreta. _Embora as vezes no tédio eu me pergunte se tudo não é um delírio,  minha fé deve ser minúscula!_ Eu já chorei por muitas coisas, mas nada como naquele dia, e nada como nos dias que vieram depois, tenho chorado com as pregações mais simples e em cada instante de silêncio em que me concentro no meu corpo, nos corpos alheios, na minha gata, nas minhas plantas, nas boas filosofias que leio... em tudo... repito: TUDO, tudo aponta pra essa certeza "Ele é real" pra que tudo isso exista e tenha sentido. Desde o molecular abstrato ao macro complexo, tudo faz sentido nEle, Ele é real e necessário.

Acho que tenho andado muito com esses crentes. já estou falando como alguns deles.

   Era sábado, e graças a Deus, eu estava de folga, eu encarava o teto do quarto enquanto arriscava uma oração rudimentar me inspirando no famigerado "Pai nosso", quando a fome me fez levantar. Estrela passou por mim ronronante, minha geladeira parecia uma discoteca, só luz e fumaça. Logo, me vi obrigado a preparar algo, vasculhei o bloco de notas com receitas à procura de algo rápido. Achei.
  Enquanto meu rango assava, fui pro sala/quarto procurar algo pra ler e distrair, não pego no celular nos sábados (a não ser por emergências como... fome). Pois em uma das minhas conversas com o psicologo, enquanto eu reclamara de não ter tempo, estar cansado mentalmente e com folgas muito curtas, ele me fez parar de praguejar contra o TDAH, e me consentrar no que eu poderia mudar, tirar algumas distrações da minha frente e pôr meus projetos nesses pequenos tempos livres que as elas ocupavam, desde então, programei o celular para "não perturbe" nos fins de semana. Encarei minhas prateleiras de livros, e nada me parecia tão especial, havia um recém chegado: Blue Period, Caio me deu, ele disse que queria me dar algo que fosse "a minha cara" então juntou o util ao agradável:
  _Um mangá, bem nerd, e que é sobre arte, bem... você! _Ele esbanjava sua opinião ao me entregar os 5 volumes(estavam na promoção).
Tirei do plástico e li, era bom, a história era envolvente, mas quando cheguei no 20° capitulo, algo pesou, o olhar e desenhar o próprio corpo, o corpo nu. Com certeza eu já ouvi sobre isso, modelos vivos e nus, mas pensar em me desenhar assim, era no mínimo estranho. Um lampejo de inspiração, vou tentar.
  Peguei uma tela, lápis, tinta e caneta. Diante do meu reflexo tirei a roupa, eu fazia isso todo dia no banho, mas tirar a roupa para apenas ficar peladão pra mim... era estranho.  Meu corpo meio pálido e meio queimado de sol contrastava com as cores do cômodo,  meu cabelo já não chamavam tanta atenção, as tatuagens pareciam deslocadas, boiando em meio ao meu corpo e as pintas eram como respingos das tatuagens. Comecei a riscar a tela,  no início era só uma imagem, me encarei de novo,  agora tinham detalhes que eu quase não lembrava, mas depois da terceira encarada, teu corpo parecia feio, todas as insegurança bobas da época da adolescência pareciam se esconder ali, estavam esticadas,menores ou maiores, coloridas, mas ainda estavam ali, de repente eu ia regredindo e a cada risco no papel eu voltava mais, e agora eu não passava de um adolescente escondido no corpo de um homem,  tal adolescente que só queria ser visto como era, mas cujo maior medo era exatamente ser visto como era, talvez fraco, talvez estranho, francês insuficiente,  talvez deslocado, como se não conseguisse se encaixar e formar "ligas" com as pessoas... sacudi a cabeça. A comida já estava mais que pronta, corri pra cozinha e resolvi comer logo, parte por fome, parte por pressa, fiquei alternando entre queimar os dedos e a boca,  e empurrava logo com goladas de um suco velho. Meu vizinho de janela, um senhor de idade me encarava por detrás de suas cinzentas sobrancelhas grossas, ele pegou um óculos? Nossa,  nunca tinha visto os olhos daquele senhor,  eram minúsculos e de um azul vítrico, só pude ver por que ele tinha uma expressão de espanto arregalando os olhos,  o que ele viu, um fantasma atrás de mim? Olhei ao redor, nada,  resolvi acenar,  o velho se enrubresceu e fechou as cortinas com força. Estranho. Preciso voltar a desenhar, voltei para o espelho e me lembrei da minha condição... desculpe vizinho.
   Apaguei e refiz várias vezes o mesmo desenho, até que olhei pro papel e vi algo como eu, mas que não era eu, precisava de cor. Pintei o quadro em tons de terra e salpiquei vermelho em algumas partes do fundo.  Parecia um pouco comigo, fitei aquele  treco, e estava quase satisfeito, quando vi q as manchas no fundo da tela, os borrões de lápis e borracha mal cobertos pela tinta formavam sombras como que de plantas, comecei a contornar com a caneta, riscos, traçados e linhas até me deparar comigo em um lugar amplo e vermelho abarrotado de plantas e flores que saíram de mim e dos meus erros passados, o vermelho fechado como sangue venoso parecia a peça principal que lavava e redimía a tela.  Suspirei e sorri satisfeito. Era eu.
    Me alonguei e vesti um short enquanto a luz da tarde se arrastava por metade do cômodo, era a hora perfeita pra tirar uma foto do quadro, posicionei a tela no sol e peguei o celular... mas aquilo não me pareceu de bom tom, a pintura era fiel ao modelo, tinha uma ou duas técnicas razoáveis, as cores eram ótimas, mas aquilo era muito meu,  muito íntimo, estava bom... mas não era mostrável, se é que essa palavra existe.
   O sol saiu da sala,  e eu pensei em destruir o quadro, mas não o fiz, era realmente algo bom, eu me sentia bem com aquilo, mas não em mostrar pra todos. Deixei a tela secar noutro cômodo e ao lado o embrulho, ficaria guardado, até que alguém pudesse realmente vê-lo, alguém que me veja e que entenda o quadro.
    Deitei na cama de novo, cansado eu encarei a janela ao meu lado enquanto Estrela "amassava pães" no meu braço, onde ela planejava deitar. As luzes da cidade ofuscaram as estrelas, mas eu sabia que elas estavam lá, aproveitei o escuro parcial para relembrar o quadro, e agora, um pouco mais frio da emoção, eu comecei a entender o porquê de algumas pessoas duvidarem da minha sexualidade, um quadro comigo nu com flores... estranho. Mas nos meus tantos anos convivendo comigo e com os outros, tenho certeza que cores e plantas são a última coisa que definem a sexualidade e alguém.
     O domingo foi tedioso, coloquei os exercícios em dia e liguei pros meus pais pra conversar um pouco, contar as novidades.
Na segunda de manhã,  me deparei com várias mensagens e chamadas perdidas da Lua e do Caio... Droga, esqueci do sítio!!  Era nesse final de semana, o celular não tocou por conta do modo não perturbe!! Cacete!!

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Nov 08, 2025 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Como Sol e LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora