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  Naquela manhã de sexta-feira, Antonella decidiu que valia a pena chegar um pouco atrasada na aula, o dinheiro que ainda tinha na conta não era suficiente para alugar outro apartamento, mas devia ser mais do que o bastante para comprar um vestido que combinasse mais com seu novo trabalho.

  Não que a albina fosse o tipo de pessoa que se importasse com a opinião dos outros, mas Jeong In tinha razão, ao ver dela. Roupas sociais e exageradas não combinavam com o ambiente reconfortante e descontraído da Camélia, pelo contrário, atribuía à floricultura um ar sério, daquele tipo de ambiente que a gente precisa esconder o que sente de verdade.

  Enquanto seus scarpins azuis enchiam os ouvidos dos pedestres com o ruído de seus passos, Drummond devorava uma barrinha de cereal com alto teor glicêmico, tentando avidamente prevenir um pico de glicemia novamente. A dificuldade de se guiar pelo GPS era clara, e mesmo assim ela insistia em procurar um loja de roupas no celular com um brilho baixo demais para a luz aguada do Sol.

  A pouca quantidade de neve da noite anterior começava a derreter conforme o calor solar e humano preenchia as ruas do centro de Seul, e Antonella precisou limpar os calçados envernizados antes de se atrever a pisar numa loja com fachada imponente. Tudo ali era irônico: o nome da loja remetia a camponeses, mas só o cheiro artificial de flor parecia custar mais do que a parcela do aluguel de um apartamento.

  A loja era bem climatizada, com piso de madeira vinílica sem remendos e ar minimalista conforme poucas peças de roupa preenchiam as araras de ferro cheias de rusticidade.

  ㅡ Bom dia, no que posso ajudar? ㅡ uma moça coreana com um vestido branco rodado e um corset de couro por cima da roupa indagou, em coreano.

  Foi como se o mundo deixasse de fazer barulho, como se as buzinas dos motoristas apressados não pudessem ser ouvidas, nem os gritos esganiçados dos vendedores de comida. A cabeça de Drummond tinha ruído próprio, mas os ouvidos não escutavam nada além de um zumbido ensurdecedor.

  As aulas de coreano não estavam sendo executadas com a frequência que deveriam, e aquilo estava se tornando aos poucos, o pior pesadelo da loira. A comunicação de subsistência com os habitantes daquele país parecia cada vez mais forçada e desesperadora, as palavras corriam pelos neurônios da loira, em inglês, em português, em coreano. E de vez em quando saía alguma frase com três idiomas muito distintos misturados numa frase só.

  Os segundos que se seguiram da tradução feita pelos neurônios desesperados de Antonella, pareceram horas de tortura ininterrupta, então, num coreano arrastado e muito formal, digno de um aluno de cursinho, a garota conseguiu falar:

  ㅡ Eu gostaria de um vestido de mangas bufantes ㅡ uma gota de suor proveniente de tamanho esforço intelectual, escorreu no canto da testa da albina.

  A funcionária com as mãos delicadamente repousadas à frente do corpo, sorriu e encarou a figura que parecia muito mais alta que si, ainda mais nos saltos de 10cm:

  ㅡ Para qual ocasião, senhorita?

  ㅡ Trabalho ㅡ Antonella não dizia nada além do necessário, o que irritava grande parte dos coreanos, que prezavam muito pelas honrarias adicionadas às frases.

  A garota encarou a estudante de medicina de cima a baixo, examinando a roupa social e executiva cuja qual cobria o corpo branco naquela manhã:

  ㅡ Temo que esteja na loja errada, aqui vendemos roupas com estampas florais. As roupas de festa são na loja ao lado.

  Drummond se irritou. A vendedora estava simplesmente colocando estereótipos na loira somente pelas roupas que estava usando.

  ㅡ E mesmo assim eu quero pagar por esse tipo de roupa, não sou tão leiga a ponto de não saber qual tipo de roupa vocês vendem aqui ㅡ mais tarde ela agradeceria a Deus pela existência da internet e o tradutor artificial onde a garota olhou disfarçadamente a enorme e provocante frase que acabara de falar.

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⏰ Última atualização: Feb 22, 2023 ⏰

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Apartamento 21 - Lee KnowOnde histórias criam vida. Descubra agora