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Meus olhos estavam fixados no contrato, em mim se predominava o verdadeiro êxtase. Uma pergunta logo circulou em minha mente. Sua resposta eu temia.

Uma voz conhecida veio da porta da cozinha. Fez a realidade ser o foco novamente.

Minha cabeça se direcionou para o lugar de imediato.

— Eu ia te contar. — Anna pronunciou em um suspiro se aproximando vagarosamente.

— Você não tem a obrigação de me contar nada. — Coloquei o contrato sobre a bancada. Uma pontada de constrangimento me incomodou. Não é a melhor sensação ser pega em flagrante mexendo em contratos pessoais.

— Eu sei, mas eu não queria que soubesse assim. — Seus olhos transmitiam culpada. — E também, eu e Wilson vamos continuar trabalhando aqui...

— Wilson também vai mudar? — a interrompi sem a intenção.

Anna balançou a cabeça em confirmação.

— Olha, nos continuaremos nos vendo três vezes na semana e você verá o Wilson todo os dias, só não moraremos mais aqui. — Ela estava tão preocupada em se explicar que se embaraçava ao dizer.

— Está tudo bem, Anna. — Tentei a tranquilizá-la.

Ela se calou, mas estava confusa.

— Está?

— Sério. — Confirmei. — Estou muito feliz, vocês não podem viver a vida toda aqui, precisam de um lugar só de vocês... Estou muito orgulhosa. — Tudo que foi dito era verdade, sentia um grande orgulho deles, mas sentirei falta. Vai ser difícil acostumar, agora em todas as viagens da minha mãe provavelmente ficarei só.

Entretanto, algo me surpreendia.
Meses, apanas meses foram o suficiente para ela estar carregando uma culpa apenas por estar se mudando, e por ter que vir com menas frequência... Minha mãe não sentiu nada quando se mudou de Portugal, não se sentiu culpada por estar me deixando.
Estar deixando sua filha.

— Você e Wilson merecem. Você está se esforçando tanto para isso. — Completei.

A resposta de Anna foi um sorriso aliviado, logo ela se aproximou e nos abraçamos.

— E quando sua mãe viajar? — Ela perguntou ainda no abraço.

— Não tenho dez anos, consigo me virar e Wilson ainda vai trabalhar aqui todos os dias meio horário não é? — Ela balançou a cabeça. — Então pronto. — Saímos do abraço.

Anna olhou para a bancada vendo o meu prato onde estava o delicioso bolo, mas agora só restam as migalhas.

— O que achou do vulcochoco? — Ela disse recolhendo o prato indo até a pia.

— Uma maravilha da culinária, aliás, adorei o nome.

[...]

Sabe aquela sensação de que o tempo está passando tão rápido que sua mente não consegue
Acompanhá-lo? Pois então, é o que estou sentindo. Já é sexta, e nessa noite irei viajar, vai ser a primeira vez que viajarei sozinha com minha mãe, apreensão e ansiedade me dominam quando penso de mais.

𝑽𝒆𝒓𝒅𝒂𝒅𝒆𝒊𝒓𝒐𝒔 𝒔𝒆𝒏𝒕𝒊𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐𝒔// 𝐌𝐢𝐠𝐮𝐞𝐥 𝐂𝐚𝐳𝐚𝐫𝐞𝐳   Histórias para pegar e não largar. Descubra agora