Prólogo

2.2K 75 70
                                    


5 DE OUTUBRO DE 2023

Ela nunca havia reparado na pequena sala de espera da clínica. Quase sempre atrasada, Heloísa chegava e já era recebida por Patrícia, sua psicóloga há quase 3 anos. Mas havia uma primeira vez para tudo.

Sentada, sozinha, em uma das poltronas, Helô observa os vários tons de azul que perceptivelmente foram adquiridos com o desbotar do tempo da parede a sua frente. Os cinco quadros alinhados ao centro completavam uma linha contínua, que provavelmente estava ali numa clara provocação do que os 50 minutos da consulta lhe reservavam.

Ela escuta a porta da sala de sua terapeuta abrir e consegue ver quando uma mulher bem mais nova que ela, talvez na casa de seus 20 anos, se despedindo e a jovem claramente havia chorado. Espero que esse não seja o meu destino de hoje, pensa.

Enquanto se concentra para se encontrar na imensidão dos seus pensamentos, escuta Patrícia chamá-la para entrar na sala.

- Nesses quase 2 anos e meio de terapia você nunca tinha pedido uma sessão extra, Heloísa. - constata Patrícia - Então me conte, o que aconteceu?

Eram três horas da manhã quando eu mandei mensagem para ela pedindo que me encaixasse em qualquer horário possível ainda naquela semana. Por isso, eu estava no Centro do Rio, às 21h em plena quinta-feira.

- Bernard me pediu em casamento. - falo enquanto me entretenho com a pequena linha de costura da calça jeans.

- Uau, parabéns! - é quase imperceptível mas depois de dois anos, consigo perceber um leve espanto na voz da Patrícia - Como você está se sentindo com isso?

- Eu ainda não aceitei. - paro de falar na esperança que ela fale algo, mas ela me olha indicando que eu devo continuar. - Eu pedi um tempo pra responder e ele vai viajar para São Luís por uma semana para terminar o projeto. Então, é... eu tenho uma semana e isso chega a ser irritante.

- Por que irritante? - me questiona, enquanto escreve algo no seu caderno. Quase consigo ver que ela deve estar escrevendo.

- Irritante porque é simples demais. Como alguém pede outra pessoa em casamento e ela não aceita ali na hora, pede um tempo para pensar e você só aceita? - digo, pensativa - Eu não sei se é a confiança que ele tem nele mesmo, ou talvez seja a confiança que o nosso relacionamento é muito diferente de todos os relacionamentos que ele teve e do meu relacionamento com... bom, você sabe quem.

- Bernard me ama e eu sei que também o amo, e para ele isso basta. Nosso relacionamento é simples, não tem turbulências. A gente não briga, mesmo quando moramos juntos naquele primeiro apartamento pequeno que dividíamos com seus vários equipamentos de fotografia e minhas milhares de roupas em Frankfurt no início da pandemia. - Sorrio, lembrando daquele cubículo de apartamento que chamei de casa por 8 meses, até conseguirmos nos mudar para um apartamento maior. - Tudo com ele é bom, é calmo... é previsível, e de certa forma eu gosto disso. Talvez a gente esteja naquele lugar de casal quase perfeito, próximo de uma utopia. Quando eu tinha quinze anos, eu idealizava o relacionamento que eu queria ter, e é exatamente o que eu tenho hoje com Be, é estranho pensar que eu finalmente conquistei isso depois de tantos anos, mas ao mesmo tempo que parece certo... - suspiro - me lembro de todos os anos que eu passei com o Stenio e os que eu não passei e parece que eu me afogo.

- Como você vê o seu relacionamento com cada um deles?

- Com Bernard é como se eu estivesse sentada na areia da praia, que é o lugar mais seguro que tem naquele lugar. Dali eu posso aproveitar o sol, tomar um copão de mate com limão da praia, ver as pessoas se divertindo, escutando músicas completamente distintas, fingir que não estou sentindo cheiro da maconha sendo fumada por um grupo de jovens ao meu lado. Acho que talvez seja um pouco de paz.

Paro para pensar nos anos que Stenio esteve na minha vida, desde que nós conhecemos em uma das festas universitárias, os esbarrões nos corredores da Uerj, ao nosso primeiro beijo, o início do namoro, a primeira briga, o primeiro dos mais de mil términos que ainda viriam. Nós definitivamente não éramos simples.

- Toda minha vida com o Stenio é um constante entrar no mar e ser arremetida com os caixotes e que ainda não conseguimos sair. A gente se debate, se afoga, e fazemos tudo isso nós agarrando um ao outro, e então precisamos de ar, eu tenho que empurrar ele para baixo para sobreviver e ele tem que fazer o mesmo comigo. Nós nunca conseguimos nadar juntos até o mar aberto e boiar, em paz. - sinto minha voz começar a falhar e finalmente me permito admitir. - Uma parte de mim sabe que deveria ter aceitado quando o Stenio propôs que fizéssemos terapia de casal.

As lembranças da última briga antes de assinarmos o segundo divórcio me invadem e até hoje eu ainda sou atormentada pelo olhar desesperado de Stenio quando percebeu que eu já não tinha mais forças. Ele sabia que eu queria fugir.

- Mas não conseguia enxergar como fazer aquela relação dar certo, foquei que havíamos fracassado mais uma vez e eu só queria sair dali o mais rápido possível. É engraçado pensar que nós dois somos tão bem sucedidos em tudo que a gente sonhava quando estávamos na faculdade. As nossas carreiras e onde a gente queria chegar com ela, mas quando eu lembro dos sonhos que sonhávamos juntos eu só vejo tentativas malsucedidas. - Suspiro, sentindo as lágrimas tomarem conta do meu rosto - E a gente tentou tanto. A gente quis tanto que desse certo...

Tinha decidido fazer terapia depois que assinei os papéis. Depois de duas tentativas de viver uma vida ao lado dele, eu me questionava diariamente se o problema não era comigo.

- Mas aí chegou Bernard, e quando ele entrou na minha vida, eu já era outra mulher. Eu já conseguia me conectar melhor com os meus sentimentos do que em todos os anos que eu vivi com o Stenio. Você sabe muito bem disso - olho para Patrícia que sorri levemente para mim - E eu sei que eu não aceitei na hora o pedido, não porque eu não o ame, mas porque mesmo eu sendo essa nova mulher, eu também não conheço uma Heloísa que não ame o Stenio.

- E o que você vai fazer então?

Pela primeira vez desde o pedido, eu rio, porque a única certeza que eu tenho desde então é que eu não tenho a mínima ideia do que eu quero fazer.




utopia (steloisa)Onde histórias criam vida. Descubra agora