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Yasmin Siqueira _ 25 anos

Nunca imaginei ter que voltar pra esse lugar de novo, mas se é pra voltar, que seja no topo, não aceito menos que isso.

Sempre fui ambiciosa e nunca escondi de ninguém, não nasci pra ser pobre. Eu nasci em São Paulo, vivia lá com meus pais, as condições não eram boas, meu pai era porteiro de um prédio na zona sul e minha mãe diarista, a vida nunca foi muito fácil desde muito nova eu já vivia na pobreza.

Até que quando eu fiz doze anos meu pai foi assassinado no trabalho, tentaram assaltar o prédio onde ele trabalhava e atiraram no meu pai, me lembro como se fosse hoje eu e minha mãe na sala assistindo novela e o telefone tocou, minha mãe atendeu e poucas palavras depois começou a chorar compulsivamente, perguntei o que tava acontecendo e ela não conseguia falar só repetia a mesma palavra sem parar não, não, não, somente isso.

Comecei a ficar nervosa e peguei o telefone da sua mão, era um policial do outro lado da linha quando perguntei o motivo da ligação ele disse :
Liguei para informar a morte do senhor Valmir Sequeira Silva, houve um assalto no prédio quando ele ainda estava no plantão e a vítima foi morta na hora pelos assaltantes, sinto muito.

Naquele momento meu mundo desabou, papai tinha sido assassinado. Nem pude me despedir por que como todas as manhãs imaginei que ele voltaria para casa a noite, e esse foi meu erro, esquecer que a vida é imprevisível e que estamos nesse mundo apenas de passagem, podemos partir a qualquer momento. E foi naquele dia que minha vida se tornou um inferno, mamãe entrou em depressão e não saia mais do quarto, eu tive que aprender a me virar na marra, vivíamos com o pouco dinheiro da pensão pela morte de papai, mal dava pra pagar as contas.

Oito meses depois, cheguei em casa e encontrei minha mãe caída no chão desmaiada com apenas um frascos de remédios para pressão vazio ao seu lado, gritei por socorro várias e várias vezes, até que um vizinho apareceu e ligou para a ambulância. Eu estava desesperada, já tinha perdido meu pai, não podia perder minha mãe também.
Mas a vida não é como queremos e naquele dia tive a notícia de que mamãe não tinha resistido, ela tinha me deixado. Eu estava sozinha...

Foi então que encontraram minha madrinha no Rio de Janeiro, pegou minha guarda e eu fui morar com ela na Rocinha. Ela era uma pessoa difícil mas aos poucos fui me acostumando, fiz amigas, comecei a sair escondido, beber, fumar, tudo que não podia, o pior de tudo foi quando comecei a me envolver com o Falcão, ali eu mudei, tive o gostinho de como era viver com dinheiro
e gostei, queria mais.

Na mesma época conheci o Flávio, um carinha da zona Sul que era filho de um político importante, tinha muita grana, me interessei logo de cara por ele, comecei a me envolver com ele, Falcão se apaixonou e eu mostrei também estar por ele, mas não era verdade, eu gostei dele sim mas amar? não, as únicas pessoas que amei foram tiradas de mim,então a partir dali eu amaria somente a mim mesma.

Me mudei da casa da minha madrinha e fui morar com o Falcão, ele subiu de cargo, o dinheiro aumentou e ele me dava tudo que eu queria, menos a minha total liberdade, eu não podia dar bobeira fora da favela, corria riscos assim como toda mulher de bandido,ele poderia morrer a qualquer momento e eu ficar sem nada,eu precisava garantir o meu futuro, e vi essa oportunidade no Flávio.
Com ele eu não corria riscos, podia viajar, ter meus luxos, enfim a vida que eu queria, mas só tinha um problema, eu era da favela, nunca ia ser assumida. Mas não me importava com isso, só queria viver bem.

Então um dia, vi minha oportunidade de me dar bem, o Flávio me ofereceu pagar um apartamento e meus luxos em troca de ficar apenas com ele. Confesso que realmente tive que pensar muito sobre isso, a vida com o Falcão não era ruim, talvez ele fosse uma chance melhor que o Flávio. Mas eu não vi isso, apenas segui minha ganância e fui atrás da vida que eu queria, achei que tudo seria rosas, mas o tombo foi feio.

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