Desde que Colin mencionou a festividade — aquela em que pretende me apresentar à sociedade —, tudo o que tenho feito é treinar. Assisti a inúmeras aulas de etiqueta: aprendi a usar os talheres corretamente e a comer sem provocar olhares de repulsa; a cumprimentar as pessoas, modular a voz em público e me portar com graça. Também estudei moda — essa extensão sutil da etiqueta —, aprendendo sobre maquiagem, combinações de cores e tendências que parecem mudar ao sabor do vento.
E, por fim, vieram as aulas de dança.
Meu plano é simples: quero que, ao menos por uma noite, ninguém perceba que sou uma completa desengonçada.
Mesmo que, no fundo, eu continue sendo.
Fala sério, é horrível ser chique! Aprendi tantas coisas desnecessárias que provavelmente só usaria em caso de extrema urgência.
Prefiro preservar a pouca sanidade que me resta e viver confortavelmente, sem tantas regras e formalidades.
Ainda assim, apesar do meu descontentamento, tentei manter o foco na missão. Colin nunca me pediu nada disso, mas o homem misterioso faz tanto por mim que senti que precisava retribuir de alguma maneira — e, convenhamos, deixar de ser “a esposa desengonçada e sem modos” já seria um bom começo.
A verdade é que não tinha como saber se estava indo bem sem praticar. Por isso, resolvi fazer uma chamada de vídeo com Isabela para que ela avaliasse meu desempenho.
Erro colossal.
A garota levou a missão a sério demais.
É incrivelmente desconfortável comer enquanto alguém observa cada movimento seu com tanta atenção. No começo, eu sempre fingia apertar o botão para desligar a chamada por engano. Mas Isa é esperta — nunca caía nessa. Ligava novamente e, quando eu não atendia — porque, obviamente, colocava o celular no silencioso —, começava a atormentar os funcionários da casa com ligações incessantes até que eu cedesse, vencida pela vergonha de incomodá-los.
A parte boa é que, segundo ela, já estou apta a comer em público.
E eu acredito, porque, se existe uma coisa em que Isa é boa, é em ser sincera — por sorte, não sou do tipo que se magoa facilmente, ou já teria surtado quando ela disse que mastigo pior do que um cachorro de rua.
Infelizmente, no quesito moda e maquiagem, continuo sendo um desastre completo. Juro que tentei — de verdade —, só que fracassei miseravelmente.
Ainda bem que Isabela prometeu cuidar de tudo no dia do evento que tanto tem me deixado ansiosa.
É um alívio poder contar com uma fada da moda!
Mesmo assim, quero aprender a ser sofisticada por conta própria. Não sei por quanto tempo estaremos vivendo essa sintonia perfeita, e preciso ser capaz de me virar sozinha.
Queria conseguir pensar no futuro com otimismo, porém a vida me ensinou a esperar pelo pior.
Por isso, estou sempre pronta para o sofrimento.
É certo que esperar por ele não faz com que a dor diminua, mas mantém, com obstinação, os pés no chão.
Com a penúltima parte das aulas de etiqueta finalizada — saber como falar, andar e me comportar em público —, restava apenas a dança. Essa eu precisei estudar sozinha, já que Isa não teve muitas oportunidades de vir até minha casa.
Felizmente, foram as únicas aulas que realmente me deixaram contente e confiante.
Como imaginei que as chances de dançar com alguém no grande dia seriam mínimas, dediquei-me de corpo e alma. Só consigo fluir quando não estou tomada pelo desespero. Ainda assim, por algum motivo, fiquei apreensiva assim que Colin me chamou para dançar, pouco antes de sairmos.
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GAROTA INDOMÁVEL
RomanceArabelle Werneck já sentiu a dor em sua forma mais cruel: a que corrói o corpo, e a que destrói a alma. E tudo isso sem nunca ter tido escolha. Seus atos de bondade não a salvaram - apenas a levaram a um caminho sombrio, beirando a morte. Quem dever...
