Belle: O Azul Cinzento que Me Fascina

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A esperança é a primeira a morrer.

Quando eu abrir os olhos, possivelmente descobrirei que tudo não passou de um sonho — as partes ruins e as partes boas. Sempre fui cética quanto à existência de milagres e, embora houvesse aquela pequena chance do “sim”, nunca acreditei que eles fossem destinados a mim. Não é que eu duvide de tudo ou seja negativa; apenas realista, moldada pelas vezes em que minha própria mente sonhadora me enganou, até que duvidar da graça deixasse de ser fraqueza e se tornasse um instinto silencioso de sobrevivência.

Sou carne, mas a vida brinca tanto comigo que, às vezes, me sinto como vidro: frágil, à beira de estilhaçar.

Por várias noites, sonhei que finalmente havia escapado das garras de Felipe e, ao despertar, a realidade jamais justificava meu sorriso bobo e ingênuo. Por isso, quando digo que a esperança é a primeira a morrer, falo com convicção: faz anos que a afoguei no vasto oceano de mágoas que envolve minha existência.

O ceticismo que se instalou após sua morte me sufoca noite e dia.

Mas não há como controlar os sonhos.

Há?

Neste último, por exemplo, ousei ser esperançosa.

O homem misterioso — um fruto oscilante da minha imaginação — conseguiu, em uma única noite, reacender em mim a crença na bondade. Desejei que, apesar da absurda proposta de casamento, nossa relação fosse boa.

Eu aceitaria tudo, desde que, diferente de papai, ele não me batesse, maltratasse ou julgasse.

Todavia, a vida desperta é diferente: rígida, cruel, dolorosa. Se um sonho bobo é capaz de nos entristecer por não ser real, imagine o que a dor da realidade pode fazer com um coração frágil e sonhador.

Fugir não é opção; ficar não é escolha.

O que me resta é a decisão de encarar o pesadelo que vivo.

Quando finalmente crio coragem para abrir os olhos, ouço o ranger da porta.

A covardia me domina novamente, e forço as pálpebras a permanecerem fechadas.

O problema é que, na minha realidade, Felipe sempre aparece quando atraso o café da manhã — e o resultado desse erro são os cortes deixados pelo arame de aço.

Seja como for, a escolha nunca regeu meu caminho. Apenas uma obrigação sádica e cruel de sobrevivência.

Desejar a morte, nesses momentos, tornou-se mania. Para não fazer qualquer besteira após as surras — sempre elas, constantes, comuns —, penso em Hope. Ela é o único motivo da minha luta diária para permanecer viva.

São aqueles pelinhos negros e os olhos azul-acinzentados que me salvam todos os dias.

Mas por que, de repente, comecei a pensar nele?

Ah, claro. O olhar.

Os dois têm a mesma maldita cor nos olhos, aquele azul que se perde em meio ao cinza das nuvens chuvosas.

Sinto vontade de chorar.

Pensar nesse detalhe só faz com que eu deseje ainda mais que esse sonho tolo fosse real.

Indignada com tamanha bobagem, abro os olhos.

Entretanto, o que vejo me surpreende: estou em um lugar desconhecido, onde o cheiro de limpeza e remédios me enjoa. Ainda assim, são esses pequenos sinais que fazem a esperança — aquela que afoguei no oceano de mágoas — ressurgir sem aviso.

Num impulso, tento me levantar da cama.

— Não faça isso! — um susto me paralisa quando o homem de cabelo grisalho e jaleco branco grita e corre até mim. — Você saiu de uma cirurgia há pouco tempo — ele ajeita o travesseiro para que eu me deite novamente. — O repouso é crucial. Não quero que se levante até eu dizer que pode — sua voz não admite discussão.

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