Não sou tola o bastante para fingir que não percebi as indiretas de Colin Miller sobre o nosso beijo – eu as senti em cada gesto, em cada olhar, na forma como seu riso quase traía o que queria dizer. Eu apenas escolhi ser cruel com meu marido. Escolhi o silêncio, a distância, como quem ergue muros para não desmoronar.
Se eu tivesse sido um pouco mais impulsiva, confesso: teria cedido ao primeiro toque. Teria dito o quanto aquele beijo queimava em mim, como uma chama que se recusa a se apagar, como se cada toque dele gravasse meu nome na pele, tatuando lembranças que nem o tempo poderia apagar. Teria revelado tudo o que meu coração insistia em negar, mesmo quando eu jurava para mim mesma que controlar os sentimentos era a única forma de sobreviver – e que, talvez, sobreviver sem ele já fosse impossível.
Mas o imprevisível aconteceu – e, de repente, odiei a frieza com que me comportei. Me odiei com uma força que quase me arrancava o fôlego.
Quando Colin anunciou o noivado, o mundo pareceu desacelerar. Cada palavra dele ecoava na minha cabeça, reverberando como um martelo.
O choque foi tão avassalador que, por um instante, esqueci que a noiva era eu.
Eu. Arabelle Werneck.
O pânico da perda se lançou sobre mim antes que qualquer raciocínio pudesse reagir. O coração disparou, a garganta secou, e, momentaneamente, senti-me deslocada até dentro da própria pele.
E então percebi Isabela ao meu lado, a voz dela baixa e calma, quase um sussurro que parecia distante no turbilhão de emoções:
- “Não leve muito a sério.”
Era o jeito doce dela de dizer:
“Quando tudo acabar, você estará livre.”
Mas Isa não entende. O meu medo nunca foi o de ficar presa a um noivado... não. O que me aterroriza é o fim dele, a ideia de perder Colin, de vê-lo escapar das minhas mãos, de sentir o vazio que deixaria quando tudo terminasse. Era como se cada palavra dela jogasse sal em uma ferida que nem mesmo eu queria admitir existir.
O pavor da perda era mais do que racional; era físico, uma pontada constante no peito que me lembrava de que, por mais que tentasse, não havia como controlar o destino. Pensar que a felicidade tinha prazo de validade me rasgou por dentro, deixando um vazio ardente que parecia consumir cada parte de mim. Ainda assim, para poupar o homem misterioso de qualquer constrangimento – ou talvez para manter a última migalha de controle sobre mim mesma – caminhei até ele.
Passos lentos.
Respiração presa.
Coração martelando como um tambor de guerra – cada batida me lembrava de que nada poderia ser desfeito.
E então o vi sorrir.
Ah, o sorriso dele…
Tão fácil de odiar, e, ainda assim, impossível não amar. Um sorriso deliberado que queimava, que chamava, que me fazia questionar tudo o que eu pensava que controlava em mim.
Diante dele, por mais que meu olhar tentasse se manter firme, meus ouvidos não puderam ignorar nada. As vozes, as risadas, as grosserias mascaradas de comentários – cada palavra atingia minha pele como lâminas invisíveis. O autocontrole, aquele que sempre me orgulhei de possuir, começou a ruir, escorrendo pelos meus dedos junto com a raiva crescente.
O calor subiu. A fúria ferveu.
A simpatia morreu, esmagada sob o peso da indignação e do desejo de mostrar a ele que eu não seria ignorada.
Tomei o microfone da mão de Colin.
Ele congelou, os olhos arregalados, surpreso e assustado, ao perceber meus dedos trêmulos – tremendo de fúria contida e emoção à flor da pele. E então… eu fiz o que ninguém esperava.
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GAROTA INDOMÁVEL
RomansArabelle Werneck já sentiu a dor em sua forma mais cruel: a que corrói o corpo, e a que destrói a alma. E tudo isso sem nunca ter tido escolha. Seus atos de bondade não a salvaram - apenas a levaram a um caminho sombrio, beirando a morte. Quem dever...
