Olho para o relógio na parede: duas da manhã.
Estar acordada a essa hora deveria ser considerado uma afronta à própria sanidade.
É sempre assim. A madrugada chega, o silêncio toma conta de tudo, e meus pensamentos encontram espaço para fazer o que sabem fazer de melhor: me atormentar.
Neste exato momento, um turbilhão invade minha mente sem pedir licença.
Tento afastá-lo. Tento ignorá-lo.
Não consigo.
Nunca consigo.
Então cedo.
Sempre cedo.
Nos dias bons, gosto de acreditar que minha vida inteira não passou de um experimento fracassado. Que sou apenas um teste mal executado de algum ser superior e que o livre-arbítrio é uma mentira confortável criada para nos manter obedientes ao que quer que seja. Nos dias ruins, penso exatamente o contrário. Acredito que somos responsáveis pelas próprias escolhas e que o roteiro desastroso da minha vida é consequência direta das decisões que tomei.
O problema é que não me lembro de muitas ocasiões em que realmente tive o direito de escolher.
Pelo menos não antes de conhecer Colin.
Ainda assim, existe uma conclusão que permanece igual em ambas as teorias: somos todos máquinas quebradas, presas a ciclos intermináveis, repetindo os mesmos padrões cansativos, sufocantes e absurdos até o fim.
Mas hoje meus pensamentos estão ainda piores.
Porque percebo, com uma clareza quase dolorosa, que meus sentimentos pelo homem misterioso estão mudando.
E mudando rápido demais.
Aquele ódio que jurei sentir por ele no início se tornou algo distante. Quase insignificante. Às vezes me pergunto se realmente o odiei ou se aquilo foi apenas uma fantasia criada pela minha própria covardia — a coragem inconsequente que tive ao defendê-lo de James surgiu de forma tão absurda que passei horas tentando encontrar uma explicação lógica.
Não encontrei. Nem sei se vou encontrar.
De forma tão repentina quanto a mudança de uma estação, Colin se infiltrou em todos os cantos da minha vida.
Invadiu meus pensamentos.
Meus gestos.
Minhas certezas.
Até as partes de mim que eu julgava inalcançáveis.
Colin acredita que será difícil me fazer confiar nele — não poderia estar mais enganado. Apesar de todas as vezes em que neguei, resisti e tentei me proteger, percebo que já confio naquele idiota. Quando me chama de princesa, não é o apelido que me afeta: é a sinceridade.
A forma como diz... como se realmente enxergasse algo valioso em mim.
Cada vez que aquela palavra atravessa seus lábios, sinto minhas defesas enfraquecerem um pouco mais.
Isso é péssimo!
Meu plano para os próximos seis meses era simples: permanecer distante, indiferente e protegida de mim mesma. Mas a realidade resolveu rir da minha cara. Ainda não completamos sequer um dia vivendo sob o mesmo teto e eu já não posso fingir que tudo se resume a afeto.
Não sei exatamente o que sinto. Só sei que, seja lá o que for, vai me atingir com força.
Vai me afetar profundamente.
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GAROTA INDOMÁVEL
Storie d'AmoreArabelle Werneck já sentiu a dor em sua forma mais cruel: a que corrói o corpo, e a que destrói a alma. E tudo isso sem nunca ter tido escolha. Seus atos de bondade não a salvaram - apenas a levaram a um caminho sombrio, beirando a morte. Quem dever...
