imaginário

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imaginário

Imaginei nossa casa amarela, e todas as idas para a faculdade. Imaginei até mesmo nossas brigas, discussões para nos tornar algo mais palpável. Te imaginar é meu jeito de não te deixar ir. Imagino se tu me imagina, todo dia...Sei que existe saudade, sei que tem partes suas que sempre vão caminhar comigo, mas será que essas partes realmente fazem falta? Nos imaginei na primavera de dezembro, nos jantares a luz de vela, na sacada de madrugada, na beira da praia, catando conchinha para preencher nosso pote dos sonhos. Te imaginei de tantas formas que acho que nem lembro mais quem você realmente é. Medo de conhecer gente nova, desse sentimento de te amar se tornar cera em meu ouvido. Ser imaginário, castanho, místico, sonhador, criação minha. Me conforto com todas essas idealizações de você, mesmo sabendo muito bem que nunca fomos nada além daqueles olhares que carregavam o peso de três palavras. Sua vida seguiu bem longe da minha, como duas linhas entrelaçadas que, com as pequenas cócegas do destino, se tornaram paralelas. Vias de uma estrada que ainda me dão esperança de, mais a frente, uma rótula nos cruzar. Imaginei a forma como seguras minha mão, colocas o cabelo para trás de minha orelha, ah! Imaginei o som do meu apelido mais querido escapando da tua boca...Coisa fértil essa de imaginar, tem vezes que me assusto com o poder dessas lembranças falsificadas. Me apaixonei por você de um jeito que me fez recusar o convite do desamor. Recusei todas as curas e abracei os sintomas como quem tem medo do próprio reflexo. Castanho, sei que me escutas, sei que sabes a identidade desse meu castanho castanhola. Não se assuste, por favor. Eu nunca soube amar pouco, mas tudo isso aqui é a prova de que também nunca soube demonstrar muito. Algo me grita que você sabe o que sinto, mesmo tão distante, cruzando o viaduto em cima de mim. Sei que tem dias que assombro suas memórias, seremos sempre fantasmas nas lembranças um do outro? Te imagino nas fotografias que decoram a casa, mas será que eu também estou nas tuas? Nunca fui boa em superar, esquecer. (Re)moer pedras sempre foi minha habilidade — acredita-se que nunca ganharei uma medalha com esta. Talvez imaginar possa ser minha nova habilidade — mas a tendência é só te perder mais. Odeio o tempo, a distância, mudanças. Imagino eu e você, tão iguais e plano de fundo. Abro os olhos e, castanho, tu me viu? 

Castanho

Tu

Sequer

Existiu? 

CASTANHO CASTANHOLAOnde histórias criam vida. Descubra agora