– Por que parou? Não estava bom? - ele fez uma cara de preocupado, com vergonha.
– Não, quer dizer... Estava. Só estou meio confusa...
– Entendo... - Jim olhou para baixo, ainda envergonhado, e logo depois pegou sua mochila, que ele deixara no chão quando sentamos no banco, e disse: - É melhor eu ir...
– Sim - concordei, infelizmente. Eu queria que ele ficasse, mas seria melhor ele ir embora.
Eu sinceramente não sabia se eu devia sentir raiva dele ou amor. Ele estava realmente querendo algo comigo em um momento tão delicado da minha vida como esse? O que ele pensava? O que ele queria?
Eu sei que ele é um garoto na adolescência e os hormônios ficam a mil, os garotos ficam querendo coisas com as garotas, mas...
Ele poderia estar realmente gostando de mim, mas logo agora? Ele podia esperar um pouco, não sei.
De repente, veio-me um pensamento muito "indevido" , entretanto veio, parecendo que para me confundir mais assim.
Mas ele também poderia estar fazendo de propósito, para me confundir mesmo e me fazer se sentir mal - não sei bem como, muito menos porquê.
Esse pensamento não fazia sentido...
Meus pensamentos estavam a mil quando saí daquela praça.
&&&
– Camila? Voltou aqui por quê? - eu sentia na voz de Lira um tom suave, mas a raiva que estava dentro dela e saia enquanto ela falava era perceptível. Não sei o motivo de tanta raiva, sinceramente. Poderia ser sim "nóia" da minha cabeça, mas algo me dizia que não; além de eu não conseguir achar o porque de eu criar algo assim.
– Eu voltei porque quero te contar uma coisa, Lira.
– Você disse a mesma coisa na última vez que veio aqui, e não foi uma coisa lá muito importante, se me permite dizer. - a mulher conversava comigo na porta, o que estranhei, já que ela sempre me deixava entrar.
– Bem, mas agora, se me deixar entrar, posso contar o segredo que o Harry me contou com mais calma. - "E paciência" , pensei comigo.
Eu pensei que ela falaria um "Fale aqui mesmo" , mas fui surpreendida com um:
– Claro! Sendo assim, entre. - ela abriu a porta, assim como abriu um sorriso.
Entrei e fui logo para a sala de estar, com aquela enorme TV me observando, sem Lira atrás de mim; essa tinha se dirigido à cozinha para buscar algo. Depois de alguns segundos, ela chegou com o chá, que como de costume e pelo cheiro, era de camomila; mas ela foi seguida por algo que me surpreendeu bastante - um choro de bebê vindo do andar de cima.
– Ah! Vou ver o que é. Volto num instante - ela colocou a bandeja rápida, mas delicadamente na mesa e foi em direção à escada, que ficava no outro cômodo.
Voltou depois de uns cinco minutos, pedindo desculpa pela demora. Eu disse que ela não precisava se desculpar, sendo somente educada, e ela sorriu para mim. Estávamos claramente trocando falsidades.
– Bom... - comecei - A senhora deve saber que não é muito fácil falar isso...
– Eu imagino... Imagino a coragem e a guerra que deve ter sido para vir até aqui. Eu te entendo, querida. Pode falar.
– Seu filho... Harry...
– Sim...
– Ele... - paralisei-me por um instante, sem conseguir falar, com uma espécie de bloqueio que veio e ficou por apenas um momento.
– Ele...?
– Harry era gay. - não sei como as palavras saíram da minha boca, só sei que as pronunciei tão rápido que fiquei em dúvida se ela tinha entendido ou não.
Mas pela cara que fez, ela entendeu. Lira fazia uma cara de confusa, olhando para o chão, pensativa, depois para mim, com a boca um pouquinho aberta.
– Eu sei que é difícil...
– Não. - ela falou de repente. - Tudo bem. - Lira falava rápido. - Pode ir embora. - ela estava finalmente revelando seu lado verdadeiro e começara a fazer uma cara sem expressão alguma, parecendo tentar estar triste e até um pouco magoada.
– Ahn... Está bem, senhora. - me levantei, bem rápido, pegando meu casaco, que eu botara no sofá, ao meu lado, logo antes de me sentar.
– Obrigada... - as palavras de sua boca saíram meio trêmulas. Quando a porta se fechou, ficou um silêncio, e ouvi-a deslizando até o chão, encostada na porta.
Fiquei triste por ela, mas eu tinha de contar aquilo. Tirei um peso enorme de cima das minhas costas. Só não sei se isso foi bom ou ruim ainda...
&&&
Depois de pensar atentamente no que tinha acontecido, fiquei em dúvida se a mãe de Harry ficara realmente surpresa com o que eu lhe acabara de contar. Havia algo naquele olhar que ela fez para mim logo depois que contei que não me convenceu. Talvez aquilo tudo tenha sido uma ceninha dela para me enganar. Mas enganar do quê? Eu acho que estou ficando cada vez mais confusa, e talvez um pouco louca. Em momentos como esse, normalmente eu contava tudo para Harry e ele que me dizia no que eu estava pensando, como se estivesse separando as peças de um quebra-cabeças e as colocando nos devidos lugares...
Talvez ela pudesse já saber, mas estava querendo que eu achasse que ela antes não tinha ideia disso... Outra coisa que pude perceber em seu olhar foi um pouco de insatisfação; parecia que ela esperava outra coisa, algo mais... Como se ela dissesse: "Ahh, é isso? Eu já sabia. Achei que iria me falar algo que realmente prestasse para mim..."
Mas eram apenas hipóteses. Hipóteses que entravam na minha cabeça não sei por onde. Acho que foi pelo buraco que uma certa pessoa fizera, e essa certa pessoa também tinha feito um buraco no meu coração.
Mas, enfim, havia algo naquela mulher que me deixava intrigada – e eu ia descobrir o que era.
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Dear Harry
RomanceCamila demora para superar a verdadeira e forte amizade que tinha com Harry - os dois conversavam pelo celular diariamente, além de serem melhores amigos na escola -, e com sua morte ela fica com uma espécie de trauma, ainda escrevendo (em um "diári...
