Consequências.

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O dia posterior ao ataque amanhecia de forma caótica para a Coroa. Jaehaerys e Alysanne eram acordados às pressas para serem informados dos últimos acontecimentos.
O velho Rei estava sentado no trono de ferro com a coroa torta em sua cabeça e com um semblante completamente sonolento e desinteressado, desinteresse que logo foi substituído por surpresa ao ouvir o que os filhos e a neta haviam feito.

— Perdão, pode repetir? - O homem disse se ajeitando no trono enquanto esfregava os olhos.
— Vaegon, Maera e Rhaenys queimaram o Septo Estrelado e boa parte da capital de Dorne. Se somarmos as mortes... São muitas, eu diria. - O guarda pacientemente repetia com certo receio. Ao ouvir a confirmação dos fatos, A Boa Rainha Alysanne que estava em pé ao lado do trono sentiu as pernas falharem e se ajoelhou com ambas as mãos nos fios de cabelo. Porém, aquilo não era tudo, e o guarda continuava a falar. — Eles utilizaram as armaduras que estavam guardadas em Dragon Stone... Dizem que Vaegon utilizou uma de Maegor e...- Neste momento a voz do homem foi interrompida pela voz furiosa de Jaehaerys.
— Vaegon utilizou a armadura de QUEM? - O Rei se agarrou com tanta força na braçadeira do trono que ao soltá-la ele possuía múltiplos cortes nos dedos.
— Isso não está acontecendo... Não, não criei Maera assim. Pelos Sete o que está acontecendo... — A voz doce de Alysanne saía em forma de sussurros enquanto ela tentava processar as informações.
— Chega. Preparem Vermithor e Asaprata, vamos resolver isso pessoalmente. - O velho homem disse se levantando do trono, neste momento ele olhava para a figura agachada da mulher no chão e respirava fundo com certo desdém. — Se levante mulher. Chorar não irá concertar o que fizeram.

Alguns boatos que correram mais tarde na cozinha do castelo dizem que Alysanne havia de fato se levantado após ele mandar, mas, que ela havia se levantado para dar um tapa no rosto do marido. A veracidade deste fato é questionável.
Se Jaehaerys apanhou ou não, ninguém sabe, mas, após algumas horas de vôo lá estavam eles em Dragon Stone. Assim que pousavam na areia da praia eles eram recepcionados de maneira nada calorosa e nada amigável pelos olhares dos três dragões que haviam se aninhado ali um do lado do outro. Vermithor e Asaprata se sentiram intimidados e rapidamente levantaram vôo para irem ao lado oposto da ilha se aninharem longe dos demais dragões. Já no pátio exterior do castelo, Jaehaerys e Alysanne foram recebidos por três guardas que os levavam para o interior.

— Isso é uma palhaçada, cresci e vivi neste castelo, não preciso de vocês. - O velho Rei falava com certa revolta enquanto apertava o passo para ultrapassar os guardas, queria olhar os filhos e a neta nos olhos o quanto antes. Alysanne ainda estava inerte nos próprios pensamentos e nas próprias lamentações, sua expressão facial estava neutra.

A primeira coisa que viram ao adentrarem a sala do trono de pedra foi a visão de Maera sentada no mesmo, a jovem ainda utilizava a armadura que um dia havia pertencido a Conquistadora Visenya e os longos fios platinados dela estavam cinzas e ainda com resquícios de fuligens, a garota que sempre mantinha uma aparência dócil, agora estava parecendo uma verdadeira guerreira, e isso pegava Rei e Rainha de surpresa. Vaegon estava ao lado esquerdo da irmã e Rhaenys ao lado direito, ambos também ainda trajavam as armaduras.

— Pai. - Maera era quem quebrava o silêncio.
— O que isso significa? Pelos Sete Infernos, o que isso significa!? - Jaehaerys berrava enquanto intercalava o olhar entre os três.
— Significa que eu fiz o que você deveria ter feito quando se sentou ao trono, ou o que Aenys deveria ter deixado Visenya fazer. Se vocês dois foram covardes o suficiente para deixarem a situação sair de controle, eu mesma a arrumei. - A princesa respondia com firmeza enquanto ajeitava a postura no trono, direcionando um olhar raivoso para o pai.
— É isso que você deseja ser então? Uma tirana? - O Rei a questionava e logo em seguida direcionava o olhar para Vaegon. — E você? Utilizando a armadura de Maegor! De Maegor!
— Ao menos no reinado dele a Fé Militante estava mansa. Assim como está agora. - A resposta ríspida saía de maneira natural pelos lábios do homem.
— Pensa que seu pai ficaria orgulhoso? - O Rei parecia desistir de dialogar com Maera e Vaegon e se direcionava a Rhaenys, mas, tudo que ele ouvia da boca da garota também eram palavras ríspidas.
— Não sei e não terei como saber, pois ele está morto graças a você e mortos não sentem orgulho ou desdém. Me responda, avó, o que você iria fazer para vingar meu pai e meu tio?

Neste momento Jaehaerys ficava completamente sem palavras, a audácia dos três era demais para ele suportar e lidar. Seus lábios produziram um esgar e um leve barulho de frustração saía de sua garganta.

— Maera... Eu não lhe criei assim, minha garota, por favor me ouça. - Os passos de Alysanne ecoavam pela sala do trono enquanto ela caminhava em direção a filha.
— Você não criou ninguém. - Após falar isso o arrependimento batia de maneira imediata, mas, isso era algo que precisava ser dito, uma verdade feia e dolorosa. — Você não me criou, não criou Vaegon, não criou Baelon, não criou Aemon, não criou Alyssa, não criou Daella, não criou Saera, não criou Viserra. Você nos fez e assistiu em silêncio Jaehaerys nos destruir.

Após a fala cheia de mágoa de Maera o silêncio novamente invadia a sala. Alysanne estava imóvel na frente do trono enquanto lágrimas escorriam pelos seus olhos e molhavam suas bochechas e pescoço, já Jaehaerys estava com os lábios entreabertos devido a surpresa.

—... Exilados, os três. - As palavras saíram da boca do velho homem e então ele se virava de costas para sair, até que a voz de Vaegon chamava sua atenção.
— Você não pode fazer isso. Sou o herdeiro que lhe restou.
— Você não é meu filho. - Ele respondia se virando para olhar o príncipe nos olhos.
— E você certamente não é meu pai, mas, graças aos seus erros eu sou o último. - Vaegon disse em um desdém mútuo.

Maera estava segurando todas as emoções dentro de si, pois, apesar de tudo, ela amava Alysanne e ver a mulher naquele estado após ouvir aquelas coisas, fazia o coração da jovem se apertar. A platinada se levantava do trono de forma sútil e caminhava até a Rainha, colocando uma mão sobre seu ombro.

— Você deveria ter ficado no norte. - Ela sussurrou apenas para Alysanne ouvir. Não era segredo para ninguém os boatos de que o verdadeiro amor da vida da Rainha havia sido o Lorde Alaric Stark. Ouvir isso fez a mulher bater na mão da filha e dar alguns passos para trás para então se virar e sair dali. Ao assistir a mulher deixar a sala, Jaehaerys respirava fundo e direcionava o olhar uma última vez para os filhos e para a neta.

— Vocês irão retornar para King's Landing e permanecerão no castelo. Se eu sonhar que algum de vocês saiu dois passos sequer da Fortaleza Vermelha, os três serão exilados. E você, Vaegon. - O Velho Rei apontou o indicador na direção do filho. - Já que deseja assumir a responsabilidade de ser herdeiro, irá resolver essa bagunça. Você vai ouvir e negociar com os lordes que desejam respostas e resolverá essa maldita guerra sozinho. - O homem abaixava lentamente o dedo. - Rhaenys irá diretamente para Derivamarca e cumprirá seu dever ao se casar com Corlys Velaryon. E você Maera, chega de bancar a guerreira, irá se casar e sossegar.
— Comigo. Ela se casará comigo. - Vaegon rapidamente acrescentava para evitar que Maera abrisse a boca e ofendesse novamente Jaehaerys. E funcionou, tendo em vista que tudo que Maera fez foi sorrir de canto.
— Eu não me importo com quem ela se casará desde que ela sossegue. Estamos claros? - O Rei disse após concluir a sentença de cada um. No fundo ele queria mesmo ter os exilado, mas, como Vaegon mesmo disse, ele não poderia.
— Estamos. - Vaegon, Maera e Rhaenys disseram de forma sincronizada e logo após se entre olharam com certo orgulho e malícia. Não eram sentenças tão ruins afinal.
— E pelos sete infernos tirem essas malditas armaduras.

E foi assim que Canibal, Balerion, Meleys, Vermithor e Asaprata voaram lado a lado para retornarem a King's Landing.
Assim que retornaram ao castelo Maera, Vaegon e Rhaenys podiam ouvir os criados sussurrando atrás de si.

"Dizem que Maegor retornou à terra quando Maera nasceu."
"Eles foram tão cruéis em um dia quanto Maegor foi durante o reinado inteiro."

Ao invés de se ofenderem eles sorriram de forma orgulhosa.

— Lorde Noivo. - Maera disse dando alguns passos na direção de Vaegon, se segurando no braço dele para caminhar ao seu lado.
— Lady Noiva. - Ele a respondia com um sorriso nos lábios e abaixava lentamente o rosto para depositar um beijo na testa da garota.

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