GATILHO: Violência doméstica, perda parental. Se for sensível, por favor, não leia.
Violência doméstica é crime. Jamais se sinta sozinha. Jamais abandone uma vítima. Faça a sua parte, denuncie, quantas vezes forem preciso. Ligue 180 ou 190. Denuncie!
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Ramiro Neves era um menino muito quieto, introvertido, quando criança. Talvez fosse um escudo por ter crescido em um lar recheado de gritaria, violência, desamor.
Seu pai, Guilhermino, era um dos grandes traficantes do Rio de Janeiro, já havia sido preso algumas vezes, mas sempre fugia, ou melhor, era ajudado pela polícia e todas as vezes que ele voltava pra casa, Ramiro sentia que ficava cada vez pior.
Era filho único de Guilhermino, o Pantera, dono do Complexo do Alemão, e Rosa, que por ter tido uma gravidez muito complicada — talvez pela quantidade de agressões que sofria, mesmo grávida —, não pôde ter mais filhos.
Ser filho único em uma família tão conturbada era um castigo. Ele sentia com todas as forças que havia sido castigado, seja por Deus, pelo universo, pela natureza, por todos juntos.
Eram apenas os momentos em que sua mãe estava bem, conseguindo falar, quando sua boca desinchava devido aos socos e chutes, que Ramiro conseguia ser um pouco mais feliz, tinha alguém pra conversar.
Mas tudo mudou na madrugada de 07 de fevereiro de 2012, quando Ramiro, na época com 13 anos, estava deitado e abraçado com sua mãe e escuta o som da porta da casa abrindo forte. Era seu pai, caindo de bêbado em casa. Apesar da situação ser comum, seu corpo estremece diferente daquela vez.
07 de fevereiro de 2012
- Rosa, cadê a porra da comida? — O pai fala alto e embolado, ja se direcionando até o quarto.
- Sua piranha suja, você não fez a comida pra mim? Eu vou comer o que agora? — Ramiro aperta os olhos, quando seu pai abre a porta num empurrão tão forte, que arranca ela do lugar.
– Guilhermino, para com isso, por favor. Eu faço agora, eu não sabia se você iria vir e o Rams tava passando mal, você sabe que quando as vezes ele fica com falta de ar, da uma tremedeira, a gente precisa levar ele no médico.
– Médico, Rosa? Esse menino ta precisando é levar uma coça muito bem dada, pra ver se vira homem, é um viadinho de merda.
– Guilhermino, por favor. Deixa ele em paz. Vamos pra cozinha, eu faço sua comida, vem. — Quando Rosa tenta tocar no pulso do marido, o primeiro tapa é dado em seu rosto. Logo após esse, uma série de agressões começa. Ramiro sentia sua mente girar em 360 enquanto via sua mãe no chão, sendo chutada, estapeada, cuspida, humilhada. Ele tentou se levantar, tentou defender sua mãe, mas suas pernas o traíram, bambearam e ele caiu, sentindo a garganta fechar percebendo sua mãe, já fraca no chão.
A mente de Ramiro, talvez por proteção contra um trauma tão grande, apagou quantos minutos exatos aquela agressão durou, mas ele lembra piamente de que foi muito tempo, porque houve um momento, em que o menino sentia sua cabeça pesada e o chão completamente molhado, visto que, desde que caiu, ele não conseguiu reunir forças para se levantar, então chorou ali, sozinho, deitado no chão.
Quando Guilhermino finalmente se cansou, saiu da casa, batendo a porta e Ramiro se rastejou até a mãe. Mesmo com a visão embaçada pelo choro, ele conseguia ver o rosto e corpo da mãe completamente ensanguentados.
Ele se abaixou e abraçou a mãe. Sua mente não processava nada naquele momento, estava em branco. Até ele sentir um toque fraco em seu braço. Logo se afastou e viu a mãe fraca, dando seus últimos suspiros.
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Complexo - Kelmiro
RomansaKelvin Santana é um jovem que gosta de viver intensamente. Atualmente, morando com sua melhor amiga, tem como seu lugar favorito os Bailes Funks do Rio de Janeiro. No ano novo, os dois amigos decidem ir até um Baile que nunca tinham ido antes, no C...
