Capítulo Trinta e Sete

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As vozes na minha cabeça não paravam.

Hannah, Richy... Amy.

Os acidentes. Tudo se enrolava e desenrolava na minha cabeça, como um rolo de linha de crochê se desfazendo. Algumas partes tinham um nó por ficarem tanto tempo emboladas e outras se desfaziam fácil, mas uma se embaralhar com a outra me deixando um pouco zonza.

Mas então, as vozes pararam, todas ficaram em silêncio. Algumas partes retas da linha finalmente fogem da bola emaranhada de memórias e as partes mais essenciais, as que constroem a minha histórias, se fixam na minha cabeça.

Uma única voz entrou por meus ouvidos e tomou minha mente.

- Não comecei a ver o Homem Sem Rosto por causa de Jennifer. Comecei a ver por causa do que fiz com April. Jennifer me traumatizou, mas foi mais um acidente do que um pecado, já April... Eu destruí muitas coisas para ela e no fim destruí ela.

Hannah...

Deus, me sinto como se tivesse ficado em coma, presa dentro de mim mesmo enquanto vivia tentando controlar meu exterior daqui de dentro, em segundo plano. A vi outro dia, aqui mesmo em Duskwood, mas por que sinto como se fizesse bem mais?

Sei que estava desmemoriada, mas as pessoas normalmente se sentem duas em uma, ou diferentes por causa de uma alteração na personalidade. Mas para mim era como ser eu mesma sem um pedaço. Um pedaço importante, mas ainda sim... Eu.

Me permiti abrir os olhos, finalmente enxergando ela de verdade, tudo voltando com força pra mim. Quando ela me olhou de volta com uma alegria honesta ao me ver despertar, não consegui conter aquela coisa comprimindo meu peito e permiti que o choro escapasse.

O tempo parou em nós duas. Nossos olhares presos quando ela se deu conta de que eu não era mais uma estranha presa no corpo de uma pessoa que um dia ela amou como uma irmã mais nova - e digo isso com convicção, porque se tem uma coisa que nunca posso duvidar sobre Hannah, é que ela realmente me amou.

Ela me olhava com dor, culpa e vergonha. Mas também com um alívio absurdo. Eu a conhecia o suficiente para que pudesse enxergar tudo isso.

Ouvi um suspiro alto e quebrei o contato visual. Olhei em volta do quarto, tudo ainda bem embaralhado na minha cabeça. Passado e presente colidindo. Várias vozes se misturaram enquanto eles se aproximavam para me ver.

Foi a primeira vez que abri a boca, e estranhei o quão rouca minha voz estava:

- Quero ficar sozinha com a Hannah.

Um silêncio gutural se apossou do quarto. Dan deu um cutucão em Phil e os dois chamaram todos para fora. Eles parecem perceber o clima tenso, porque, além de Lily, ninguém se opõe, todos saem às pressas.

- Lily, por favor - peço.

Ela suspira e sai também. Não sei o que Hannah disse para eles, mas acho que ela contou a verdade sobre o que aconteceu comigo, porque o jeito crítico como sua irmã a encarava me fez sentir até pena.

Mesmo com a saída de Lily, continuamos em silêncio um pouco mais. Eu olhando para a parede à minha frente enquanto finjo não sentir o olhar de Hannah sobre mim.

- Eu avisei que Richy era perigoso... - quebrei o silêncio.

- Nossa, eu sabia que você ia falar isso - cruza os braços e eu finalmente a encaro.

As realidades ainda estavam se misturando em minha mente e eu não me lembrava de tudo completamente. Mas com certeza sabia o suficiente.

Tudo o que passei desde a mensagem que Hannah me enviou, o que aconteceu no meu passado, os três anos em branco que passei morando com meu pai. Tudo clidindo como um maldito acidente de carro, e, novamente, eu estava dormindo e só ficando para juntar os pedaços e me quebrando mais com a certeza de que, novamente, aquilo era minha culpa.

Sombras No Presente - DuskwoodOnde histórias criam vida. Descubra agora