Capítulo Quarenta e Três

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   Dan pode parecer um idiota - e é um idiota -, mas ele também é mais esperto do que muitos lhe dão crédito.

   Ele não errou quando supôs que Hannah não sabia tudo sobre mim. Não errou quando supôs que Phil e ela só puderam contar o que eles passaram comigo ou o que eu deixei que soubessem.

   Porque a verdade é que eu fiz muito mais do que ser cúmplice na morte de Jennifer Hanson. E eu com certeza sei o exato motivo pelo qual uma parte inconsciente minha decidiu apagar tudo o que podia.

   Inclusive... Eu também sei muito bem porque na cabana que Richy nos ofereceu tinha uma arma. Não foi apenas o lugar do qual eu caí da escada, lá tem histórias que eu desejo com todo o meu ser que permaneçam trancadas.

   Depois daquela discussão no bar, decidi caminhar um pouco na floresta. Pode parecer burrice, mas seria para a April desmemoriada e inocente até demais, conheço a floresta melhor do que qualquer pessoa deveria.

   Se isso é bom ou ruim, eu não sei e honestamente não me interessa nem um pouco.

   A floresta de Duskwood tem algo sombrio nela, eu sei disso, mas por algum motivo, ela também tem alguma coisa que sempre me atraiu para ela. Algo que sempre me encantou, mesmo quando eu ainda morria de medo de pisar no lugar.

    Apesar do medo, apesar de Jennifer, apesar de tudo, esse lugar continua sendo um imã para mim e eu o amo, mesmo que seja algo estranho de se dizer ou sentir, é a verdade, uma verdade que ninguém jamais entenderia, não de verdade. Não como Amy.

   Minha irmã podia até não ser a melhor pessoa do mundo, não era santa e cometia erros, como todo mundo. Mas ela entendia esse amor que sinto pisando aqui, porque ela era, de certa forma, igual, sentia calma aqui, mas de um jeito diferente de mim.

   Meu peito dói ao lembrar de Amy e ao pensar no luto que eu não pude sentir e que não consigo viver mesmo agora, não de verdade. Amy é alguém do passado, é alguém que eu soube da existência e morte quando ainda faltavam pedaços de mim. Senti muito pela garota e isso passou, e mesmo agora não consigo sentir aquele período de despedida.

   Não é como negação ou uma certeza inumana de que ela está viva de alguma forma, como em filmes fofos que tem uma ligação irreal entre irmãs. Eu sei que ela se foi e tenho certeza disso, mas eu não pude sentir isso quando deveria e isso se mistura e torce dentro de mim, machucando mais do que realmente sentir falta dela.

   Eu adoraria que a dor fosse da perda, que a saudade estivesse me destroçando, mas pensar em Amy não causa nada em mim, nada além de nostalgia e, claro, carinho. Como se ela tivesse ido embora a anos. A culpa de não sentir demais está acabando comigo e por isso ainda não tive coragem de perguntar sobre minha mãe.

   Poderia ter perguntando para Hannah e sua mãe sobre o que aconteceu, se a minha mãe está bem, mas a verdade é que não quero vê-la e sou adulta para admitir isso ao invés de inventar desculpas bestas para encobrir.

   Eu não quero vê-la. Eu não quero entender por que ela não foi comigo quando me tiraram de Duskwood ou saber o que aconteceu para ela se separar do meu pai e eu passar os últimos três anos sem saber dela.
 
   Eu sei que é horrível ter raiva, mas isso não importa, é o que eu sinto e eu não vou esconder, pelo menos, não de mim mesma.

   Admito ter o impulso de às vezes viver em um pequeno estado de negação sobre certas coisas, mas jamais sobre como reajo a elas, eu apenas tento não deixar tudo me consumir. O que, ultimamente, tem sido difícil, já que enquanto pessoas normais tem brigas com o namorado, eu tenho um psicopata me perseguindo.

 Talvez eu precise de terapia.

Chego até o lugar que queria. A cabana da história que Richy me contou. Acho que agora eu sei porque ele fez aquilo.

Podia ser um canalha, mas acho que queria dar uma dica para nós. Para mim.

Eu conhecia aquela cabana muito bem e ele sabia disso. Porque nós dois já fomos até aquela cabana. Uma parte do meu passado que apenas ele e eu conhecíamos e que eu esperava que continuasse como um segredo particular.

Richy se tornou mais babaca do que era na nossa adolescência, ele cometeu mais do que apenas erros, mas houve um momento em que eu o conheci bem o suficiente, um tempo curto em que fomos bastante próximos. E acho que esse momento que vivi com ele pode acabar salvando a minha vida e acho que ele, bem no fundo, esperava que isso pudesse acontecer.

Ele não tinha certeza se queria me matar nas minas e também não podia ter certeza de que ia conseguir me atrair até ali, eu tenho certeza de que em algum lugar ali tem um plano B. Algo que pode me ajudar.

Suspiro alto assim que chego na cabana, as lembranças ainda embaçadas brigando na minha cabeça, querendo abrir espaço na bagunça que já estava lá dentro, mas não permiti. Hoje não, agora não.

Adentro a cabana ignorando as batidas aceleradas dentro do meu peito e tento não torcer o nariz para o cheiro de mofo e poeira que estava ali dentro. Consigo ouvir brigas e risadas ali dentro.

As discussões que tive com Richy ali por ele ser um babaca comigo como se tudo naquela noite tivesse sido minha culpa, dele gritando sobre eu ser uma criança mimada que precisava ir para casa. Por um bom tempo, na cabeça dele, eu realmente era a vilã daquela história, hoje em dia não o culpo, aquela noite ferrou com todos nós.

Porém, acima da gritaria, consigo ouvir também a primeira risada que demos juntos, quando o xinguei de um nome que nem mesmo sei se existe e ele não conseguiu segurar a gargalhada. Tinha ido a cabana naquela noite porque precisava pensar e lá, mesmo sendo sombrio, me trazia algum conforto na época, não esperava que ele também fosse estar lá. Apenas por um momento éramos dois conhecidos de anos rindo de bobagens, não dois idiotas que brigavam o tempo todo.

Por quase duas semanas, todas as noites vínhamos escondidos para cá para fugir de tudo, foi uma época em que Hannah e Amy estavam distantes. Amy por estar sendo apenas babaca e Hannah porque tinha feito alguns amigos novos, hoje sei que teria gostado deles, porque hoje em dia não tem nada que eu não faria por eles.

Só que o problema de brincar de imaginar é que uma hora a realidade tem que voltar, a minha voltou no dia em que Richy apareceu perturbado. Muito perturbado, ele disse que tinha sonhado com aquela noite, que podia sentir o sangue de Jennifer nas suas mão, escorrendo por todos o seu corpo e que não suportava mais carregar aquilo, que havia sonhado também com um homem mascarado que apontava para ele pela sua janela, como se soubesse o crime que ele havia cometido. Eu tentei convencê-lo de que aquilo era só coisa da sua cabeça, que também tinha alguns pesadelos de vez em quando.

Na época achei que estava apenas surtando, hoje consigo enxergar que ele estava apavorado. Percebo que talvez ele não tenha tido apenas um sonho ruim, talvez algo estivesse realmente perturbando seu sono, o rondando em silêncio e querendo que ele confessasse seus pecados.

— Vamos, Richy, por favor... Você me deve isso, pelo menos alguma coisa — sussurro tentando encontrar algo enquanto deixo as lembranças, que eu havia prometido bloquear, dominarem minha mente, com a esperança de que isso me ajudasse a encontrar alguma coisa. — Me diga que não estou louca, que não estou na floresta sozinha à toa... Que você realmente deixou algo aqui pra mim — soluço baixo.

Me sento em uma das cadeiras velhas na cabana e coloco a testa entre as mãos, apoiando os cotovelos nas minhas coxas. Suspiro alto e choro baixo. Aquilo parecia um inferno.

Olho ao redor tentando, pela última vez, achar algo de útil e me dou um high five mental quando vejo um papel jogado no chão. Velho o bastante para estar aqui a, no mínimo, uma semana, mas não para ser algo abandonado anos atrás.

Saio da cadeira para pegar e meu coração quase para quando vejo o que era.

Que merda.

Sombras No Presente - DuskwoodOnde histórias criam vida. Descubra agora