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Que os jogos comecem baby...

Maraisa

Eu não conseguia mais ficar parada. Era como se algo tivesse despertado dentro de mim, um chamado que eu não podia ignorar. O sonho havia terminado, mas o calor persistia, assim como a clareza do que precisava ser feito.

As roupas sobre a cadeira no canto do quarto pareciam uma escolha óbvia, mas meus pensamentos estavam longe. Enquanto me vestia, minha mente revisava cada detalhe daquele sonho. O toque de Luísa, o olhar de Marília, a forma como elas me faziam sentir completamente exposta e, ainda assim, segura.

Por que agora? Por que tão intenso?

Era difícil dizer se o sonho havia sido um reflexo de algo que eu sempre quis, mas nunca tive coragem de admitir, ou se minha mente estava simplesmente jogando comigo. Mas isso não importava. Eu sabia que não dava mais para esconder de mim mesma.

Ao sair do quarto, o silêncio da casa parecia amplificar a minha ansiedade. Eu precisava organizar os pensamentos, mas minha mente parecia presa em um turbilhão. Peguei a chave do carro, minha bolsa, e fechei a porta atrás de mim com um estalo que ecoou como um ponto final em tudo que eu vinha tentando negar.

O caminho até o apartamento delas era familiar, mas, dessa vez, parecia diferente. Cada esquina, cada semáforo, aumentava o peso no meu peito. Eu precisava encontrar as palavras certas, precisava de uma explicação para minha súbita decisão de ir até lá. Mas como explicar algo que eu mal conseguia entender?

Quando estacionei na frente do prédio, fiquei ali por alguns minutos, com as mãos agarradas ao volante. O silêncio dentro do carro era tão pesado quanto meus pensamentos. Respirei fundo, tentando reunir coragem, mas a imagem delas ainda dominava minha mente.

Marília e Luísa. Elas sempre estiveram próximas, mas ao mesmo tempo inalcançáveis. Eu nunca soube como me encaixar naquela dinâmica perfeita que elas compartilhavam. Mas o sonho me mostrou algo diferente, algo que eu não havia permitido a mim mesma enxergar.

Subi as escadas com passos hesitantes, cada degrau me trazendo um misto de ansiedade e determinação. Quando finalmente alcancei a porta do apartamento, fiquei parada, olhando para o número dourado. Minha mão pairava sobre a madeira, indecisa.

"Você nos deseja, Maraisa."

As palavras de Marília no sonho ecoaram na minha cabeça. Não era mais uma questão de desejo, mas de necessidade. Precisava saber se aquilo era real ou apenas minha mente me pregando uma peça.

Antes que pudesse mudar de ideia, bati na porta. Uma, duas vezes. Meu coração estava prestes a sair pela boca quando ouvi passos se aproximando do outro lado.

A porta se abriu, e lá estava Luísa, descalça, com um suéter largo que caía um pouco sobre um dos ombros. Ela me olhou com surpresa, mas havia algo mais em seu olhar — um lampejo de reconhecimento, talvez.

— Maraisa? O que você está fazendo aqui? — Sua voz era suave, mas carregada de curiosidade.

Tentei responder, mas as palavras pareciam presas na garganta. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Marília apareceu atrás dela, usando uma camiseta preta e calça de moletom. Seus olhos me examinaram com a mesma intensidade do sonho, e por um momento, eu me perguntei se aquilo também era uma ilusão.

— Está tudo bem? — Marília perguntou, cruzando os braços enquanto me olhava.

Eu respirei fundo, tentando juntar a coragem que me trouxe até ali. — Eu... precisava falar com vocês.

Luísa trocou um olhar breve com Marília antes de abrir a porta por completo. — Entre.

Eu hesitei por um segundo antes de atravessar o limiar. O apartamento delas era acolhedor, com um cheiro suave de café e um ambiente que parecia ao mesmo tempo íntimo e casual. Elas me guiaram até o sofá, e eu me sentei, tentando encontrar palavras que fizessem sentido.

Marília sentou-se na poltrona à minha frente, o olhar fixo em mim, enquanto Luísa se posicionou ao meu lado, com uma expressão mais branda.

— O que houve, Maraisa? — Marília perguntou, sem rodeios.

Olhei para as mãos, incapaz de encontrar seus olhos. — Eu tive um sonho. Com vocês.

A confissão saiu antes que eu pudesse segurá-la, e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

— Um sonho? — Luísa repetiu, o tom curioso e malicioso

Eu acenei, sentindo o rosto arder. — Foi mais do que isso. Era... real. Vocês estavam lá, e parecia que... que me entendiam de uma forma que ninguém mais entende.

Levantei os olhos, finalmente encarando as duas. — Eu não sei o que isso significa, mas não consigo mais ignorar. Não quero mais fugir de vocês.

Luísa foi a primeira a reagir. Seu sorriso era doce, mas carregava uma intensidade que fez meu coração saltar. Ela tocou minha mão, o gesto simples me enraizando no momento.

Marília, por outro lado, permaneceu imóvel, seu olhar me analisando como se procurasse uma confirmação em minhas palavras. Após alguns segundos, ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Você sabe o que está dizendo, Maraisa? — A voz dela era firme, mas não dura. — Isso não é algo que você pode decidir levianamente.

— Eu sei. — Minha voz saiu mais confiante do que eu esperava. — Passei muito tempo fingindo que não sinto nada, que vocês não me afetam. Mas é mentira. Eu sinto, e sinto muito.

As palavras estavam ditas. Não havia como voltar atrás.

Luísa apertou minha mão suavemente, enquanto Marília me observava, uma expressão indecifrável no rosto. Não sabia o que esperar delas, mas naquele momento, não importava. Eu tinha dado o passo que tanto temia, e agora só me restava aguardar o que viria a seguir.

𝓒𝓸𝓷𝓽𝓻𝓪   𝓟𝓸𝓷𝓽𝓸  ❦Onde histórias criam vida. Descubra agora