IX ❦

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"Alguns desejos não nascem para serem ignorados; eles crescem como uma chama silenciosa, consumindo tudo até que a coragem de enfrentá-los seja a única opção."
- Lobomalebem

Maraisa

Eu não sei como cheguei ali.
O lugar parecia saído de um sonho — ou pesadelo. Um salão vasto, cercado por paredes de pedra lisa que refletiam o brilho suave de um lustre ornamentado. Havia um cheiro doce no ar, como velas de baunilha queimando, e um silêncio tão profundo que os meus próprios passos ecoavam como trovões.

Meu coração estava disparado. Eu vestia algo leve demais, como se tivesse sido preparada para ser exposta. Senti minha pele arrepiar sob o toque invisível do ar morno, e cada nervo do meu corpo gritava para que eu corresse.

Mas, para onde?

Então, ouvi uma risada baixa, grave, quase um sussurro. Congelei. Olhei para frente e as vi: Marília e Luísa, lado a lado, observando-me com um olhar que atravessava todas as minhas defesas.

Marília era impecável como sempre, em um terno preto que parecia esculpido em seu corpo. Seu cabelo solto moldava os ombros, mas eram os olhos — frios, analíticos, e ao mesmo tempo intensos — que me deixavam imóvel. Ao seu lado, Luísa, tão contrastante quanto complementar. Vestia um longo vestido vinho que fluía como vinho derramado. Seu sorriso era enigmático, doce e afiado ao mesmo tempo.

Eu queria falar, mas minha voz me traiu.

— Você chegou, enfim — disse Marília, com a voz que parecia uma ordem velada.

— Onde... onde eu estou? — Finalmente, consegui balbuciar. Minha voz soou mais fraca do que eu queria.

Luísa inclinou a cabeça e deu um passo à frente, os olhos me prendendo como correntes invisíveis. — Onde deveria estar, querida. Conosco.

Conosco? Meu corpo inteiro reagiu àquelas palavras. Elas vibraram na minha mente como algo que eu sabia ser verdade, mas tinha medo de admitir.

Antes que eu pudesse dizer algo, senti o toque dos dedos de Luísa no meu rosto. Eles afastaram uma mecha do meu cabelo, um gesto tão íntimo e inesperado que meu corpo tremeu. Era sutil, mas havia algo em seus olhos... algo que me fazia querer confiar.

— Você sempre foge, não é? — A voz de Marília cortou o silêncio, suave, mas cheia de um comando que eu não ousaria desafiar. — Mas sabe que, no fundo, é aqui que pertence.

Tentei sustentar o olhar dela, mas falhei. Senti minhas pernas cederem, e antes que eu caísse, Luísa estava lá, segurando-me pelos ombros. Sua presença atrás de mim era firme, quase protetora, mas havia uma eletricidade em seu toque que me deixava ainda mais vulnerável.

— Está tudo bem, amor. Você pode se entregar — Luísa sussurrou no meu ouvido.

Meu coração disparava. Por que aquelas palavras me atingiam tão profundamente? Por que eu queria tanto acreditar nelas?

Marília puxou uma cadeira para o centro do salão e apontou para ela, o gesto simples carregando um comando inescapável. — Sente-se.

Meu corpo obedeceu antes que minha mente processasse. Eu estava completamente à mercê delas, e, surpreendentemente, isso não me assustava. Era... libertador.

— Você nos deseja, Maraisa — disse Marília, inclinando-se para mim. Sua voz era baixa, quase um rosnado. — Não minta para si mesma.

Abri a boca para protestar, mas nenhuma palavra saiu. Porque, no fundo, ela estava certa. Sempre esteve certa. O calor subiu ao meu rosto, e eu sabia que estava corando sob o olhar dela.

— Tão adorável quando finalmente admite — Luísa murmurou, deslizando as mãos pelos meus ombros. — Isso torna tudo mais fácil.

Havia uma dança acontecendo entre nós. Elas falavam, me tocavam, guiavam cada movimento meu como se soubessem exatamente o que eu precisava. Era desconcertante e, ao mesmo tempo, a coisa mais intensa que já vivi.

Não era apenas sobre desejo. Era sobre controle, sobre me perder e me encontrar. Com elas, eu podia deixar de ser forte, podia ser pequena, vulnerável. E, pela primeira vez, isso não me assustava.

Mas então, algo começou a mudar. O salão ao meu redor começou a desaparecer, como se fosse feito de fumaça. As vozes delas ficaram distantes, como ecos que escorriam entre meus dedos.

— Não... não vão... — tentei gritar, mas minhas palavras não faziam sentido.

Senti o vazio me puxando, e, antes que percebesse, acordei.

O quarto estava silencioso, iluminado apenas pelo sol da manhã que entrava pela janela. Minha respiração estava pesada, e o coração parecia prestes a sair do peito. Toquei meu rosto, sentindo a pele quente e úmida de suor.

Foi um sonho. Apenas um sonho.

Mas parecia tão real.

A imagem de Marília e Luísa ainda estava clara na minha mente, os toques, as palavras, tudo. Meu corpo ainda reagia a elas, mesmo agora, na solidão do meu quarto.

Fechei os olhos, tentando organizar os pensamentos. Mas só uma coisa fazia sentido: eu não podia mais ignorar o que sentia.

Eu precisava delas.

Levantei-me da cama, o coração ainda acelerado, mas agora por outro motivo. Decidi. Não importava o que acontecesse, eu iria até elas. Eu precisava entender o que havia entre nós.

Não ia fugir mais.

A brincadeira acabou de começar

𝓒𝓸𝓷𝓽𝓻𝓪   𝓟𝓸𝓷𝓽𝓸  ❦Onde histórias criam vida. Descubra agora