Maraisa
A primeira coisa que senti antes mesmo de abrir os olhos foi o calor.
Não o do sol.
O da pele marcada.
Aquele tipo de calor que não vem do clima, mas de dentro...
...do toque que ainda mora em mim.
Meu pescoço latejava, uma dorzinha sutil no ponto exato onde a boca da Marília tinha ficado por tempo demais — e ainda assim, nunca o suficiente.
A parte de dentro da minha coxa ardia.
Um incômodo bom.
Daqueles que a gente sente e quer sentir de novo. E de novo. E de novo.
"Você é nossa agora."
A voz dela ecoou na minha cabeça como uma música que gruda.
Minha alma repetia isso como um refrão proibido.
Me virei na cama, jogando o braço sobre os olhos. Tarde demais.
— Ô amor... esqueceu do lenço ou do corretivo? — a voz do Bruno invadiu meu quarto sem cerimônia.
Levantei a cabeça num susto.
Ele já tava ali, encostado na porta, com a mochila no ombro e um sorriso de quem viu mais do que devia.
— Fecha a porta, Bruno — resmunguei, puxando a gola da blusa instintivamente.
— Se for pra esconder isso aí, já era, viu? Tá parecendo até que brigou com um polvo no escuro.
— Ou... — ele fez uma pausa dramática — alguém resolveu marcar território.
Dei uma almofadada nele.
— Idiota.
— Só tô dizendo. Tava todo mundo ontem tentando adivinhar de onde veio esse brilho no teu rosto. Mas acho que a resposta tá mais... no pescoço, né?
Bruno riu, me jogou o carregador e saiu, ainda murmurando alguma coisa sobre "marcas visíveis de uma vida bem vivida".
Mas era mais que isso.
Aquelas marcas eram minha confissão silenciosa.
❦
Na sala, Maiara já tava falando sem respirar — como sempre.
Um turbilhão de ideias, vozes, acordes e planos. A gente e as meninas iam lançar juntas um projeto ao vivo. Três nomes, três potências, três intenções diferentes de amor.
— A Luísa quer começar com uma pegada mais sexy — ela dizia, mexendo no café com exagero — tipo o jeito que ela fez no último single, sabe? E a Marília sugeriu que a gente revezasse os refrões mais sofridos, tipo assim: eu começo, você sobe e ela explode. Dá impacto, dá punch.
Eu tentei prestar atenção.
Juro que tentei.
Mas tudo em mim ainda doía de um jeito bom.
O banco do carro tinha pressionado o lugar exato onde Marília bateu com o cinto.
O jeans arranhava de leve a marca escondida.
E eu... eu adorava cada segundo disso.
Como é que eu ia fingir que tava tudo normal se meu corpo ainda era delas?
Maiara falava de notas, acordes, palcos.
Mas minha cabeça tava no quarto abafado da outra noite, com a voz da Luísa mandando eu ficar quieta enquanto a Marília sussurrava "boa menina" no meu ouvido.
Eu me perdi num flash.
O som do couro.
O gosto de ser olhada como propriedade.
O aperto no pulso.
O prazer de obedecer.
— ...e aí entra o dueto, Isa...Maraisa?
— Hã?
— Tá no mundo da lua?
— Tô só pensando no tom da música — menti.
Mentira feia.
Eu tava lembrando do tom da voz da Luísa dizendo "ajoelha". Do som da respiração da Marília quando me fez prometer que seria delas, mesmo sem contrato, sem público, sem platéia.
E de como, mesmo depois, no silêncio, elas me seguraram como se meu corpo fosse frágil. Como se eu importasse.
— A gente precisa gravar demo hoje à tarde, tá? — Maiara avisou, já pegando o celular — A Lu e a Lila vão passar aqui depois do almoço.
O nome delas me arrepiou.
Mesmo sentada, eu me ajeitei na cadeira, como se meu corpo já estivesse se preparando.
Porque quando elas me olham... eu me desfaço.
E o pior é que eu quero me desfazer.
A dorzinha entre as pernas reapareceu como um sussurro.
Eu cruzei as pernas instintivamente.
Elas sabiam onde tocar, sabiam como tocar...todas as vezes que eu fechava os olhos me lembrava delas em mim...lembrava das mãos...lembrava dos dedos delas em mim...me lembro do jeito que usaram a boca em mim...me lembro do gosto...eu me lembro de tudo...
Sabiam como fazer eu me lembrar dias depois.
Elas são meu segredo.
Mas meu corpo...
Meu corpo nunca aprendeu a mentir.
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𝓒𝓸𝓷𝓽𝓻𝓪 𝓟𝓸𝓷𝓽𝓸 ❦
FanfictionAs gravações de "melhor sozinha" trouxeram a tona tudo que Luisa e Marilia sentiam uma pela outra: Tesao, fogo e a paixão latente entre tanto ambas eram dominadoras natas em todos os aspectos de suas vidas principalmente entre quatro paredes. Elas s...
