A primeira luz da manhã atravessava as copas das árvores, espalhando tons de ouro e verde por entre as folhas. O rosto de Ibiraci, ainda pálido, parecia ganhar um leve colorido, e Aruanã não conseguia tirar os olhos do amigo. Após a luta desesperada para mantê-lo vivo, vê-lo acordado era um alívio que se misturava ao medo de que ele pudesse, a qualquer momento, enfraquecer novamente.
"Você está se sentindo melhor?" Aruanã perguntou, quebrando o silêncio que parecia ter se instalado entre eles após o beijo que compartilharam. Ibiraci sorriu de leve, assentindo.
"Sim... graças a você," ele disse, tentando se levantar, mas sua mão tremeu, e Aruanã rapidamente segurou seu braço.
"Devagar," sussurrou Aruanã, sua voz baixa e carregada de cuidado. Ele ajudou Ibiraci a se sentar com calma, enquanto os dois trocavam um olhar silencioso que dizia muito mais do que palavras poderiam expressar.
Mas o momento de paz foi interrompido por um som distante, algo que fez ambos pararem e prenderem a respiração: passos pesados e o estalar de galhos. Alguém se aproximava.
O coração de Aruanã acelerou. Ele e Ibiraci tinham aprendido a se mover em silêncio na floresta, mas os que vinham em sua direção não tinham a mesma habilidade. Eram passos bruscos, descuidados, e cada movimento denunciava que aqueles que vinham não eram amigos.
"Rápido, precisamos nos esconder," sussurrou Aruanã. Com um esforço visível, ele ajudou Ibiraci a se levantar, apoiando o amigo enquanto tentavam encontrar um abrigo seguro. Eles se moveram pelo terreno irregular, até encontrarem uma cavidade natural na base de uma árvore antiga, onde se abaixaram, tentando controlar a respiração.
Os passos se aproximaram, e Aruanã segurou a mão de Ibiraci, sentindo o tremor em seus dedos. Ele sabia que Ibiraci ainda estava fraco, e o perigo iminente apenas aumentava a tensão.
As vozes estranhas começaram a se sobrepor ao som dos passos, conversas em um tom agressivo que só podiam pertencer a invasores.
Ibiraci, pálido e respirando com dificuldade, virou o rosto para Aruanã, e sussurrou, mal movendo os lábios: "Aruanã, vá embora... você não precisa ficar aqui."
"Não vou te deixar," Aruanã murmurou de volta, a determinação em seus olhos inquebrável. Ele sentia que, mais do que nunca, sua missão era proteger Ibiraci, e ele não recuaria agora.
O grupo passou a poucos metros do esconderijo deles, e o som se dissipou lentamente. Por um breve momento, Aruanã e Ibiraci sentiram o alívio da paz retornar.
"Acho que eles foram embora," Aruanã sussurrou, relaxando ligeiramente, mas sua mão ainda segurava firme a de Ibiraci, como se temesse que ele pudesse desaparecer a qualquer momento.
Foi então que Ibiraci se inclinou levemente, pousando a cabeça no ombro de Aruanã, com a voz baixa e entrecortada. "Aruanã... não sei o que seria de mim sem você," ele disse, e o peso de suas palavras parecia carregar uma intensidade que nem o perigo ao redor podia quebrar.
"Eu prometo que vou estar sempre ao seu lado," Aruanã respondeu, a voz carregada de emoção e certeza. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo o calor de Ibiraci ao seu lado, enquanto tentavam absorver a paz daquele instante.
Mas, ao se prepararem para sair do esconderijo, o som de vozes novamente se aproximou, dessa vez mais perto e mais determinado. Era como se tivessem deixado algum rastro, e os invasores agora estivessem à espreita, determinados a encontrar quem quer que estivesse naquela parte da floresta.
Ibiraci, respirando com dificuldade e ainda debilitado, apertou a mão de Aruanã, e o coração de Aruanã pareceu parar. Eles estavam encurralados, e ele sabia que lutar seria uma última opção desesperada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Cantos da Floresta
RomanceEm meio à imensidão da floresta amazônica, Aruanã e Ibiraci cresceram como melhores amigos, unidos pelas raízes profundas de sua aldeia e pelas tradições que os cercam. Aruanã, com seu espírito aventureiro, sonha em explorar o mundo além da floresta...
