pegos

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“Eu odeio dizer adeus, mas não se engane, eu não o odeio por estar me despedindo, eu não ligo para despedidas, eu o odeio por ele não ser definitivo. Afinal, quem disse que um adeus é um ponto final? Um dia você sempre volta, seja em uma fila de banco, em um velório, em uma festa, em uma lembrança, em uma carta estúpida…”

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  Chuuya não sabia se era água ou suor, não sabia se o líquido que escorria por entre seus dedos era fruto da árvore do nervosismo. Seu corpo tremia como se estivesse à mercê do frio do Alasca, que tomava posse de todo o seu ser, congelava sua mente, tanto que mal conseguia perceber que tremia apesar de pensar que talvez estivesse prestes a morrer.

O pai gritava furioso, mas não era consigo, porém doeu mais do que se fosse.

  Sua voz soava tão áspera quanto passar a mão em uma parede de grafiato, fazia com que os ouvidos dos irmãos tremessem e todos os problemas que um dia já tiveram na vida parecessem bestas. Era intimidador feito cachorros em uma cela bramando por um pedaço de bife.

  Os olhos azuis do mais novo não conseguiam focar em qualquer outro lugar a não ser na braveza do pai, queria de todo fundo de seu coração poder entender o que se passa na cabeça do mais velho por ter chego tão irado em casa após dias sem ver os filhos. Obviamente a imprudência dos filhos ajudava na raiva do mais velho, é claro, porém ele sempre pareceu ranzinza demais com sua impiedade em situações assim.

  Mas Verlaine, ele sim era diferente, ele não possuía medo, olhava para a fera em sua frente como se fosse apenas mais um gafanhoto em seu quintal, seus olhos estavam relaxados até demais, em um ponto que parecia forçado o suficiente para que alguém acredite que as palavras rudes não cravam mais de mil adagas em seu coração de vidro.

  — Você…— Puxou todo o ar que podia e o soltou de um jeito fervoroso — Você é uma decepção! — As palavras saíram com os dentes de cima e os de baixo quase que unidos, ele apontava seu dedo grosso para o filho loiro, seus olhos que antes eram azuis feito cristais agora pareciam tão escuros quanto rochas, transbordava ódio, ódio por pensar que falhou o suficiente como pai para que seu filho seja assim e tome atitudes tão irresponsáveis. Pela primeira vez na briga ele não gritou, as palavras quase não saíram de sua boca, foi um golpe tão fatal que pôde acabar com o resto de felicidade que havia no corpo do filho mais velho.

  As sobrancelhas loiras de verlaine deixaram de estar tensas, por mais que o corpo inteiro dele fervesse em um misto de sentimentos tão… inexplicáveis. A onda de tristeza enfim atingiu todos os pontos de seu corpo frágil, nada mais parecia tão importante e mesmo estando tão calor ele pode se sentir o corpo frio, sensível a ponto de qualquer leve brisa o atingir como se estivesse nu em um congelador. Ficar tenso não mudaria nada, seus olhos não perderam o brilho, pelo contrário na verdade, estavam até mais brilhantes do que nunca pela fina camada de lágrimas que falhava em tentar se esconder.

   Os olhos azuis do filho mais velho se baixaram, finalmente se sentindo uma escória por tudo que lhe foi dito. Matar aula, não se preocupar com o futuro, não querer seguir o negócio da família, tudo isso é tão importante para o pai? Por que ele se importava com tudo isso quando na realidade mal olhava para o rosto dos filhos durante as semanas normais? Verlaine não se lembra de uma única conversa verdadeiramente e calorosamente paternal que teve com o pai, afinal ele não era seu pai, era seu chefe.

  Onde a mãe dele estava diante disso tudo? Observando com a cabeça baixa? Aceitando o pico de estresse do marido? Ou concordando com a situação? Talvez ela esteja fazendo tudo isso.

  — Chuuya — A voz do velho o chamando desestabilizou o ruivo de todas as formas, suas pernas bambearam fazendo com que ele desse de encontro com o sofá. O coração pulava do peito, ele tentava ao máximo não demonstrar ao pai que sua respiração já não estava tão regulada quanto em horas normais, o ar lhe sufocava tão intensamente que se tentasse falar provavelmente as tais palavras nunca iriam sair por ocupar todo o espaço de sua garganta.

Dupla caótica; SoukokuOnde histórias criam vida. Descubra agora