09| Traidor

47 4 3
                                        

⚠️  Esse capítulo insinua a violência. Se for sensível, não leia!

A gente grita, às vezes silencia, quase sempre não acredita, mas o improvável quando começa a acontecer, não tem direito à defesa.

{•}

Eliziane

Férias. Esse recesso acadêmico deixa meu âmago em êxtase, pela primeira vez em muito tempo sinto vontade de sorrir. Não só isso, mas rir atoa, sentindo meu coração querer sair do peito só de pensar em vê-la novamente.

Papai e mamãe foram ao culto de casais essa noite, não saíram há muito tempo e vão demorar a chegar.

Sinto a água fria do chuveiro bater em meu rosto me fazendo lembrar de quando a vi pela primeira vez, do temporal que invadiu a cidade quando nos encontramos.

Hoje não é diferente, chove lá fora...

Não me deixo abalar. Escovo meus cabelos deixando os fios perfeitamente alinhados. Troco de roupa inúmeras vezes, saias, vestidos longos, nada disso parece me representar mais.
Vencida pelo cansaço visto o q me parece mais confortável. O tecido passa por minha pele me fazendo arrepiar, mas acalenta quando sinto o calor do tecido em contraste com a temperatura fria vindo da tempestade que se aproxima.

Não me deixo abalar, vou vê-la como disse que faria, nem que tenha que nadar pela avenida principal inundada.

Desço pelas escadas e sinto um clima diferente ao adentrar a sala, meu estômago se embrulha, algo me diz que não é um bom momento para ter saído do quarto. A confirmação vem em minha mente quando encaro a pessoa, sentada na poltrona de couro, em frente à escada a minha espera. Papai.

Sua expressão é fria. Eu congelo ainda mais quando vejo meu celular em suas mãos. Minhas mãos suam, minha garganta seca, tento me acalmar, não fiz nada demais, só combinei de encontrar uma amiga. Eu preciso acreditar nisso e tem que ser agora. Repito isso na cabeça afim de convencer parte do meu ser que se declara culpado.

E ele sabe disso, sente meu cheiro de culpa. Preciso escapar dessa, mas sua expressão rígida faz com que todos os músculos do meu corpo queiram parar de funcionar, incluindo as pernas que me concentro para não falhar.

Como num quebra cabeça minha mente relembra, dormi na casa de Leila e ele sabe disso, viu a marca em meu pescoço e quando desapareci novamente, foi na casa dela que ele foi me buscar. E agora está com meu celular em suas mãos.

Ele não pode achar que eu.. e ela.., ele não pensaria isso de mim, ele não pode pensar isso, não agora. Mas não é o que sua expressão me revela.

Ele se aproxima de mim e sua sombra parece maior agora, sem me deixar falar nada suas mãos prendem meus braços com tanta força que parece travar minha circulação sanguínea e assim me sinto, travada.

Meus pés só saem do chão quando ele me  arrasta escada acima.

eu vou morrer.

A casa é grande e ele me leva pra um cômodo nunca me mostrado antes. A casa me parece sombria agora, as paredes escuras parecem me engolir.

- EU TE AVISEI, VOCÊ VAI APRENDER A ME RESPEITAR. Ele grita tão alto no meu ouvido que a ausência de sua fala me faz ouvir um zumbido agudo.

Ele empurra a porta de madeira pesada que range como se não fosse aberta desde quando a casa foi construída.

O depósito. Prateleiras empoeiradas, coisas enferrujadas, não há uma entrada de ar, me sinto sufocar. Sua respiração pesada me assusta, nunca o vi dessa forma. Ele me joga no chão de maneira violenta, não sei o que mais me dói, se meus braços ou meus joelhos que rasparam no chão e agora estão brancos pela poeira, não por muito tempo já que gotículas de sangue começam a aparecer.

Me assusto com o barulho de suas mãos pelas latas das prateleiras e ainda mais quando ele se vira pra mim com uma lata barulhenta. Pregos? Tarrachas? Eu vou morrer. Suplico silenciosamente a qualquer coisa que me escute do céu.

Ele joga no chão. Porcas. Pelo menos não estão embaladas em parafusos, uma parte do meu ser tenta me convencer que não vai ser tão ruim assim. Mas esse lado desaparece como pólvora quando ele agarra minha nuca com força me fazendo ficar de pé. Meu coração parece bater nas pontas dos meus dedos, ele grita comigo e minha cabeça está tão retesada que suas palavras não parecem ser reais.

Ele percebe meus olhos arregalados. Ele se cala. Observo uma veia grossa pulsando em sua testa, ele parece a ponto de explodir de novo. Ele respira fundo e seus dedos afrouxam em meu couro cabeludo, mas quando acho que ele se acalmou, ele me joga de joelhos nas porcas. Meu joelho queima. Tenho certeza que ao olhar pra baixo verei sangue, mas agora, diferente de antes, não consigo segurar as lágrimas nos meu olhos e o nó na minha garganta é o que silencia minha dor.

Quando faço menção de sentar no chão, ele se abaixa a minha altura me segurando na mesma posição, pega na minha mandíbula com força e aproxima meu ouvido da sua boca. Quase num sussurro fala:

- Olha aqui sua vagabunda, olha enquanto eu falo. Você não é a porra de ninguém pra contradizer o que te ensinei.

- Eu tentei ser paciente Eliziane, mas parece que a filha do Barros tá conseguindo te transformar numa putinha de luxo dela.

        - Eu..juro, não fiz nada.. com el- sua mão agora me tira o ar apertando meu pescoço.

- Não jure o que você sabe não ser verdade garota. Você envergonha o nome da família, vou tirar esse homossexualismo de você.

- Você vai ficar ajoelhada aqui, nem sua mãe vai lhe tirar, você vai pedir perdão ao santíssimo, entendeu?

Antes de responder sinto sua mão arrochar mais meu pescoço. - É essa marca que você vai sentir orgulho agora.

Quando sinto minha visão ficando turva ele afrouxa sua mão no meu pescoço, mas agarra novamente meus cabelos, e agora eu não consigo parar de chorar.

- VAMOS ELIZIANE, COMEÇA - ele grita e no fundo um trovão soa alto

Abaixo minha cabeça, minhas mãos se unem, minhas lágrimas caem por mais que meus olhos estejam fechados em súplica - Deus meu pai, me perdoa por esse pecad - minha fala é baixa, eu o temo

- PRA GEMER SUA VOZ É MAIS ALTA QUE ISSO, VAMO - ele puxa meu cabelo direcionando meu rosto pra cima

- me desculpa, eu não queria decepcionar, eu estou arrependid

- AGORA TÁ ARREPENDIDA NÉ?- eu sinto que a morte talvez não seja tão ruim assim

Eu não consigo mais falar, só chorar, mas ao abrir meus olhos sua boca tem um sorriso de canto, ele parece gostar do meu sofrimento. Que pai é esse?

- Olha pra mim garota - eu levanto a cabeça sem muita alternativa

- Você vai ficar aí até quando eu quiser. Aí de você se eu souber que você levantou ou dormiu

- E você vai pedir perdão, em voz alta e é bom que eu te escute quando estiver perto.

Ele bate a porta atrás de mim e eu escuto a tranca. Essa noite vai ser longa.

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Jan 04, 2025 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

ATEROSOnde histórias criam vida. Descubra agora