II

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Ainda fazia muito frio quando Wednesday parou em frente ao portão de casa. Estava trancando como ela imaginava, mas não demorou muito para Tyler abrir. Quando olhou para a cara dele, descansado e com aquele sorriso maldoso no rosto, o sangue ferveu de raiva e simplesmente se esqueceu do frio. Mas ela não ia desafiar ele nesse momento, falaria o menos possível. Apertou com força a flor de papel que Enid tinha lhe dado, aquele gesto deu uma certa força e tranquilidade.

- Passou bem a noite fora de casa?

Até a voz de Tyler a irritava. Trincou os dentes com força para não dar a resposta que ele merecia. Ele não ia gostar de saber o quão bem ela tinha dormido. Passou por ele e foi até o quarto pegar uma blusa, onde guardou a flor no bolso, aquele era seu talismã. Depois foi até a cozinha preparar tudo como de costume. Tyler ia seguindo os passos dela.

- Então Wednesday, não vai me responder?

- Tenho que preparar o café e o almoço que você vai levar.

- Que maravilha, a noite fez bem para sua educação.

- Você nem imagina o quanto.

Ele chegou por trás de Wednesday e agarrou pelos cabelos, fazendo a cabeça tombar um pouco para trás.

- É assim que gosto de você, uma boa esposa, respeitadora. Nunca mais abuse da minha bondade, entendeu? Da próxima vez eu posso não ser tão bondoso.

A mente de Wednesday fazia força para não prestar atenção nas bobagens que ele dizia, desviando o pensamento para Enid, o sorriso, o carinho, o corpo quente aquecendo o seu, o beijo. As palavras de Tyler dispersavam em sua mente sem aquele efeito nocivo costumeiro.

Finalmente ele foi para o trabalho, até o ar da casa parecia mais puro nesse momento.

A partir de hoje começaria a investigar tudo que o marido fazia na igreja, iria descobrir onde ele usava o dinheiro que os fiéis davam no dizimo ou como doação. Tyler sempre dizia que era para a manutenção da igreja e para ajudar as pessoas carentes, mas por que ela nunca via nada de ajuda? E será que igreja gastava tanto assim com manutenção? Precisa encontrar o livro onde ele anotava essas coisas.

Sentia-se motivada, fazia isso por ela, pela igreja e por Enid. Quem sabe as coisas dessem certo e elas pudessem ficar juntas? Teria que abrir mão de muitas coisas na qual acreditava, sua convicções, mas Enid valia o preço a ser pago.

Mas enquanto não resolvesse todas essas coisas, precisava se manter um pouco afastada dela, não sabia quanto tempo aguentaria, mas era preciso. Mas mesmo assim, com seu afastamento, toda manhã Enid lhe mandava a mensagem de "bom dia!".

_____

Ficou três dias sem ter noticias de Enid, evitava sair para fazer a limpeza na frente de casa na hora em que ela saia para o trabalho. Estava difícil resistir a saudade e a vontade de ouvir a voz dela, sentir o perfume. Quando ouvia o barulho da moto, seu coração disparava, fechava os olhos e ficava se imaginando junto com ela a andar pelas ruas, o vento batendo nos cabelos, a mão na sua cintura para não cair.

Começou a se sentir mal na hora do almoço, já faziam dois dias que ela tinha aquela dor no corpo e uma tosse persistente, Tyler vivia reclamando a noite, tanto que ela foi dormir no sofá. Mas agora estava bem pior, a cabeça doía demais.

Procurou por um remédio para dor, mas havia acabado, não tinha certeza se conseguiria ir até a farmácia, seu corpo estava mole, não viu outro jeito além de ir pedir algum para Enid.

Quando foi tocar o interfone, notou um carro luxuoso parado em frente, ficou na duvida se voltava para casa ou tocava. Por fim se decidiu e tocou o interfone.

Para decepção total de Wednesday, quem atendeu e abriu o portão foi uma moça alta e linda, não tinha duvidas, Enid tinha mentido, nunca sentiu nada por Wednesday, já estava com outra garota.

Em algum lugar, dentro do seu peito, ela sentiu seu coração se partir em pedaços.

A Mulher do Pastor- WenclairOnde histórias criam vida. Descubra agora