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   Ao acordar pela manhã, estava completamente desnorteada. Não conseguiu de inicio identificar o lugar onde estava, então viu Enid sentada na beirada da cama observando atentamente. Se lembrou da noite passada, do frio, da confissão, do carinho e do corpo de Enid junto ao seu. O primeiro pensamento que lhe veio a mente foi: Eu dormi com ela, literalmente dormi. E a sensação era boa, muito boa.

  A outra não sorria, só olhava para ela com a cara preocupada.

- Bom dia, Wednesday. Eu te acordei como me pediu, mas confesso que não queria.

- Bom dia, Enid. Obrigada, acho melhor eu ir agora.

- Não sem antes tomar café.

  Em cima da cômoda havia uma bandeja com café da manhã, Enid foi buscar e colocou no colo de Wednesday. Era um banquete, considerando o pouco que costumava comer pela manhã. Ali tinha torradas, algumas com manteiga outras com geleia, café, queijo branco, maçã cortada em cubos, leite e no meio da bandeja dentro de um copinho de plástico, estava um flor desenhada com caneta vermelha. Achou aquilo tão fofo, era mesmo a cara de Enid fazer esse tipo de coisa, mesmo que ela não se achasse merecedora.

- Caramba Enid, tem muita coisa aqui, obrigada, adorei a flor.

- Por nada, não queria que fosse para casa sem comer. Ah, eu não tenho um jardim como seu para pegar uma flor, essa ai tem que servir.

  Só agora se dava conta de como estava faminta, faziam quase 24 horas que não comia nada substancial, devorou quase tudo que a outra levou.

  Achou estranho o silêncio de Enid. Não que esperasse que a outra tagarelasse sem parar as 5 da manhã, mas ao menos algum comentário poderia fazer, o problema é que ela ficava só olhando com aquela cara séria, sem nem ao menos um sorriso. Será que tinha se arrependido de ajudar? Ficou apreensiva. Tentou se levantar, mas o corpo todo doeu e uma tontura forte fez a cabeça rodar.

- Wednesday, o que foi? Você está bem?

- Foi só uma tontura.

- Levanta devagar, ainda está cedo.

  Fez Wednesday encostar na cabeceira da cama. E então perguntou.

- Vai me contar o que aconteceu para você sair de casa assim?

  Não sabia o que dizer, tinha vergonha de dizer a verdade e sentia se mal em mentir. Resolveu seguir um ditado que sua mãe sempre dizia: "na falta de não saber o que dizer, diga sempre a verdade."

- Meu marido não é a pessoa tão boa que todos na igreja pensam. Quando chegou em casa e não viu a jantar pronto, se irritou, tentei argumentar e ele me colocou para dormir fora de casa. Por isso eu estava na praça, por isso não podia voltar para casa e ainda me proibiu de pedir ajuda.

- E ele bateu em você.

  Não foi uma pergunta e sim uma afirmação. Enid tocou o canto da boca onde Tyler havia batido.

- Por que você aguenta isso tudo? Por que não denuncia ele para a policia? Por que não larga desse animal de uma vez?

  Ela já havia se feito essa pergunta um monte de vezes e a resposta era sempre a mesma.

- Porque não tenho para onde ir. Minha família não me aceitaria, não tenho emprego e como não estudei até me formar, seria bem difícil conseguir algo. Eu dependo dele.

- Que droga Wednesday, você tem a mim. Eu cuido de você, não tem que voltar para lá.

  Era tentador, muito tentador, mas não era a solução certa nesse momento, e talvez nunca seria. O que Tyler faria com Enid se soubesse que Wednesday havia largado ele para ficar com ela. Tinha medo de Tyler, às vezes ele parecia um psicopata. Também tinha mais coisas envolvidas.

- Eu não posso. Eu sairia de uma relação onde dependo dele e entraria em uma onde dependeria de você.

Enid olhou ofendida para Wednesday.

- Eu não sou como ele, nunca te machucaria.

- Não disse isso, mas e se um dia você cansasse de mim? O que eu faria? Ficaria comigo por pena? Eu não ia suportar isso, seria pior que as torturas de Tyler. Preciso arrumar um jeito de me sustentar e existe a igreja, você pode até não entender, mas foi a igreja, a fé que manteve a minha sanidade esses anos todos casada com aquele monstro. Preciso arrumar um jeito de tirar ele da igreja, de mostrar a todos que ele não merece estar ali.

  O que mais poderia dizer? Não era mais uma adolescente que pularia a janela de casa para fugir do pai carrasco, era uma mulher e media cada ato e suas consequências, inclusive pensando na segurança de Enid.

- Eu não quero que nada de ruim te aconteça. Enid. Agora eu realmente preciso ir.

  A outra não disse mais nada, mas percebia pelo olhar, que estava triste. Tudo que Wednesday sentia por ela veio a tona de uma vez, carinho, amor, amizade, paixão, medo. Levantou com cuidado e se dirigiu até a porta para ir embora. Enid se mantinha de costas para ela. Então Wednesday voltou, abraçou a outra pelas costas, encostou a cabeça no ombro e depois fez ela se virar ficando de frente. Viu as lágrimas que teimavam em cair dos olhos de Enid e por mais que ela tentasse segurar, seus olhos também se encheram d'agua. Deu um abraço forte e por fim um beijo de leve. Sussurrou no ouvido de Enid:

- Eu amo você, para sempre!

     E então foi embora, para enfrentar mais um dia terrível. Mas levou duas coisas consigo: a flor desenhada e o sabor do beijo de Enid misturado as lágrimas.

A Mulher do Pastor- WenclairOnde histórias criam vida. Descubra agora