ACORDO?!

12 1 0
                                        

Dylan não estava em um bom dia. Primeiro, sua missão dera errado, algo que nunca havia ocorrido antes. Segundo, ele foi salvo por Rodrigo - uma situação igualmente incomum em sua vida. E, por último, o mais perturbador de tudo: no fundo, ele sabia que Rodrigo era muito melhor que Bob.

Ele se perdeu nesses pensamentos, remoendo cada detalhe dos eventos recentes, até ser abruptamente arrancado deles.

- Moço! Chegamos - anunciou o motorista do táxi, olhando-o pelo retrovisor.

Dylan piscou algumas vezes antes de se dar conta de onde estava. Sem dizer nada, pegou o dinheiro e pagou a corrida. Ao sair, fechou a porta do carro com mais força do que o necessário, fazendo o motorista lançar um olhar irritado antes de partir. Mas Dylan nem percebeu.

Caminhou até o elevador do prédio e pressionou o botão com um pouco mais de força do que deveria. Quando as portas se fecharam, ele soltou um longo suspiro e, só então, notou o ferimento em sua testa. Passou a ponta dos dedos pelo local, sentindo a ardência. A raiva dentro dele se intensificou. Como ele poderia ter errado em uma missão? Justo ele? Isso poderia manchar sua reputação.

Seus olhos se voltaram para o espelho dentro do elevador, e a fúria tomou conta. Sem pensar duas vezes, desferiu um soco contra o reflexo, que se estilhaçou imediatamente. O impacto fez sua mão arder, mas a dor física era insignificante comparada à frustração que o consumia. Agora, além de tudo, teria que pagar pelo conserto.

Quando o elevador chegou ao seu andar, Dylan saiu sem pressa. O caminho até seu apartamento parecia mais longo do que o normal. Assim que entrou, jogou a bolsa no sofá de qualquer jeito e seguiu direto para a cozinha. Abriu a torneira e colocou a mão ferida sob a água fria, observando o sangue se misturar ao líquido transparente.

"Que droga", pensou.

Pegou um pano qualquer e enrolou na mão, apertando com força. Mas, antes que pudesse respirar fundo e tentar se recompor, a campainha tocou. Seu corpo ficou tenso imediatamente.

Ninguém além de Logan tinha a chave, e eles não costumavam receber visitas.

Dylan se moveu rapidamente, voltando até a sala. Parou ao lado do sofá e, sem fazer barulho, puxou a arma de sua bolsa. Descalçou os sapatos para evitar qualquer som e caminhou em direção à porta com cautela.

Girou a maçaneta e abriu apenas o suficiente para espiar quem era.

Do outro lado, uma mulher ergueu uma sobrancelha, divertindo-se com o fato de Dylan estar armado.

- Normalmente, eu recebo um aperto de mão - disse ela, sorrindo enquanto empurrava a porta e entrava sem sequer pedir permissão.

Dylan permaneceu parado por um momento, observando-a. A ousadia dela o irritava, mas ele não podia negar que ela era bonita.

Charlie usava um salto rosa que combinava perfeitamente com a blusa da mesma cor. A calça jeans preta realçava sua silhueta esguia. Ela caminhou pela sala como se já conhecesse o ambiente e se jogou confortavelmente no sofá, esticando os braços e suspirando de satisfação.

- O que você está fazendo aqui? - questionou Dylan, fechando a porta e guardando a arma na bolsa.

Charlie lançou um olhar brincalhão para ele, sem se incomodar com a falta de cortesia. Pelo contrário, achava esse jeito dele... interessante.

- Olá, sou a Charlie. Obrigada por perguntar - respondeu, sem demonstrar qualquer sinal de ofensa. Depois, ergueu a mão como se incentivasse que ele fizesse o mesmo. - E você é...?

Dylan hesitou, mas por fim estendeu a mão, um pouco relutante.

- Dylan.

- Bom, achei que vocês eram dois - comentou Charlie, inclinando a cabeça de leve.

- Logan. Ele está na aula agora - explicou ele, voltando a calçar os sapatos.

Charlie analisou o rosto dele e logo notou os machucados.

- O que aconteceu com você?

- Uma missão - disse ele, sem ânimo.

- Vocês não trabalham juntos?

- Deveríamos, mas seu pai quis assim.

Charlie soltou um riso baixo. Não era surpresa alguma que Bob tivesse feito algo do tipo.

- Espera um pouco - disse ela de repente, levantando-se.

Dylan acompanhou seu movimento com os olhos, franzindo a testa ao vê-la sair da sala e seguir até a cozinha sem qualquer cerimônia.

Por um segundo, ele cogitou se levantar e perguntar o que ela pensava que estava fazendo. Mas estava cansado demais para isso. Então, apenas recostou-se no sofá, esperando.

Charlie retornou com um pano molhado nas mãos e se sentou ao lado dele.

- E isso é para...? - perguntou Dylan, a encarando sem muita paciência.

- Para a sua cabeça. Você não se cuida, não? Como você ainda está vivo? - disse ela, sem esperar resposta e pressionando o pano contra o ferimento na testa dele.

Ele fez uma careta, mas não recuou. Apenas aceitou o cuidado silencioso.

Charlie aproveitou o momento para observá-lo melhor. Apesar do jeito sempre zangado, Dylan tinha traços bonitos, até delicados em certos ângulos.

Mas não era isso que a trouxe ali.

- Por que está aqui? - questionou ele, como se lesse seus pensamentos. Além disso, era esperto o suficiente para saber que ela queria algo.

Charlie se inclinou um pouco para trás, cruzando as pernas.

- No começo, meu intuito era apenas ajudar meu irmão.

Dylan arqueou uma sobrancelha.

- O Steve? Ele voltou?

- Mas parece que tenho outra prioridade agora.

Ela largou o pano na mesa e o encarou.

- O que seria? - Ele finalmente parecia interessado na conversa.

- Quero ajudar o filho de Rodrigo.

Dylan franziu o cenho, claramente pego de surpresa. Se ajeitou melhor no sofá, tentando entender a proposta.

- Olha, eu também prometi procurá-lo, mas...

Charlie ergueu a mão, interrompendo-o. Seu olhar brilhava com animação.

Ela se levantou e caminhou até a porta, como se já estivesse decidida. Dylan apenas a observou, sentindo que, de alguma forma, estava prestes a ser envolvido em algo muito maior.

Charlie abriu a porta e se virou para ele uma última vez.

- Quero a ajuda dos Duplos nisso.

E, antes que ele pudesse reagir, ela saiu, fechando a porta atrás de si.

Dylan ficou sentado, piscando algumas vezes, tentando processar o que acabara de acontecer.

Como ele tinha deixado que ela decidisse tudo tão rápido?

INVERTIDOSOnde histórias criam vida. Descubra agora