A porta do quarto rangeu como um lamento antigo quando Charlie a empurrou. O som cortou o silêncio denso da casa, rompendo a ilusão de calma que ela tanto desejava encontrar ali. Exausta, deixou-se cair sobre a cama, afundando no colchão como se seu corpo carregasse mais peso do que deveria para alguém da sua idade. Acima dela, o teto coalhado de estrelas fosforescentes brilhava fracamente, testemunhas mudas de tantas noites mal dormidas.
Mas, naquela noite, nem mesmo as estrelas pareciam capazes de reconfortá-la.
O rosto de Dylan surgia e ressurgia em sua mente em intervalos irregulares. Ele era diferente do que ela imaginara; havia nele algo genuíno, uma luz que sobrevivia apesar das circunstâncias sombrias ao redor. Por mais que tentasse negar, fazia sentido para ela se aliar a ele. Era como se o destino insistisse em empurrá-los para um mesmo caminho.
Ainda assim, nada disso apagava sua angústia mais urgente.
Somente então ela percebeu - Steve não voltara para casa. E a constatação, tão simples, lhe atravessou o peito como uma adaga. Ele sempre avisava, sempre dava um sinal. Sempre.
Mas naquela noite, nada.
O silêncio sobre o paradeiro do irmão a perturbava de forma quase física.
Com um movimento brusco, Charlie se levantou. Ainda vestia a roupa de sair, amarrotada e carregando o cheiro das ruas. Desceu as escadas com passos rápidos, guiada por uma inquietação crescente. Na cozinha, encontrou uma cena que destoava completamente do caos que ela sentia: a mãe, sentada à mesa, ria baixinho enquanto conversava com a empregada que mexia uma panela no fogão.
Por um instante, a normalidade daquela imagem pareceu cruel. Era como se o mundo seguisse normalmente enquanto o dela se partia.
A mãe separava feijões com paciência quase cerimonial, colocando-os um por um numa bacia. Mas, ao ver Charlie, seu sorriso murchou imediatamente. Com um gesto suave, chamou-a para sentar ao seu lado.
Charlie obedeceu, mas antes disso a abraçou, buscando um conforto que mal lembrava como era sentir.
- Mãe... o Steve não vem dormir em casa? - perguntou com a voz frágil, já suspeitando da resposta.
- Não - murmurou a mãe, e a tristeza que ela carregava fez o estômago de Charlie afundar.
O medo começou a pulsar nos ossos da garota.
- Mãe... o que está acontecendo?
Mas antes que a mãe respondesse, uma voz áspera cortou o ar:
- Por que não deixa sua mãe em paz?!
Charlie virou-se rapidamente. O pai estava à porta, irradiando impaciência. A presença dele sempre parecia carregar a sala inteira para dentro de uma tempestade.
Mas ela não se abateu. Não mais.
A mãe se levantou, aflita, mas Charlie ergueu a mão para acalmá-la.
- Está tudo bem, mãe.
Ela caminhou em direção ao escritório, sabendo exatamente que o pai viria atrás. Sentou-se na poltrona com as pernas balançando nervosamente, aguardando. Quando Bob entrou, o ar pareceu mudar de peso.
- Steve está ocupado - disse ele, jogando-se na cadeira de frente.
- O que você o convenceu a fazer? Quero vê-lo. Agora. - A voz de Charlie era firme, mesmo tremendo por dentro.
Bob revirou os olhos num gesto repulsivo.
- Sempre pensando o pior de mim. Não sou obrigado a saber onde ele está o tempo todo.
Charlie inclinou-se para a frente, os olhos faiscando.
- Não tente me enganar. Eu conheço você. O que está planejando fazer com o Rodrigo?
O nome de Rodrigo pairou na sala como uma acusação direta.
Bob explodiu.
- Chega! Saia da minha sala! - Ele bateu a mão sobre a mesa com tanta força que os papéis tremeram.
Charlie se levantou sem olhar para trás, os passos ressoando pelo corredor. Assim que fechou a porta, o controle escorreu pelos seus dedos. Ela deslizou até o chão, os joelhos cedendo, e as lágrimas finalmente romperam sua resistência.
Seu pai não mudara. Nunca mudaria.
Desde a infância, ela assistia Steve sendo moldado como se fosse uma peça de xadrez - um soldado preparado para cumprir um papel sombrio que agora, enfim, se revelava. Bob sempre tivera planos. E Steve sempre fora a ferramenta perfeita.
Charlie cobriu o rosto com as mãos, tentando respirar. Mas então ouviu.
A voz grave do pai, abafada pelo painel da porta, mas perfeitamente audível.
- Steve, preciso que agilize. Vamos ter que começar antes do esperado.
O coração dela parou por um segundo. Depois correu, desesperado.
Charlie aproximou-se, encostando o ouvido na porta para entender melhor.
- Você sabe para quê - disse Bob. - Ele vai matar o Rodrigo por nós.
O mundo inteiro pareceu desabar em um único instante.
Charlie recuou, sentindo a vertigem tomar conta. O nome de Rodrigo ainda ecoava nos seus ouvidos quando o ar faltou. Ela apoiou a mão na parede, tentando conter o tremor. A dor não era apenas medo - era a constatação cruel de que seu irmão estava prestes a ser arrastado para uma escuridão da qual talvez nunca pudesse voltar.
Steve seria o assassino. Rodrigo seria a vítima. E Bob seria o maestro da tragédia.
Charlie fechou os olhos, respirando fundo.
Ela não permitiria.
Seu coração batia rápido, cada pulsação carregando sua determinação como um grito silencioso. Era sua missão impedir a morte de Rodrigo. E mais do que isso - impedir que Steve cruzasse uma linha sem retorno.
A noite parecia mais escura do que nunca, mas Charlie sabia que só havia uma escolha:
agir.
Antes que fosse tarde.
Antes que sangue fosse derramado.
Antes que o destino fosse escrito por mãos que não a dela.
E, naquele momento, mesmo com o medo queimando em suas entranhas, ela se transformou na única luz em meio ao caos.
A única capaz de impedir a queda.
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INVERTIDOS
Science FictionINVERTIDOS narra a história de Rodrigo, um agente do FBI que, para proteger sua esposa e filho, foi obrigado a se afastar deles devido à ameaça de Bob, um inimigo infiltrado na agência. Anos depois, Rodrigo contrata Tyler, um jovem que se parece mui...
