CHARLIE

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Ser dono de uma agência tinha seus privilégios; assim pensava Bob, que se sentia temido, forte e poderoso. Sem falar na fama que conquistara e no luxo que sustentava sua boa vida.
Contudo, havia a família. De Chase, sua esposa, ele não tinha do que reclamar; ela passava a maior parte do tempo em casa e preferia dedicar-se à costura. Já seu filho, Steve, cumpria seu papel e lhe era fiel. Mas Charlie, sua filha, decidira ser a ovelha negra da família. Ela havia viajado pelo mundo, recusando-se a aceitar o estilo de vida do pai.

Essa atitude de Charlie o incomodava profundamente. Bob já tinha preocupações suficientes como mentor de inúmeros jovens da agência e sentia que não tinha tempo nem paciência para lidar com a rebeldia de uma garota de 18 anos.

- Que horas ela chega? - perguntou Bob ao funcionário parado na porta do escritório da agência.
Bob afagou as têmporas e recostou-se em sua poltrona, enquanto ouvia ao longe o som dos alunos treinando golpes de karatê na sala ao lado.

- A qualquer momento, senhor - respondeu o funcionário, verificando na prancheta os horários dos voos.
- Ela disse por que está voltando? - A impaciência era evidente na voz de Bob, enquanto tamborilava os dedos sobre a mesa.
- Não, senhor.

Bob ignorou a resposta, posicionando os braços sobre a mesa.
- Avise Chase que nossa filha chega hoje e providencie a limpeza do quarto dela.

O funcionário assentiu e saiu do escritório, fechando a porta atrás de si.
Bob respirou fundo, cansado. Decidiu sair da agência e passar em casa.

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Do outro lado da cidade

- Não se preocupe, irmão. Já estou embarcada e logo estarei em casa - disse Charlie ao telefone, tranquilizando Steve.
Ela carregava a mala enquanto o salto alto cor-de-rosa apertava seus pés. Ao avistar um táxi, fez sinal para o motorista, que rapidamente recolheu sua bagagem.

- Para onde deseja ir, senhora? - perguntou o motorista, espiando pelo retrovisor. Charlie notou que ele era tão magro que parecia pequeno no banco dianteiro.
- A este endereço, por favor - respondeu, entregando-lhe um pedaço de papel.

Enquanto o táxi ganhava as ruas, Charlie recostou-se no banco e ajeitou a jaqueta de couro. Seus olhos azuis se fixaram na janela, admirando a saudosa Nova York. Apesar de sua infância marcada por árduos treinos de luta, ela sentia falta dos piqueniques no Central Park, quando sua mãe preparava sanduíches de geleia e Steve corria pelo gramado com suas pernas curtas.

O sorriso que brotou em seus lábios desapareceu ao lembrar-se da ausência constante do pai nesses momentos.

- Chegamos, senhora.

Charlie pagou ao motorista e desceu do táxi. Ao avistar a casa da família, respirou fundo, perguntando-se se valia mesmo a pena retornar. Contudo, precisava descobrir o que estava acontecendo com Steve e se isso tinha alguma ligação com seu pai.

Ela tocou a campainha, e Chase abriu a porta. Usava um avental com desenhos de uvas, o que denunciava que, mais uma vez, dispensara a empregada para cozinhar sozinha.

- Mãe, a senhora nunca vai deixar de amar a cozinha, não é? - disse Charlie, tirando os óculos escuros e revelando os olhos brilhantes.
- Filha! Finalmente! - Chase abraçou-a e puxou-a para dentro.

- Papai está em casa? - perguntou Charlie, enquanto observava o ambiente familiar e seguia a mãe até a sala.
- Está a caminho, mas soube que você viria - respondeu Chase, com um sorriso de satisfação.

Charlie sentou-se no sofá, mas sua expressão logo ficou séria.
- Preciso saber... Onde está o Steve?

Chase desviou o olhar, encarando o chão por um momento.
- Seu irmão está trabalhando.

Chase levantou-se rapidamente, indicando que voltaria à cozinha, mas Charlie insistiu:
- Mãe! Estou preocupada com ele. Tenho certeza de que papai está por trás disso.

Chase parou, fitou a filha como se quisesse dizer algo, mas então forçou um sorriso.
- Está tudo bem, querida. Logo você verá seu irmão.

Ela tocou o rosto de Charlie num gesto de consolo, mas a jovem sentiu que algo estava errado.

- Mãe, eu vou descobrir o que papai está fazendo com ele...

Antes que pudesse terminar, a porta se abriu, revelando Bob, que entrou sorrindo. Ele abraçou Charlie, mas ela não correspondeu.

- Temos que conversar - disse Charlie, encarando-o com firmeza.
- Tem razão, querida - respondeu Bob com um sorriso sarcástico. - Temos muito o que conversar... sobre você voltar para atrapalhar os meus planos.

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