QUAL DOS DOIS?

10 1 0
                                        

A casa de Rodrigo sempre fora sinônimo de paz.
Era ali que ele imaginava envelhecer, ouvindo a esposa cantarolar pela cozinha enquanto o bebê dormia sobre seu peito. Um refúgio que deveria aquecer. Acolher. Proteger.
Mas agora aquele lugar parecia outro.
Um espaço vazio, onde cada canto trazia uma lembrança dolorosa demais para ser tocada.
Depois de salvar Dylan - e depois de vê-lo recusar ajuda com a mesma teimosia que Rodrigo reconhecia em si mesmo - ele se jogou na própria cama, exausto. Mas descansar era impossível. A pergunta que o perseguia há anos batia no peito com força renovada:
Qual dos dois era seu filho?
E onde, afinal, estava sua esposa?
A porta rangiu suavemente. Lucy entrou sem cerimônia, como sempre fazia quando percebia que ele estava prestes a desmoronar.
- Rodrigo... me diga. Como foi hoje? - perguntou ela, com a voz baixa, cuidadosa, mas firme. Lucy sempre fora assim: doçura e coragem na mesma medida.
Ela estivera com ele no pior dia da vida dele - o dia em que a esposa desaparecera com o bebê - e ficara desde então. Era a única pessoa que Rodrigo ainda conseguia deixar entrar.
Ele passou a mão no rosto, tentando organizar pensamentos que se atropelavam.
- Foi... perturbador. - A palavra saiu quase num sussurro. - Não consigo distinguir qual deles é o meu filho. E hoje, Lucy... hoje eu vi um deles apanhar e recusar minha ajuda. É como se eu estivesse completamente perdido.
Lucy se sentou ao lado dele, com aquela postura de mãe que cuida sem invadir.
- Nós dois sabíamos que não seria fácil, disse ela com serenidade. - Você esperou tantos anos... nenhuma verdade chega suave depois de tanta espera.
Rodrigo soltou um riso cansado, quase irônico.
- Eu só queria acabar com isso. Só queria ter minha família de volta. Só isso.
Lucy apertou a mão dele com força e uma determinação que contrastava com o semblante amável.
- Eu ainda lembro do rosto do seu filho, Rodrigo. Nítido. Eu seria capaz de reconhecê-lo até no meio de uma multidão. Traga os dois até aqui... e eu direi qual deles é.
Rodrigo abaixou a cabeça, deixando escapar um sorriso fraco.
- Trazer Tyler será fácil. Mas Dylan... ele nunca viria. Não confia em mim nem por um segundo.
Lucy arqueou as sobrancelhas, como quem observa um filho esperando que ele acorde para o óbvio.
- Então tome outro caminho. Pegue um fio de cabelo dele. Ou tire uma foto, uma boa foto. Mas faça isso logo, Rodrigo.
- A voz dela soou um pouco mais dura. - Você está sendo lento demais.
Ele ergueu o rosto, ofendido e surpreso ao mesmo tempo.
- Lento? Por que diz isso?
Lucy se inclinou para frente, escolhendo as palavras como quem escolhe uma faca precisa.
- Porque se o seu filho for o Tyler, a situação é simples. Mas se for o Dylan... então Bob já sabe. E se Bob sabe, ele já pôs as mãos no que não lhe pertence. No seu filho.
A frase perfurou Rodrigo como uma lâmina fria. Ele respirou fundo, tentando disfarçar o pânico que o atingiu. Mas seus olhos tremiam.
- O que você acha que ele está planejando? - perguntou, mesmo sabendo que talvez não houvesse resposta.
- Eu não sei - admitiu Lucy. - Mas por tudo o que já vimos de Bob, torça para que seja Tyler. Pelo bem do garoto que for seu filho... e pelo seu também.
Rodrigo fechou os olhos com força.
- Se minha esposa estivesse aqui, tudo seria mais claro. Ela saberia na mesma hora. Ela sempre soube de tudo.
Lucy assentiu, com uma tristeza compartilhada.
- Seria. Mas agora é você quem tem que decidir o próximo passo.
Ele respirou fundo.
- E... o que eu devo fazer?
- Primeiro - disse ela, levantando-se - traga o Tyler aqui. Isso dará início a tudo.
Lucy saiu do quarto e, assim que a porta se fechou, Rodrigo tomou o celular com mãos trêmulas.
Caio atendeu imediatamente, ofegante.
- Rodrigo! Que bom que você ligou. Eu estava prestes a te chamar.
- Aconteceu alguma coisa?
- Tyler. Um dos nossos seguranças viu ele batendo em dois jovens em uma lanchonete. Parece que a situação ficou séria.
Rodrigo arregalou os olhos, sentando-se outra vez na cama.
- Ele... brigou? Por quê?
- Não sabemos. Só sabemos que os dois jovens também tinham... digamos... personalidade forte. Foi um caos.
Rodrigo recostou-se no colchão, encarando o teto como se procurasse respostas escritas ali.
- Amanhã temos algo importante para fazer, continuou Caio, folheando alguns papéis. - E não podemos adiar.
- O que exatamente?
- Lucy precisa ver o Tyler. E o quanto antes.
- Uma foto serve? - Caio sugeriu.
- Não. Quero ele aqui. Pessoalmente. Estamos ficando sem tempo.
Rodrigo desligou, sentindo o peso de uma decisão definitiva cair sobre seus ombros.
Amanhã seria o dia.
O dia em que ele colocaria dois mundos para colidir.
O dia em que a verdade finalmente mostraria seu rosto.
E ele temia - mais do que admitia - que a verdade pudesse destruí-lo.

INVERTIDOSOnde histórias criam vida. Descubra agora