Capitulo 58

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09:46 da manhã — Área externa da casa

O sol da manhã batia no quintal dos fundos. A grama crescida balançava com o vento leve, e o cheiro de café recém-passado se misturava ao som das gargalhadas dos filhos correndo com brinquedos na mão.

Ela estava sentada em uma cadeira de vime, ao lado o Miguel em seu carrinho dormindo, Lívia, com os pés descalços apoiados num banquinho, rindo das bobeiras dos pequenos. Enzo e Eloá. Os dois tinham os olhos do pai e a energia infinita.

Ele, de camiseta branca e bermuda escura, observava tudo de pé, encostado no batente da porta com uma xícara de café quente na mão. O rosto calmo, mas os olhos... os olhos estavam atentos.

Lívia (olhando pra ele, sorrindo):
— Se tu olhar mais assim, vai assustar as crianças.

Moreno (sorri de lado):
— Só tô olhando. Tem coisa que a gente guarda na retina, né?
Esse momento é uma dessas coisas.

Ela se levanta e vai até ele, encostando de leve no peito dele com a cabeça.

Lívia:
— Tá com aquele olhar de quem viu coisa.
Vai guardar só na retina... ou vai me contar?

Ele hesita por um segundo, passa o braço pela cintura dela, mantendo o tom calmo.

Moreno:
— Ontem à noite, quando eu o Miguel acordou e eu fui ficar com ele, fui dar uma olhada nas câmeras...E vi um cara entrando na casa da dona Maria.

Lívia (levantando a cabeça):
— E?

Moreno:
— Ninguém entra ali depois das oito. Nem entregador. Ela é viúva e os filhos não são daqui.
E ela tava com a luz apagada.

Lívia:
— Tu acha que era recado?

Moreno:
— Não sei. Mas aquele homem não é do morro. E tava olhando pra cá, como quem mede a distância.

Silêncio.

Lívia:
— Quer que eu tire as crianças daqui por uns dias?

Moreno:
— Ainda não.
Mas se eu disser pra correr... tu corre com eles. Sem olhar pra trás.

Lívia:
— e você?

Moreno encara ela sério e ela apenas assentiu entendendo.

Logo depois, um grito infantil interrompeu a conversa.

Enzo:
— Pai! Vem ver, eu consegui girar o peão igual você ensinou!

Ele sorriu. O sorriso verdadeiro. Caminhou até o filho e se agachou ao lado dele, pegando o brinquedo.

Moreno:
— Deixa eu te mostrar o jeito certo... o jeito que ganha toda vez.

Ela, de longe, observava os três juntos. E mesmo com o pressentimento ali no ar, ela sabia: enquanto aquele homem estivesse ali, ninguém tocava na paz deles sem pagar caro por isso.

Mas ela também sabia que, se o passado bateu à porta da dona Maria, logo viria bater na deles.

21:19 — Rua de baixo, próximo à casa da dona Maria

A noite caiu sem pressa. A rua estava quieta, como sempre fica quando o morro segura a respiração. Só o barulho da televisão da dona Maria escapava pelas janelas — novela antiga, volume alto, como se aquilo escondesse alguma coisa.

Ele estava parado do outro lado da rua, encostado num carro velho, capuz cobrindo metade do rosto. O Gt estava ao lado, balão aceso.

Gt:
— Tu tem certeza que era ele?

Moreno:
— Certeza não.
Mas a maneira que ele olhou... quem conhece o campo, sente o caçador.

Gt:
— Quer que a gente entre agora?

Moreno (calmo):
— Não. Hoje é só olhar.
A dona Maria merece isso.

Silêncio.

Gt (dá um trago):
— Acha que ela tá com medo?

Moreno:
— Se ela tivesse com medo... não teria deixado ele entrar.

Enquanto observavam, a porta da casa se abriu discretamente. Um homem saiu devagar, de boné, mochila nas costas. Caminhava como quem já sabia onde estava — e como sair sem ser notado.

Moreno (frio):
— Aí tá ele.
Filma sem flash. Só pra registrar o passo.

O gt sacou o celular e gravou. O homem caminhou até o fim da rua e virou à esquerda, sumindo nas sombras. Nenhum olhar pra trás.

Moreno:
— Esse cara conhece o morro.
Não tá perdido. Tá de missão.

Ele guardou o celular e ajeitou o capuz. Respirou fundo. O rádio no bolso apitou:

Voz no rádio:
— Tudo limpo no setor 2. Sem movimento estranho até agora.

Moreno (respondendo):
— Mantenham. Mas deixem um no alto da torre. Quero visão de cima até o primeiro galo cantar.

Mais tarde, de volta em casa

Ela estava na sala, os dois filhos dormindo no quarto. O som da máquina de lavar quebrava o silêncio. Ele entrou e tirou o capuz.

Lívia (olhando pra ele):
— Saiu pra quê essa hora?

Moreno (sorrindo de lado):
— Só fui ver a noite respirar.
Tá pesada. Mas ainda tá nossa.

Lívia (sem insistir):
— Fiz chá. Tá quente.

Ele se sentou ao lado dela, tomou o copo devagar, os olhos fixos na janela. Ela encostou a cabeça no ombro dele. Por um segundo, o mundo parou.

Mas na mente dele... o rosto do homem continuava ali.
E uma certeza crescia:
aquele cara não apareceu ali por acaso.

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Estou tendo uma ajuda então os eps vão sair com mais frequência, bjs

Dono do Morro.Onde histórias criam vida. Descubra agora