A rua era úmida, cheirando a ferrugem e sal. Eu estacionei o carro duas quadras antes e fui a pé, pisando firme, sem pressa. A mochila agora vazia, só com um celular queimado, uma carteira com um documento falso e a arma na cintura.
O portão do galpão estava entreaberto. Luz fraca lá dentro. Nenhum som. Nenhum movimento.
Eu empurrei o portão devagar. Ele rangeu alto — de propósito. Eu queria que soubessem que cheguei.
Lá dentro, apenas uma cadeira no centro e uma figura sentada nela. Escuro demais pra ver o rosto, mas o terno cinza claro parecia quase branco no breu.
Xx: Achei que tu ia mandar recado.
Lívia: Eu não mando ninguém onde só eu sei sair viva.
Xx: você parece com ele.
Eu não respondi. Me aproximei dois passos.
Lívia: Então fala. Tu tá ameaçando criança por quê? Não conseguiu chegar no Moreno ainda?
Xx: Eu só aponto o dedo. Quem aperta o gatilho... mora aí contigo.
Eu franzi o cenho. Um segundo de silêncio. E então entendeu.
Lívia: você quer que eu desconfie dele. Tu quer que eu quebre por dentro.
Lívia: Quero que tu acorde. O problema nunca foi quem tava fora da tua casa.
Lívia: olha só, se o moreno estiver errado nós dois estamos errados, se ele quiser te matar, eu também quero, o moreno não faz nada por acaso, sempre tem um motivo. E quem é você aliás?
O homem levantou devagar. Agora mais visível. Era mais velho do que ela esperava. A barba bem-feita, cabelo grisalho, mas os olhos... vivos. De predador.
Xx: Sou o motivo do teu marido dormir pouco.
Sou o nome que ele engole sempre que tu pergunta "tá tudo bem?".
Lívia: Medeiros?
Xx: Pra ti, pode chamar de dívida.
Lívia: Então vamos fazer diferente. Tu me dá o nome verdadeiro. E eu dou pra ele a chance de pagar com o que tu quer.
Xx: Eu quero ele, Ou o que ele ama.
Eu tirei a arma da cintura, sem levantar. Só deixou à mostra.
Lívia: Então vamos ver quem atira primeiro.
Digo fria.
Silêncio Longo e Tenso.
O homem riu. Devagar, com gosto.
Xx: Teu marido escolheu bem. Mas ele não te merece.
Ele voltou a sentar. Tirou um cartão do bolso do paletó e jogou no chão.
Xx: A próxima vez não vai ser conversa.
Peguei o cartão e tinha nele um endereço.
Sem dizer nada, virou as costas e saiu.
⸻
23:29 — Carro, a caminho de casa
O celular vibrava no banco do passageiro.
Chamadas perdidas. Quatro. Todas do moreno.
Na quinta, eu atendi.
Lívia: Fala.
Moreno: Onde tu tá?
Seu tom era de alívio e preocupação. O barulho da moto de fundo.
Lívia: Indo pra casa. Mas antes, me diz uma coisa.
Moreno: O quê?
Lívia: Quem é você quando eu não tô olhando?
Silêncio. Depois, ele desligou.
E isso disse mais do que qualquer resposta.
A chave girou devagar. Eu entrei, fechando a porta com cuidado. A luz da sala estava acesa. O moreno sentado no sofá, cotovelos apoiados nos joelhos, celular na mão. Ele levantou assim que me viu.
Moreno: Eu te liguei. Tu podia ter morrido.
Larguei a bolsa no chão, sem pressa.
Livia: você não respondeu a minha pergunta.
Ele caminhou até mim, tentou tocar o meu braço. Eu recuei meio passo.
Livia: Eu encontrei com ele.
Um tom baixo o firme saiu pela minha boca.
Ele congelou. Eu vi os olhos. A contração do rosto, o susto que não conseguiu esconder.
Lívia: Medeiros.
Moreno: Ele tá vivo?
Lívia: Tá. E bem alimentado.Com o medo que tu deixou aqui dentro, enquanto fingia que "tava cuidando".
Ele passou a mão no rosto, virou de costas, andou pela sala.
Lívia: Ele quer uma coisa.
Moreno: Eu sei o que ele quer.
Lívia: E o que tu vai dar?
Silêncio. Ele não respondeu.
Lívia: Fala. Agora. O que tu fez? O que tu assinou que botou nome dos nossos filhos no contrato?
Ele parou. Voltou o rosto pra ela. Os olhos vermelhos.
Moreno: Eu dei nome de gente morta pra salvar quem tava vivo. Usei documento, limpei dinheiro, guardei caixa de arma sem saber pra onde ia. E quando vi... o chão já tinha sumido.
Eu só tentei manter o teto em pé.
Eu me aproximei firme.
Lívia: E tu acha que isso me poupa? Acha que quando a bala vier, ela vai perguntar se eu sabia?
Digo com raiva mas um tom irônico.
Moreno: Eu achei que dava pra resolver antes.
Lívia: Tu teve anos. E agora... ele quer tu. Ou quem você ama.
Silêncio.
Lívia: Ele me deu um endereço. Mas eu não vou sozinha.
Moreno: Tu quer me entregar?
Lívia: tá maluco?! Você ainda não entendeu? Eu sou sua mulher, não importa o que você fez ou deixou de fazer, eu sou sua mulher, eu vou ficar do seu lado em qualquer situação, eu não vou te deixar sozinho nunca! Vamos enfrentar isso juntos e vamos sair vivos.
Ele se aproximou. Mais perto do que antes.
Moreno: se não voltar?
Lívia: vamos voltar com o nome dele na ponta da faca.
Digo confiante.
Ele abaixou a cabeça. Respirou fundo.
Moreno: é as crianças?
Lívia: Dormindo. Mas se tu não decidir agora... vão acordar sem pai.
⸻
00:17 — Quarto
O moreno vestiu um casaco e por baixo desse casaco estava de colete. Pegou o celular, a carteira, a chave. Quando foi sair, eu entreguei a arma pra ele.
Lívia: Agora a gente tá na mesma página.
Ele olhou pra ela com culpa, com amor, com medo, Tudo misturado.
Lívia: Só me promete uma coisa.
Moreno: Fala.
Lívia: Não me deixa criar nossos filhos sozinha.
Moreno: eu não vou.
Eles saíram juntos.
Pra guerra que um dia prometeram evitar.
______________________________
Foi isso bebês, eu espero que tenham gostado, bjs
VOCÊ ESTÁ LENDO
Dono do Morro.
Fanfictionapós um desentendimento com sua mãe, Lívia resolve sair de casa e a mãe apoia ela dizendo que é o melhor a se fazer mesmo, então Lívia sai de sua casa e vai morar em um morro, mal sabe ela que lá irá mudar sua vida completamente.
