Amizade rival

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Lívia On

1 semana depois

Eu nunca fui de confiar em mulher de bandido.
Mas quando o Moreno me olhou naquele dia, com aquele jeito dele de quem sabe o peso que carrega, eu entendi que não era questão de escolha. Era questão de sobrevivência.

Moreno: Ela vai casar em um mês.

ele disse, mexendo no rádio, os olhos duros.

Moreno: E cês duas vão virar amiga. Nem que seja na marra.

A mulher do Nego Tavares — o dono do morro rival — chamava Karol. Bonita, cheia de pose de madame, dessas que acham que tão acima do corre. Tava fechando o morro dela com polícia, político, tudo no bolso. E o Moreno sabia: se a gente não se mexesse, eles iam tomar o nosso pedaço.

Eu só pensava: Como é que eu, mulher de dono de morro também, vou virar amiga da noiva do inimigo?
Mas no mundo da favela, amizade é arma.

Na semana seguinte, fui na tal loja de vestido de noiva que ela vivia postando no Instagram. Entrei fingindo ser curiosa, elogiando o modelo que ela experimentava. Ela sorriu, desconfiada, mas sorriu.

Karol: Tu vai casar também?

Ela perguntou, toda cheia de brilho no olhar.

Lívia: estou noiva, ainda vou casar, vim escolher meu vestido também.

Ela riu. E eu senti o gelo quebrar.
Por dentro, o coração batia forte, não de medo, mas de estratégia. Eu sabia que, dali pra frente, cada palavra minha podia decidir se o morro do Moreno ia se manter de pé... ou virar pó.

À noite, contei tudo pro Moreno. Ele me ouviu em silêncio, fumando, só o brilho do balão  acendendo no escuro.

Moreno: Continua. Ganha confiança dela. Eu cuido do resto.

Foi ali que entendi: eu não era só a mulher dele. Eu era parte do plano.
E naquele jogo, amor e guerra tinham o mesmo gosto: o gosto amargo de quem sabe que pode morrer a qualquer hora.

...

Nos dias que seguiram, eu e Karol ficamos mais próximas do que eu imaginava.
Ela era diferente do que eu pensava... falava manso, ria fácil, mas tinha olhar de quem já viu coisa pesada e aprendeu a disfarçar. A diferença é que ela gostava de fingir que a vida era novela — e eu, que a vida era guerra.

Ela me chamou pra ajudar com os preparativos do casamento. Disse que gostava da minha "energia tranquila". Mal sabia ela que minha tranquilidade era fachada. Eu só tava ali pra entender o que o morro dela tava tramando.

Toda semana eu ia com ela escolher flor, comida, salão. Cada detalhe do casamento era um disfarce pra reunião de bandido.
Enquanto ela falava de véu e buquê, os caras lá de cima falavam de rota de carga, de fechar passagem, de derrubar o Moreno.

Um dia, enquanto ela experimentava o vestido, o celular dela vibrou. Eu vi o nome na tela: "Tavares — chefia".
Ela olhou rápido pra mim e atendeu, tentando disfarçar.

Karol: Amor, tô vendo os tecidos... Sim... Não, ninguém aqui, só a menina que tá me ajudando.

Menina. Era assim que ela me via. Mal sabia quem eu era de verdade.

À noite, voltei pro morro. Moreno me esperava no beco, encostado na moto.

Moreno: E aí, descobriu alguma coisa?

Lívia: Eles vão fechar o acesso da Rua Alta. Falaram de cortar o caminho da van que traz os insumos.

Ele apertou o maxilar, pensativo.

Moreno: Então é isso. Eles tão querendo cercar a gente.

Ficamos ali em silêncio. O som do baile no fundo do morro parecia parte da trilha sonora da nossa vida.

Eu devia ter sentido alívio por estar cumprindo meu papel. Mas, por algum motivo, comecei a sentir pena da Karol.
Ela me mandava mensagem de madrugada, perguntando se o vestido ficava melhor com renda ou sem.
E eu respondia, como se fosse amiga de verdade.

O problema é que, quanto mais eu fingia, mais real aquilo parecia.
E no fundo, eu sabia: quanto mais próxima eu ficasse dela, mais perigoso tudo ia se tornar.

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Foi isso gente, eu espero que tenham gostado, desculpa a demora. Até o próximo ep, bjs!

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⏰ Última atualização: Oct 30, 2025 ⏰

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