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Narrado por Lexa

Ela falou comigo.

Não diretamente, não com os olhos nos meus. Mas falou.

A voz dela cortou a noite como uma lâmina fina:
“Eu não quero guerra.”

Quis responder.
Mas comandantes não respondem a sussurros no escuro.

Fiquei ali, parada, com o corpo oculto pela vegetação e o rosto voltado na direção dela. O brilho fraco das estrelas refletia em sua pele. Havia marcas de cansaço, olheiras fundas, o peso do mundo pendurado nos ombros... mas também havia fogo.

E era esse fogo que me assustava.

Afrodite não é uma líder por título, nem por estratégia. Ela lidera por instinto. Por empatia. Por dor. É o tipo de pessoa que sangra primeiro antes de deixar outro cair. Isso... é uma virtude rara. E uma maldição constante.

Indra diria que ela é fraca.
Mas eu não consigo deixar de observar.

Ela tocou o pingente. Não o jogou fora. Não amaldiçoou. Não gritou.

Ela entendeu.

Ou ao menos tentou.

Minha mão deslizou até minha própria pele, onde carrego a mesma marca, entalhada anos atrás, quando precisei escolher entre justiça e sobrevivência. O coração dividido é mais que um símbolo. É uma sentença.

Quem carrega essa marca vive entre dois mundos.
E pertence a nenhum deles.

Por isso, observo. Ainda não falo.
Mas se ela continuar... se ela seguir escutando o silêncio, talvez, um dia, eu quebre o meu.

Ao longe, ouvi barulho no acampamento deles. Agitação. Uma briga pequena, talvez um desentendimento entre eles.

Normal.

Grupos quebram por dentro antes de serem vencidos por fora.

Mas ela… ela voltou para dentro sem correr. Sem pressa. Com os olhos ainda voltados pra floresta. Pra mim.

Eu deveria recuar. Ir embora. Dormir.
Mas fico.

Porque alguma coisa dentro de mim… está despertando.

E isso me assusta mais do que qualquer guerra.

𝙩𝙝𝙚 𝙚𝙣𝙙 𝙤𝙛 𝙩𝙝𝙚 𝟭𝟬𝟬|𝙡𝙚𝙭𝙖 𝙠𝙤𝙢 𝙩𝙧𝙞𝙠𝙧𝙪Onde histórias criam vida. Descubra agora