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Narrado por Afrodite

Eu não me lembrava da última vez que tinha dormido direito.

Minhas mãos tremiam de exaustão enquanto eu trocava os curativos no peito de Jasper. O cheiro das ervas que Bellamy e Finn trouxeram invadia o módulo, forte, quase sufocante, mas... estavam funcionando. A febre dele tinha baixado. A respiração estava menos irregular. E ele não gritava mais.

Isso deveria ser um alívio. Mas dentro de mim, só havia perguntas.

Por que eles nos ajudaram?
Terrestres não são conhecidos por misericórdia. Não depois do que ouvimos... não depois do que vimos.

Me levantei, estiquei os braços e saí por um momento, precisando de ar. O céu acima estava pesado de nuvens. Uma chuva parecia prestes a cair, como se até o clima estivesse nos empurrando para o limite.

Octávia se aproximou.

— Você acha que eles estão observando a gente agora?

Assenti com a cabeça, olhando para a linha das árvores.

— Eu sei que estão. Talvez sempre estiveram. Mas hoje... deixaram uma bolsa com cura. Poderiam ter deixado um veneno. Poderiam ter nos atacado. Mas não fizeram.

— Você acha que foi um aviso? Tipo... “podemos matar vocês, mas escolhemos não fazer”?

— Talvez. Ou talvez... seja um convite.

Octávia franziu o cenho.

— Convite pra quê?

— Comunicação. Troca. Paz.

Ela deu uma risadinha nervosa, mas não zombou. Eu a entendia. Era difícil acreditar em boas intenções quando o mundo inteiro parecia feito pra quebrar a gente.

Voltei para dentro do módulo. Monty ainda estava ao lado de Jasper, cochilando sentado com a cabeça apoiada nos braços. O rosto dele parecia o de alguém que envelheceu dez anos em duas noites.

Toquei o ombro dele, devagar.

— Vai deitar. Eu fico agora.

Ele hesitou, mas foi. E eu fiquei ali. Sozinha com Jasper, o silêncio e o cheiro das folhas que os terrestres haviam deixado.

— O que eles querem de nós? — murmurei baixinho.

Mas Jasper, claro, não respondeu.

De repente, um som suave do lado de fora. Um estalo.

Me levantei num pulo, peguei a faca improvisada que escondia sob a mesa e fui até a porta.

— Clarke? — chamei baixinho. — Finn?

Nada.

Então eu vi. Um pequeno objeto amarrado a uma árvore próxima ao módulo. Um pingente de osso, com um símbolo estranho entalhado.

Coração dividido por uma linha vertical.

Frio percorreu minha espinha.

Talvez não fosse um aviso.
Talvez fosse uma escolha.

𝙩𝙝𝙚 𝙚𝙣𝙙 𝙤𝙛 𝙩𝙝𝙚 𝟭𝟬𝟬|𝙡𝙚𝙭𝙖 𝙠𝙤𝙢 𝙩𝙧𝙞𝙠𝙧𝙪Onde histórias criam vida. Descubra agora