Vínculo

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 Lentamente retorno à consciência. Os olhos ardem, como se estivessem cheios de areia. Os músculos protestam quando tento me mover. Pisco várias vezes até perceber o peso sobre meu peito – pequenas patas espalhadas, cabelos castanhos bagunçados e um corpo pequeno me usando de colchão em um sono tranquilo.

Com o ataque e tantos lobos feridos, todos os disponíveis precisaram trabalhar dobrado para reconstruir e ajudar. Me incluo nisso, apesar dos ferimentos leves por todo o corpo.

Os dias passaram devagar, arrastando-se ao meu redor. O sol nascia e se punha sem que eu percebesse, concentrado demais em trabalhar – e não pensar.

Até que Gabi surgiu durante o jantar.

Estava em sua forma intermediária, a única que mantinha desde o trauma. Os olhos vermelhos e a postura trêmula. A pequena parecia miserável no colo do avô, que, ocupado demais com os problemas da alcateia, não notou que os olhos redondos da neta já não brilhavam.

Foi ali que percebi: o mundo havia desabado em segundos.

Olhos verdes brilhantes substituídos por fogo e sangue, rápido demais para compreender.

Vampiros. Morte. Fumaça. Ossos quebrados. Erwin. Kenny... Eren.

Um suspiro choroso escapou da pequena quando a ergui em meus braços, ignorando os olhares surpresos da alcateia enquanto caminhava até uma cabana específica.

Eren estava em seu ninho quando entramos. Dormia desde o dia em que caiu naquela clareira, praticamente quebrado ao meio por um vampiro com séculos demais para ser vencido tão facilmente.

Foi o estado feral que nos salvou.

Eu lidaria com isso depois.

Silenciei a voz dentro de mim e ajustei Gabi entre Eren e eu, deitando-me com os dois naquela noite. Depois de tantos dias, finalmente senti algum calor.

Ela murmurou baixinho, mas dormiu logo, provavelmente derrubada pelos feromônios de proteção que impregnavam o ambiente.

Eu não percebia o quanto estava exausto.

Tal como ela.

Apaguei ali mesmo, com o corpo pressionado contra aqueles que jurei – no fundo da mente perturbada e feroz – proteger com minha vida.

Acostumado à luz, observei Gabi me usando de cama. Estava confortável demais para me mexer. O cheiro tranquilo e suave de leite me deixava preguiçoso, mesmo sem saber ao certo o que havia me despertado.

Seu rostinho bronzeado parecia sereno à luz da manhã. Os cílios castanhos desenhavam um rosto ainda gordinho de uma boa infância. Bochechas cheias, alimentadas por segurança. Lábios entreabertos, relaxados. Confiança pura na proteção dos adultos ao redor.

Diferente do que tive na minha infância.

De tudo o que precisei fazer para sobreviver. Do que abri mão. Da felicidade e da saúde que nunca desfrutei.

Uma onda de proteção me atravessou inteiro. Encarei o filhote com mais afinco, jurando agora, consciente, no mais profundo do meu âmago:

Eu a manteria segura. Custe o que custar.

Gabi nunca seria manchada como eu. Nunca experimentaria aquilo. Sempre seria merecedora do melhor.

Eu garantiria isso.

– Você é perfeito. – Suspirei.

Levei alguns segundos para perceber o quão próximo estava de Eren. Seu corpo dourado agora estava deitado de lado – diferente dos dias anteriores sob o feitiço de recuperação. Arregalei os olhos, surpreso.

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