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Dez

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- Como será que está o Robin? - perguntou Marcos, subindo a escada atrás de Kevin.
- Só espero que não tenha rasgado nada. Por que se não, minha mãe vai me matar. - respondeu abrindo a porta do apartamento.
Ao entrar, Kevin se deparou com seu pai sentado em uma cadeira virada para a porta aguardando sua chegada, enquanto brincava com o cachorro, que dava mordidas em seu dedo indicador.
- Opa! E aí filhão, se divertiu? -Perguntou o homem careca, com porte levemente atlético, não treinava, mas a genética e o trabalho como pedreiro, mantinha o corpo definido.- Ha, o Marcos está com você! E ai garotão, tudo bom?
- Opa, Boa noite tio Ricardo, como vai o senhor e a tia Maria? -perguntou tirando o sapato e deixando ao lado da porta.
- Não muito bem na verdade... -Marcos olhou para ele estranhando.
- Vocês chegaram cedo pai, cófoi? -Kevin também estranhou.
- Sobre isso, eu preciso falar com você a sós. -fixou o olhar em Kevin.
- Entendi o recado! Vou dar uma volta com o Robin, se não se incomodarem. -Marcos pegou o cachorro e foi em direção a saída, ao fechar a porta percebeu um vulto passando do banheiro para o seu quarto, pensou ter sido dona Maria.
- Senta ai filho. -Ele apontou para a cadeira que antes estava sentado, e Kevin o obedeceu.
- Olha aconteceu muita coisa nessa viagem e uma dessas coisas foi que descobrimos que sua tia Joelma, a irmã da sua mãe está num estágio avançado de câncer.
- A tia Joelma? Oxi! Mas assim do nada? - a notícia pegou Kevin de surpresa.- Ninguém disse nada? Como assim, qual estado ela tá? Qual tipo de câncer?
- É meu filho, por isso eu pedi para você sentar. É uma notícia chocante.. sua tia está em cuidados paliativos, ela está internada no hospital, pois quando descobriu o câncer já tinha se alastrado por todo o tronco.
- Mas qual era o câncer pai?
- Câncer de mama, Kevin.
- E não dá pra resolver só removendo o tumor? -perguntou ainda em estado de choque.- E minha mãe, como é que ela está com isso? -Ele se levantou indo em direção ao quarto.
- Kevin! -o menino parou.- Sua mãe não está aí. Ela ficou com a sua tia.
- Mas..- ele levantou da cadeira mas foi interrompido.
- Termina de me ouvir, senta aqui! -o menino voltou.
- O tumor dela, causou um negócio lá que eu esqueci o nome, que é quando o tumor vai para outro lugar.
- Metástase.
- Isso. A gente não mandou mensagem, para não estragar seu dia, com uma notícia tão ruim.
- Mas pai, e minha mãe?
- Ela está se fazendo de dorte, meu filho. Eu vou precisar voltar..
- Eu também vou! -Kevin se levantou.
- Não, você não vai.
- Oxi?! Por quê não.
- Por quê eu preciso que você fique com a Yullia.
- A Yullia, pai? -perguntou sem entender nada, com um rosto confuso.
- É, a sua prima.
- A Yullia tá aqui?
- Sim, ela não parava de chorar, e sua tia tinha medo de que ela fizesse algo ruim entende? -ele fez um gesto passando o dedo no pescoço, como se fosse uma guilhotina.
- Como assim pai? Por quê ela faria algo assim?
- Eu tive que trazer ela, pra você ficar cuidando dela. Ela sabe do estado da mãe e Maria pensou que fosse melhor deixar ela com você.
- Como assim? Não é assim que cuida de outra pessoa pai, ela não é criança.
- Ela tem aquele negócio lá, a tal da depressão.
- Mas pai... -ele foi interrompido com um grito de seu pai.
- KEVIN! -o menino parou. E o pai apontou com a cabeça para o seu quarto, quando Kevin virou na direção viu uma mulher, ela segurava uma pelúcia de urso que ganhara de sua mãe. ao perceber que fora notada, voltou para dentro do quarto.- Não complete a frase, você é a única pessoa confiável, você vai cuidar dela sim, eu sei que vai. Agora eu preciso ir, seja o homem incrível e maravilhoso que eu sei que você é, alias você é meu filho não é.
- Mas pai..
- Sem mas Kevin! Promete pra mim que vai cuidar dela? - o garoto titubeou.
- Prometo! Mas depois não reclama se ela aparecer vestida de short da batedeira e camisa do Vitória.
- Não Kevin, tudo menos o Vitória. - o garoto sorriu, recebeu um beijo na testa de seu pai e se despediu. Ricardo desceu rapidamente as escadas, entrou no carro, um hb20 branco que estava estacionado e sumiu junto com os últimos raios de sol da tarde daquele dia.

Kevin passou algum tempo refletindo e pensando sobre o que aconteceu, ele nem acreditava que aquilo era real, como ele iria cuidar de outra pessoa, se mal cuidava dele mesmo? E por que não avisaram antes? Por que não disseram nada sobre o caso da tia, ou será que disseram mas ele estava desatento demais para prestar a atenção, eram muitas perguntas, por um momento a mente dele simplesmente ficou em silêncio e nada passou por ela, ele estava em êxtase, mas foi interrompido pelo click da porta abrindo e a zuada do Marcos brincando com o cachorro.

-Vem meu gosto, mostra pra ele o que você aprendeu. -disse Marcos girando o dedo sobre o cachorro para fazer ele rodar. - Que cara séria é essa irmão? O quê que aconteceu?
- Meu pai acabou de contar que minha tia está em estado terminal, por conta de um câncer de mama... - Kevin ficou olhando para a parede.
- Caralho...
- E aparentemente trouxe minha prima, pra eu cuidar. -Ele apontou na direção do quarto.- E eu acho que ela tá lá.
- Caramba mano, uma barra pra uma criança passar.
- Ela tem a minha idade.
- Ah. -Marcos coçou a cabeça.
- Eu não sei o que fazer, tem tanto tempo que não vejo ela, que não falo com ela. Não posso simplesmente chegar e falar, e ai, triste né? Uma pena mesmo...
- Primeiro: Deixe de maluquice. Segundo: Você tem que ir, por que eu não posso ir no seu lugar. Se não, eu já estaria lá.
- E eu digo o quê? -Olhou para seu amigo com uma cara de desespero.
Marcos segurou o seu rosto delicadamente, com as duas mãos. Olhou no seus olhos com um olhar de paz. - O que o seu coração quer dizer? -Kevin deságuo em lágrimas e Marcos abraçou ele ali mesmo. -Aparentemente seu coração quer dizer muita coisa. Tá tudo bem meu amigo, pode chorar. Eu tô aqui!
- Como eu vou cuidar de alguém, se eu não sei cuidar nem de mim, Marcos?
- Como não? Você vive cuidando de mim!
- É diferente, eu não preciso de fato cuidar de você, nunca fiz nada de mais.
- E é exatamente por isso. Cuidar nem sempre é saber o que fazer, às vezes é só estar ali. Não precisa de palavras de apoio, ou fingir ser um herói... Só esteja ali, as pessoas precisam saber que não estão sozinhas, e é nesta certeza que encontramos um motivo para continuar e seguir.
Kevin olhou novamente nos olhos de Marcos, quando seu amigo colocou a mão em sua cabeça e ficou dando tapinhas. - Passou, passou, num chora, passou. - Falou com uma voz infantil.
- Idiota. -Kevin riu
- Agora vai lá, fala com ela, traz ela pra cá, eu vou fazer algo pra comermos.
- ... Tá bom. -respirou fundo, levantou e foi na direção do quarto.

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⏰ Última atualização: Aug 12 ⏰

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