— Ok, isso está passando dos limites — eu disse, começando a sentir a mesma queimação dolorosa de antes. — Me diga logo o que está acontecendo.
— Você me ouviu, Anne — meu pai disse como se estivesse me dando uma bronca. — Eu traí a sua mãe e menti sobre isso durante anos. Por isso nos separamos —sua voz foi ficando baixa. — E eu menti sobre você durante toda a sua vida.
— Mentira! — o grito escapou da minha garganta de repente, carregado de raiva.
Aquilo pareceu surtir um efeito maior do que o esperado. Todos na sala ficaram tensos com minha explosão repentina e apertaram os olhos com força como se aquilo tivesse provocado dor em seus ouvidos. Tanta dor que um deles — o que estava mais perto de mim — perdeu a concentração e acabou tirando a mão da linha do arco, disparando a flecha na direção de Kevin.
Ouvi seu grito de dor e raiva quando a flecha entrou em sua coxa direita, registrando toda aquela cena por minha visão periférica.
— Está mentindo! — gritei de novo para o meu pai, que sofria claramente com tudo aquilo. — Quer me mandar embora porque está acreditando em tudo que esse bando de idiotas está dizendo. Você acredita neles!
Senti a raiva se espalhar pelo meu corpo, queimando cada centímetro.
— Acredita mesmo em cada palavra do que estão dizendo? — perguntei, entredentes.
Antes que meu pai pudesse dizer qualquer coisa eu ouvi o barulho seco das flechas cortando o ar, errando seus alvos por pouco, parando apenas quando encontravam algo sólido. A flecha que Erian tanto queria que afundasse em meu crânio acabou passando bem perto do ombro já ferido — e curado — de Grigori, indo em minha direção, e me errando por pouco até que sua trajetória em linha reta foi interrompida pelo encosto do sofá.
Captei um movimento repentino pelo canto do olho. Kevin havia arrancado a flecha da sua perna e não parecia nem um pouco feliz com a quantidade de sangue que jorrava do ferimento. Mas também não pareceu se importar muito com a distância que tinha entre ele e o arqueiro, porque ele girou a flecha com a ponta virada para frente e deu dois passos longos o suficiente pra devolver a flecha para o lugar de onde ela tinha vindo: as costas do arqueiro. O problema — pra ele, não pra mim — é que Kevin quis fazer isso do jeito mais difícil, ou seja, enfiando a flecha pelo estômago até a ponta aparecer nas costas do atirador, que cuspiu um bolo de sangue e caiu de cara no chão quando foi largado.
Grigori pareceu ter gostado da ideia de deixar alguém possivelmente morto no chão da minha sala e aproveitou a distração de Erian, indo em sua direção e se jogando em cima dele, enchendo-o de socos do lado esquerdo do rosto. Deimos começou a se mover para tirar Grigori de cima de Erian, mas alguém acabou pulando em suas costas antes que pudesse dar mais de dois passos e, segundos depois, a sala virou um ringue de luta.
Eu olhava de um lado para o outro, para a minha casa que ficava cada vez mais destruída, agradecendo a qualquer um que fosse divino o bastante para ouvir meus pensamentos por estar no horário de trabalho e não ter ninguém passando na rua para perceber, pensar ou imaginar que estávamos dando uma festa, literalmente, de arromba. Até que meu olhar parou no primeiro cara que Kevin atingiu. Ele permanecia imóvel no chão, a flecha atravessando seu corpo, uma poça de sangue se formando embaixo dele, um arrepio percorrendo meu corpo...
Fiquei apenas olhando para o corpo, ficando tonta, registrando os barulhos doentios das lutas pela sala e o crescimento da poça densa e escura. Eu já sabia que tinha sangue demais ali.
Tinha um cara morto na minha sala. Tinha um cara morto na minha sala. Um cara morto na minha sala. Morto na sala. Morto. Na. Sala. MORTO!
Meu corpo tremeu com tanta força que chegou a doer. Achei que fosse vomitar. Levei uma mão à boca e outra ao estômago, lembrando que não tinha comido nada ainda. Mesmo assim, meu cérebro me alertou que alguma coisa iria sair se eu não parasse de olhar.
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Os Guerreiros de Antares - Trégua
FantasyAnnelise Boudelaire é apenas mais uma habitante do mundo que conhecemos e seu grau de importância é tão comum quanto para qualquer outra pessoa: ela tem amigos e tem família. No entanto ela acaba por descobrir que toda a sua vida fora estruturada a...